Cathedra Venalis

Propina de R$ 500 mil por vereador, “mensalinho” e plano para derrubar Moretti: os bastidores do esquema investigado pelo Gaeco

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Propina de R$ 500 mil por vereador, “mensalinho” e plano para derrubar Moretti: os bastidores do esquema investigado pelo Gaeco

JB News

Por José Teixeira

ESCÂNDALO NA CÂMARA DE VG

Propina de R$ 500 mil por vereador, “mensalinho” e plano para derrubar Moretti: os bastidores do esquema investigado pelo Gaeco

Processo da Operação Cathedra Venalis revela denúncias de compra de votos, dinheiro em sacolas, ameaças, gravações clandestinas e negociações envolvendo o DAE e o controle político de Várzea Grande.

A investigação que deu origem à Operação Cathedra Venalis, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco) na terça-feira (20 de outubro), revelou suspeitas de um esquema de corrupção política envolvendo a Câmara Municipal de Várzea Grande, com propostas de pagamentos de até R$ 500 mil por vereador, ofertas de R$ 100 mil em troca de votos e um suposto pagamento mensal de R$ 10 mil para assegurar fidelidade política.

Os detalhes vieram a público nesta quarta-feira (21), a partir de depoimentos, relatórios de inteligência e informações do procedimento investigativo que fundamentou as medidas judiciais. O presidente da Câmara, Wanderley Cerqueira (MDB), aparece como figura central das suspeitas, que incluem possíveis articulações para cassar a prefeita Flávia Moretti (PL) e viabilizar interesses econômicos envolvendo o Departamento de Água e Esgoto (DAE).

Os valores são mencionados em depoimentos e documentos da investigação, mas não representam pagamentos efetivamente comprovados. O Ministério Público busca identificar se houve transferência de recursos, quem teria financiado eventuais vantagens e quais agentes públicos ou particulares participaram dos fatos investigados.

A operação mobilizou mais de 200 policiais para o cumprimento de 30 mandados de busca e apreensão domiciliar, pessoal e veicular em Várzea Grande, Cuiabá e Chapada dos Guimarães. A investigação alcançou vereadores dos dois municípios, servidores públicos e pessoas relacionadas às articulações políticas em torno da eleição da Mesa Diretora do Legislativo várzea-grandense.

Uma das revelações envolve o depoimento do vereador Caio Cordeiro (Novo). Ele afirmou ao Ministério Público que Wanderley Cerqueira teria oferecido R$ 100 mil para garantir seu voto na disputa pela presidência da Câmara. Segundo o relato, o dinheiro estaria guardado em uma sacola dentro de um escritório localizado na residência da mãe do presidente do Legislativo.

Caio declarou que recusou a proposta. Também relatou ter recebido uma oferta de R$ 10 mil mensais para integrar o grupo político ligado à presidência da Casa. Conforme seu depoimento, o pagamento seria custeado pela empresa União Transportes e Turismo Ltda., por intermédio de Rômulo Botelho, irmão do ex-presidente da Assembleia Legislativa Eduardo Botelho.

A suposta proposta teria surgido depois que Caio começou a fiscalizar questões relacionadas ao transporte coletivo municipal e a defender a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o serviço.

O vereador também afirmou que Wanderley teria mencionado receber auxílio financeiro de até R$ 200 mil mensais para manter sua base política. Entretanto, Caio ressaltou aos investigadores que não possui elementos para afirmar que outros parlamentares efetivamente receberam o chamado mensalinho.

Outro eixo da investigação envolve a possível concessão ou privatização do DAE. Segundo o depoimento de Caio Cordeiro, Wanderley teria mencionado a possibilidade de distribuir aproximadamente R$ 500 mil a cada vereador caso uma operação envolvendo a autarquia fosse concretizada.

A suspeita é de que o controle da Mesa Diretora pudesse servir para viabilizar decisões políticas e administrativas relacionadas ao setor de saneamento básico, com eventual distribuição de vantagens financeiras.

Os documentos também mencionam o ex-presidente do DAE Rogério França Martins, conhecido como Rogerinho da Dakar. Investigadores receberam um vídeo em que ele aparece supostamente recebendo dinheiro em um escritório. A procedência dos valores, sua finalidade e a eventual conexão com o esquema investigado ainda precisam ser esclarecidas.

Até o momento, não há comprovação, nas informações publicamente divulgadas, de que os R$ 500 mil tenham sido pagos a parlamentares ou de que a privatização do DAE tenha sido efetivada.

A investigação também passou a examinar uma possível articulação para retirar Flávia Moretti do comando da Prefeitura de Várzea Grande. Conforme relatos reunidos pelo Gaeco, integrantes do grupo teriam discutido a formação de uma maioria na Câmara capaz de instaurar um processo de cassação da prefeita.

Essa possibilidade ganhou importância política após a renúncia do então vice-prefeito Sebastião dos Reis Gonçalves, conhecido como Tião da Zaeli. Na hipótese de afastamento definitivo da prefeita e diante da vacância do cargo de vice, a sucessão municipal poderia alcançar o presidente da Câmara, observadas as regras legais.

Tião da Zaeli também foi mencionado por uma testemunha de identidade preservada como possível articulador político ligado ao grupo de Wanderley Cerqueira. A investigação examina sua eventual participação nas negociações, sem que a referência no procedimento represente comprovação de prática criminosa.

Além das suspeitas financeiras, o Gaeco apura denúncias de ameaças, constrangimentos e mecanismos de controle sobre o voto dos parlamentares.

