ASFIXIADA E ENTERRADA NO QUINTAL

Irmã de Nilza relata sofrimento com morte trágica e brutal e esperava pena acima de 40 anos para assassino “Dor que não passa”

· 6 min de leitura
Irmã de Nilza relata sofrimento com morte trágica e brutal e esperava pena acima de 40 anos para assassino “Dor que não passa”
Nilsirene Moura

JB News

Por Emerson Teixeira

A dor de perder a irmã de maneira brutal, o sofrimento de reviver os detalhes do assassinato e a angústia de ficar frente a frente com o responsável pelo crime marcaram o depoimento de Nilsirene amoura, irmã da empresária Nilza Moura de Sousa Antunes, de 64 anos, assassinada pelo próprio marido, Jackson Pinto da Silva, em Cuiabá. Em entrevista à imprensa, durante o julgamento realizado nesta terça-feira (20 de outubro), ela revelou que a família esperava uma condenação superior a 40 anos de prisão. Ao final do júri popular, porém, Jackson foi condenado a 31 anos e três dias de reclusão, além de um mês e três dias de detenção.

Emocionada, Nilsirene descreveu o sofrimento dos familiares ao precisarem relembrar a violência praticada contra Nilza, morta por asfixia com uma abraçadeira plástica conhecida como “enforca-gato”, enquanto dormia. O corpo da vítima foi enterrado no quintal de outro imóvel de sua propriedade, no bairro Parque Cuiabá, após o marido organizar uma falsa história de sequestro para tentar esconder o feminicídio.

“É uma sensação muito ruim. A família toda está cheia de medo, todo mundo nervoso, porque a gente vai ter que reviver tudo de novo o que aconteceu. Então está sendo muito dolorido para todos nós. A gente vai ter que ter muita força, muita inteligência emocional para superar tudo o que vai acontecer”, desabafou.

Segundo Nilsirene, a morte deixou marcas profundas na família, principalmente porque Nilza mantinha contato diário com os irmãos e participava ativamente da vida dos parentes.

A irmã descreveu a empresária como uma mulher batalhadora, honesta e dedicada ao trabalho, que conquistou seus bens com esforço próprio e era reconhecida pela generosidade.

“Nilza era uma pessoa muito guerreira, muito esforçada, muito trabalhadeira. Tudo o que tinha conseguiu honestamente, trabalhando. Era uma pessoa maravilhosa, tinha um coração inestimável, uma pessoa muito boa”, afirmou.

Nilsirene contou que, mesmo depois de vários meses, os familiares ainda enfrentam dificuldades para conversar sobre o assassinato. A lembrança da violência provoca sofrimento e a ausência da empresária continua sendo sentida na rotina de todos.

“A gente ficou muito abalado, até hoje a família não consegue nem comentar, nem falar sobre o assunto, porque ela faz muita falta. Ela era muito presente na nossa vida. Todo dia ela falava com todos nós ou ia na minha casa”, relatou.

Um dos momentos mais difíceis da entrevista ocorreu quando Nilsirene relembrou o comportamento de Jackson nas horas seguintes ao assassinato. Segundo ela, o marido manteve contato com os familiares, apresentou informações falsas sobre o paradeiro de Nilza e chegou a participar das buscas pela própria mulher que havia matado.

A irmã contou que, inicialmente, Jackson informou que Nilza estava na casa de uma amiga. Nilsirene chegou a tentar conversar com a empresária pelo telefone, mas não conseguiu contato.

Mais tarde, por volta das 17h, o homem apareceu chorando na residência da cunhada e afirmou que a esposa havia sido sequestrada.

Segundo Nilsirene, Jackson apresentou uma história envolvendo supostos criminosos que estariam mantendo Nilza em cativeiro e exigindo dinheiro para libertá-la.

Ela relatou que exigiu uma prova de que a irmã estava viva, mas o suposto sequestrador não apresentou nenhuma imagem ou confirmação.

