CRISE SEM FIM

Gaeco suspeita que vídeo de Rogerinho da Dakar com maços de dinheiro foi vazado após rompimento com Wanderley e aproximação de Moretti

· 5 min de leitura
Gaeco suspeita que vídeo de Rogerinho da Dakar com maços de dinheiro foi vazado após rompimento com Wanderley e aproximação de Moretti

VÍDEO SOB INVESTIGAÇÃO

JBNews

Por José Teixeira

Relatório da Operação Cathedra Venalis aponta possível motivação política na divulgação das imagens; denúncia menciona escritório na casa da mãe do presidente da Câmara de VG e presença de Samir Japonês.

O Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco) investiga se o vazamento do vídeo que mostra o vereador Rogério de França Martins, conhecido como Rogerinho da Dakar (PSDB), recebendo maços de dinheiro em espécie teria sido motivado pelo rompimento político com o presidente da Câmara Municipal de Várzea Grande, Wanderley Cerqueira (MDB), e pela aproximação do parlamentar com a prefeita Flávia Moretti (PL).

A suspeita consta de informações atribuídas a um relatório técnico da Operação Cathedra Venalis, divulgadas nesta quarta-feira (21 de outubro). O documento integra a investigação sobre possíveis pagamentos de propina, compra de apoio político, negociações financeiras e utilização de gravações clandestinas para pressionar vereadores.

O vídeo veio a público em 10 de agosto de 2026, quando Rogerinho ocupava a presidência do Departamento de Água e Esgoto de Várzea Grande (DAE-VG). Nas imagens, com duração inferior a dois minutos, o então dirigente aparece sentado diante de uma mesa com vários maços de dinheiro. Um homem entrega cédulas ao vereador, que guarda parte delas no bolso. Em seguida, o interlocutor coloca mais dinheiro em uma sacola rosa e a entrega a Rogerinho, que deixa o local.

O valor total, a origem dos recursos, a data da gravação e a finalidade do pagamento não foram esclarecidos publicamente.

A nova linha investigativa procura identificar não apenas as circunstâncias da entrega do dinheiro, mas também quem realizou a gravação, quem tinha acesso às imagens e por qual motivo o vídeo foi divulgado naquele momento.

Segundo informações atribuídas ao relatório do Gaeco, um denunciante afirmou que o encontro registrado nas imagens teria ocorrido em um escritório localizado na residência da mãe de Wanderley Cerqueira, no bairro Jardim Imperador, em Várzea Grande.

O relato menciona a possível presença de Rogerinho da Dakar, Wanderley Cerqueira e Samir Japonês (PL), ex-vereador e secretário ligado ao Legislativo municipal.

Conforme a denúncia, Wanderley teria participado do encontro na condição de responsável pelo suposto pagamento de um mensalinho destinado a garantir apoio político dentro da Câmara. Essa versão ainda depende de confirmação por provas independentes.

Outro detalhe mencionado no relatório envolve possíveis alterações realizadas no imóvel onde a gravação teria ocorrido.

De acordo com o relato, ao comentar com uma pessoa próxima sobre as características do local, o denunciante teria recebido um alerta de que o ambiente já não existiria da mesma forma, numa referência a reformas que poderiam ter modificado a estrutura original.

Os investigadores procuram esclarecer se o imóvel corresponde efetivamente ao cenário registrado no vídeo e se eventuais mudanças têm alguma relação com os fatos investigados. A existência de reformas, por si só, não comprova tentativa de ocultação de provas.

A hipótese sobre a divulgação das imagens ganha relevância diante da mudança na relação política entre Rogerinho, Wanderley e o grupo da prefeita Flávia Moretti.

Conforme informações divulgadas sobre a investigação, o vazamento teria ocorrido depois de um afastamento político entre Rogerinho e Wanderley, em meio à reorganização das alianças na Câmara Municipal.

A divulgação do vídeo provocou forte repercussão política e contribuiu para a saída de Rogerinho da presidência do DAE, formalizada em 18 de agosto.

Após deixar a autarquia, o parlamentar retomou suas atividades na Câmara Municipal e passou a exercer a liderança política da prefeita Flávia Moretti no Legislativo.

A sequência dos acontecimentos passou a ser considerada pelos investigadores como um possível indicativo de que a divulgação das imagens poderia estar relacionada às disputas pelo controle político do município.

Entretanto, a coincidência temporal entre o rompimento e o vazamento não demonstra, isoladamente, quem divulgou o material ou com qual intenção.

Na época em que o vídeo começou a circular, Rogerinho afirmou ter sido surpreendido pela exposição das imagens e negou que o episódio tivesse relação com irregularidades na administração pública.