Uma testemunha relatou que vereadores teriam assinado cartas de renúncia durante encontros políticos realizados em uma chácara vinculada ao vereador Miguel Júnior. Esses documentos supostamente seriam utilizados para garantir o cumprimento de compromissos assumidos pelos integrantes do grupo.

O procedimento também descreve a possível existência de gravações clandestinas realizadas em um escritório associado a Wanderley Cerqueira. A suspeita é de que parlamentares fossem filmados sem conhecimento enquanto participavam de negociações financeiras e que essas imagens fossem posteriormente utilizadas como instrumento de pressão.

O vereador Kleberton Feitoza (PSB) é mencionado em relatos sobre a suposta utilização dessas gravações. A vereadora Rosi Prado (União) chegou a registrar boletim de ocorrência relatando ameaças envolvendo a divulgação de vídeos e informações que poderiam comprometê-la.

Caio Cordeiro também relatou episódios de intimidação. Segundo seu depoimento, uma mochila contendo notebook, documentos de fiscalização e arquivos relacionados à proposta de instalação de CPI teria sido furtada. Posteriormente, ele teria recebido ameaças, incluindo uma imagem de arma de fogo e exigências para retirar o boletim de ocorrência.

O parlamentar afirmou, porém, que não dispõe de provas para atribuir o furto ou as ameaças ao presidente da Câmara ou a outros agentes políticos mencionados no caso.

As investigações ainda analisam episódios de exoneração de servidores indicados por parlamentares que teriam se afastado politicamente do grupo, sob suspeita de que cargos comissionados fossem utilizados como instrumentos de negociação e retaliação.

A chácara localizada na região do distrito de Nossa Senhora da Guia, em Cuiabá, também ocupa posição importante na apuração.

Denúncias encaminhadas ao Ministério Público apontaram que parlamentares teriam permanecido reunidos no imóvel antes da eleição da Mesa Diretora, supostamente sob vigilância de seguranças armados. Investigadores reuniram registros de movimentação de veículos e pessoas na propriedade.

Sargento Galibert confirmou publicamente que esteve na chácara, mas negou a ocorrência de compra de votos. Miguel Júnior, por sua vez, afirmou que o encontro foi uma confraternização na propriedade de seu pai e também negou irregularidades.

A investigação alcançou ainda os vereadores de Cuiabá Alex Rodrigues e Ilde Taques, ambos do Podemos.

Conforme documentos apresentados à Justiça, os dois estavam em um Volkswagen T-Cross, acompanhados de um assessor, quando foram abordados por policiais militares após saírem da região da Guia. Durante a fiscalização, foram encontrados R$ 40 mil em espécie.

Os ocupantes informaram que o dinheiro era proveniente de um empréstimo particular. O Gaeco investiga a origem dos recursos e eventual ligação com as suspeitas envolvendo a eleição da Câmara de Várzea Grande. A localização do dinheiro, isoladamente, não comprova corrupção.

A apuração envolve ainda as circunstâncias da eleição realizada em 14 de maio de 2026, quando Wanderley Cerqueira foi reconduzido à presidência do Legislativo para o biênio 2027-2028, derrotando Lucas do Chapéu do Sol (PL) por 12 votos a 11.

O resultado, entretanto, acabou anulado pelo Supremo Tribunal Federal. Em decisão de 21 de maio, o ministro Dias Toffoli considerou irregular a antecipação da votação, que contrariava o período permitido para a escolha da futura Mesa Diretora.

A decisão do STF tratou da legalidade do calendário eleitoral da Câmara e não constitui reconhecimento judicial das acusações de compra de votos investigadas pelo Ministério Público.

A Operação Cathedra Venalis foi autorizada pelo juiz Cássio Leite de Barros Netto, do Núcleo de Justiça 4.0 do Juiz das Garantias. Além das buscas e apreensões, a decisão permitiu a extração e análise de dados armazenados em celulares, computadores e serviços de nuvem.

A investigação busca identificar conversas, registros bancários, documentos e outras informações capazes de esclarecer a origem e o destino dos valores mencionados nos depoimentos, além de verificar a existência de acordos para negociação de apoio político.

Nesta fase da operação, não houve mandados de prisão.

Após a deflagração da Cathedra Venalis, Wanderley Cerqueira questionou a investigação, classificou a operação como estranha e afirmou desconhecer detalhadamente as acusações. O presidente da Câmara também mencionou denúncias contra a Prefeitura de Várzea Grande e defendeu que eventuais irregularidades sejam apuradas pela Justiça.

Outros parlamentares atingidos pelas buscas também negaram participação em irregularidades. Raul Curvo afirmou que votou de acordo com sua consciência. Enfermeiro Emerson negou a existência de compra de votos e declarou que o encontro na chácara foi apenas uma confraternização.

Ilde Taques informou que colaborou com as autoridades e negou envolvimento em atos ilícitos. Alex Rodrigues também declarou estar à disposição da investigação.

As suspeitas são apuradas em procedimento criminal ainda sem condenações divulgadas. Os depoimentos, valores e acusações que integram a investigação deverão ser confrontados com documentos, perícias e demais provas reunidas pelo Ministério Público, assegurados o contraditório, a ampla defesa e a presunção de inocência dos investigados.

A Operação Cathedra Venalis segue em apuração para esclarecer se houve efetiva negociação de votos, pagamentos ilícitos, utilização de cargos públicos e articulações destinadas a obter vantagens financeiras e políticas dentro da Câmara Municipal de Várzea Grande.