ALERTA NA LOGÍSTICA

Seca derruba nível do rio Paraguai em MT e ameaça navegação e transporte de cargas no Pantanal

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Seca derruba nível do rio Paraguai em MT e ameaça navegação e transporte de cargas no Pantanal

Por José Teixeira

Em Cáceres, rio registrou apenas 77 centímetros, contra média histórica de 1,42 metro; cenário preocupa setor produtivo e transporte fluvial

A estiagem que atinge importantes bacias hidrográficas do Brasil colocou em alerta o sistema de transporte fluvial da Amazônia e do Pantanal, com reflexos diretos sobre Mato Grosso. No rio Paraguai, um dos principais corredores hidroviários da região Centro-Oeste, os níveis de água permanecem abaixo dos padrões históricos, aumentando a preocupação com a navegabilidade e o escoamento de cargas.

Informações divulgadas neste domingo, 18 de outubro de 2026, com base em relatório do Ministério de Portos e Aeroportos, mostram que o cenário de seca extrema persiste na bacia do Paraguai, enquanto outras hidrovias utilizadas pela produção agrícola mato-grossense também enfrentam dificuldades.

O levantamento federal retrata principalmente a situação registrada em 30 de setembro, com informações consultadas até 5 de outubro. Portanto, os números não representam medições realizadas neste domingo.

Em Cáceres, no oeste de Mato Grosso, o rio Paraguai registrou nível de apenas 77 centímetros em 30 de setembro. Para o mesmo período, a mediana histórica é de aproximadamente 1,42 metro.

A diferença representa 65 centímetros abaixo da referência histórica e evidencia a redução do volume de água disponível em um dos trechos mais importantes da hidrovia.

A situação também preocupa em Mato Grosso do Sul.

Em Ladário, o nível observado foi de 1,18 metro, diante de uma mediana histórica de 2,55 metros. Já em Porto Murtinho, a medição chegou a 2,38 metros, enquanto a referência histórica é de 4,48 metros.

O cenário exige atenção porque a redução da profundidade pode limitar o carregamento de embarcações, dificultar a passagem por determinados trechos e provocar alterações nas operações de transporte.

A hidrovia do Paraguai integra uma importante rede de transporte de mercadorias que conecta o Pantanal aos sistemas portuários de países como Argentina e Uruguai.

A navegação possui relevância para operações comerciais envolvendo produtos agrícolas, minerais e outros tipos de cargas.

Quando os rios apresentam níveis insuficientes para a circulação regular de embarcações, empresas podem ser obrigadas a reduzir o peso transportado, reorganizar viagens ou buscar alternativas logísticas.

Essas mudanças podem elevar os custos operacionais e comprometer a competitividade dos produtos transportados.

Na seca de 2024, a movimentação de cargas na hidrovia do Paraguai caiu para aproximadamente 3,3 milhões de toneladas, redução de cerca de 58% em comparação ao ano anterior.

O dado demonstra a dimensão econômica que períodos prolongados de estiagem podem alcançar.

Embora o levantamento mais recente indique situação preocupante, o alerta não significa que a navegação tenha sido integralmente suspensa ou que exista declaração formal de emergência em toda a hidrovia.

Outro ponto de atenção para o agronegócio mato-grossense está na hidrovia do Tapajós, utilizada para transportar parte da produção de soja e milho destinada à exportação.

Uma parcela significativa dos grãos sai de Mato Grosso por rodovia, principalmente pela BR-163, até terminais de transbordo na região de Miritituba, no Pará.

A partir desses terminais, a produção segue em barcaças até estruturas portuárias conectadas ao mercado internacional.

Segundo dados apresentados pelo Ministério de Portos e Aeroportos, a hidrovia do Tapajós movimentou 2,38 milhões de toneladas no primeiro bimestre de 2026. Soja e milho representaram 86% desse total.

Entretanto, as condições de navegabilidade também inspiram preocupação.

Em 30 de setembro, o nível do rio em Itaituba era de 2,40 metros, após redução de 1,91 metro durante o mês. Em Santarém, a medição chegou a 2,63 metros, com queda de 2,10 metros.

A redução da profundidade pode comprometer a capacidade operacional das embarcações e pressionar os custos do corredor logístico conhecido como Arco Norte.

Em agosto, entidades ligadas à Frente Parlamentar da Agropecuária estimaram que dificuldades relacionadas à dragagem do Tapajós poderiam gerar impacto de até R$ 850 milhões na cadeia produtiva. Trata-se de uma projeção de risco, não de prejuízo efetivamente registrado.

Diante das dificuldades, o governo federal informou que mantém contratos de dragagem e manutenção de trechos hidroviários considerados estratégicos.

No rio Paraguai, os investimentos previstos para dragagem, manutenção e adequação de sinalização somam R$ 69,6 milhões.

Outros R$ 15,42 milhões são destinados à supervisão dos serviços e R$ 9,57 milhões à gestão ambiental, totalizando R$ 94,59 milhões nas três frentes informadas.

Segundo o Ministério de Portos e Aeroportos, os contratos estão no terceiro ano de um período de execução de cinco anos.

As intervenções buscam retirar sedimentos acumulados em trechos críticos e melhorar as condições de circulação das embarcações, sem necessariamente aprofundar de forma permanente o leito dos rios.

O governo também mantém ações em outras hidrovias da Amazônia, consideradas fundamentais para o abastecimento regional e o transporte de produtos agrícolas.

O relatório federal aponta persistência da seca extrema na bacia do Paraguai e prevê níveis inferiores a um metro em Ladário durante outubro e novembro.

O quadro deverá manter a atenção de operadores logísticos, empresas de transporte, produtores rurais e autoridades responsáveis pela infraestrutura hidroviária.

Para Mato Grosso, a preocupação é especialmente relevante porque a eficiência do transporte constitui um dos principais fatores de competitividade da produção agropecuária.

Qualquer dificuldade prolongada nas rotas fluviais pode ampliar a dependência do transporte rodoviário e afetar os custos de movimentação das mercadorias.

Apesar dos riscos, ainda não existem elementos suficientes no levantamento para afirmar que todas as operações hidroviárias serão interrompidas.

O comportamento das chuvas, os níveis efetivos dos rios e a execução dos serviços de manutenção serão determinantes para avaliar a evolução do cenário nas próximas semanas.