O vereador declarou que atua como empresário há vários anos e que os valores recebidos seriam provenientes de transações comerciais particulares. Ele não detalhou publicamente qual negociação estava representada na gravação nem apresentou o valor total envolvido.

Rogerinho também colocou seus dados bancários e os de familiares à disposição dos órgãos de controle e defendeu uma investigação sobre sua passagem pelo Departamento de Água e Esgoto.

No final de agosto, apresentou um requerimento para abertura de Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a examinar sua própria gestão na autarquia, alegando interesse em esclarecer denúncias e demonstrar a regularidade dos atos administrativos.

O vídeo também teve repercussão dentro da Câmara de Várzea Grande. Durante uma sessão realizada em 25 de agosto, Wanderley Cerqueira interrompeu a fala de Rogerinho quando o parlamentar tentava comentar um áudio vazado relacionado ao episódio.

Na ocasião, Rogerinho criticou a divulgação de conversas privadas e afirmou ser alvo de perseguição política.

A investigação sobre o possível vazamento intencional das imagens ocorre paralelamente às suspeitas de que gravações clandestinas poderiam ter sido produzidas em ambientes vinculados a integrantes do grupo político investigado pelo Gaeco.

Depoimentos reunidos no procedimento apontam a possível existência de equipamentos utilizados para registrar encontros e negociações sem o conhecimento de todos os participantes.

A suspeita é de que esses registros pudessem funcionar como instrumentos de pressão para assegurar apoio político e impedir o rompimento de acordos envolvendo a composição da Mesa Diretora.

O Gaeco também apura relatos sobre supostos pagamentos mensais de R$ 10 mil a vereadores e ofertas de vantagens financeiras para garantir votos na eleição da presidência da Câmara.

Essas acusações ainda não foram comprovadas judicialmente, e não há elementos públicos suficientes para afirmar que o dinheiro mostrado no vídeo de Rogerinho corresponda a pagamentos de propina ou ao suposto mensalinho.

A Operação Cathedra Venalis foi deflagrada em 20 de outubro, com o cumprimento de 30 mandados de busca e apreensão em Cuiabá, Várzea Grande e Chapada dos Guimarães. A ação mobilizou mais de 200 policiais e alcançou vereadores, servidores e pessoas relacionadas às articulações políticas do Legislativo várzea-grandense.

Durante a operação, Rogerinho informou que recebeu os policiais em sua residência e entregou documentos relacionados à sua gestão no DAE.

Segundo o parlamentar, os investigadores recolheram um dossiê com informações sobre licitações e procedimentos administrativos realizados durante os meses em que esteve à frente da autarquia.

Rogerinho reiterou que o vídeo foi apresentado fora de contexto e voltou a negar irregularidades em sua atuação pública.

Samir Japonês também negou envolvimento em pagamentos relacionados à eleição da Mesa Diretora. Após ter o telefone celular apreendido durante as diligências, declarou que se considera vítima de perseguição política, mas afirmou não possuir elementos para responsabilizar alguém.

Wanderley Cerqueira, por sua vez, negou irregularidades relacionadas à investigação e questionou publicamente a operação. Não foi localizada manifestação específica do presidente da Câmara sobre a hipótese de participação no vazamento do vídeo de Rogerinho.

A investigação deverá avançar sobre os arquivos digitais apreendidos, mensagens trocadas entre os envolvidos, registros de comunicação e eventuais informações que permitam identificar a origem da gravação.

Um dos pontos a esclarecer é se o vídeo foi produzido com o conhecimento de Rogerinho ou mediante equipamento oculto. Também será necessário verificar se o material original permanece disponível e se passou por cortes ou edições antes de sua divulgação.

Outra questão é identificar a natureza da transação financeira registrada nas imagens. A análise poderá envolver documentos comerciais, registros bancários, identificação do homem que aparece entregando o dinheiro e eventual confronto dessas informações com os depoimentos reunidos pelo Ministério Público.

Até o momento, não foi localizada decisão judicial que reconheça a existência de propina no episódio, identifique formalmente o responsável pelo vazamento ou estabeleça a motivação política como fato comprovado.

O relatório técnico divulgado pela imprensa constitui elemento de investigação e não equivale a uma condenação ou a uma conclusão definitiva sobre a responsabilidade dos envolvidos.

A Operação Cathedra Venalis continua em andamento, e a análise do vídeo poderá ajudar a esclarecer se sua divulgação foi um episódio isolado ou se integra um possível sistema de gravações, pressões e negociações utilizado nas disputas políticas da Câmara Municipal de Várzea Grande.

VEJANO VÍDEO

0:00
/1:47