“Ele chegou lá em casa chorando, dizendo que ela tinha sido sequestrada. Os caras pedindo dinheiro e eu falei: ‘Eu quero ver ela’. E o cara falou que não ia mostrar”, contou.

A irmã afirmou que insistiu para que Jackson procurasse a Polícia Civil, apesar da resistência inicial dele. Os familiares passaram a percorrer unidades de saúde e buscar imagens de câmeras de segurança, na tentativa de descobrir o paradeiro da empresária.

De acordo com o depoimento, Jackson participou dessas diligências, indo a hospitais e acompanhando as buscas, enquanto sustentava a versão de que Nilza havia desaparecido.

A desconfiança começou quando a família conseguiu imagens de uma câmera de segurança de um vizinho. Os registros não mostravam Nilza saindo da residência, contrariando a informação apresentada pelo marido de que ela teria ido à academia.

“Ele passou a noite inteira indo para UPA, para os hospitais, procurando ela junto com a gente, procurando as câmeras, até que nós encontramos uma câmera do vizinho que não tinha saída dela da casa. Foi onde a gente acreditou que ele tinha feito”, relatou.

As contradições ajudaram a desmontar a versão apresentada por Jackson. Durante as investigações, ele confessou o assassinato e indicou aos policiais o local onde havia enterrado o corpo.

Conforme a denúncia do Ministério Público, o feminicídio ocorreu em 4 de maio de 2026, na residência do casal. Depois de matar a esposa por asfixia, Jackson transportou o corpo até outro imóvel, onde utilizou uma escavação feita sob o pretexto de construir uma fossa para ocultar o cadáver.

A investigação também apontou que o acusado articulou a participação de outras pessoas na simulação do sequestro, com mensagens enviadas à família exigindo R$ 30 mil de resgate.

Durante o depoimento, Nilsirene revelou que não teve coragem de acompanhar os trabalhos de retirada do corpo da irmã. Segundo ela, apenas uma sobrinha esteve no local durante a operação realizada pelos investigadores.

“Eu não fui, porque nenhum familiar teve coragem de ir para ver tirar com a escavadeira. A minha sobrinha que foi e acompanhou tudo. Eu não tive coragem”, contou.

Ela explicou que os familiares não tiveram mais contato com Jackson depois da descoberta do crime e da confissão.

Nilsirene também revelou que a família já demonstrava resistência ao casamento de Nilza com Jackson. Segundo ela, os parentes não mantinham muita convivência com o marido, embora a empresária continuasse próxima dos irmãos.

“A família não era de acordo com esse casamento. Então a gente não estava mais frequentando muito. A gente convivia mais com ela. Com ele a gente tinha pouco contato, mas aparentemente era uma pessoa normal. Nunca tratou ela mal na nossa frente, sempre tratou bem”, afirmou.

Ao ser questionada sobre a possibilidade de encontrar Jackson durante o julgamento, a irmã admitiu que os familiares não estavam emocionalmente preparados para encará-lo ou ouvir sua versão dos acontecimentos.

“Não estamos preparados de olhar para ele, de ver o que ele vai falar, qual vai ser a versão dele. Mas vamos ter que, infelizmente, encarar”, declarou.

Apesar do sofrimento, Nilsirene demonstrou gratidão pelo trabalho da Polícia Civil, do Ministério Público e da assistência de acusação, ressaltando a rapidez com que o crime foi esclarecido e levado ao Tribunal do Júri.

Ela afirmou que a condenação representaria uma resposta importante para a família, embora nenhuma decisão judicial seja capaz de reparar a perda da empresária.

“Nós estamos muito gratos, muito felizes por encerrar. Não vai trazer ela de volta, mas nós queremos justiça por ela, porque ele foi muito covarde com o que fez”, disse.

Antes da sentença, Nilsirene revelou que esperava uma punição superior a 40 anos, considerando não apenas o feminicídio, mas também a ocultação do cadáver e a falsa comunicação de sequestro.

“Eu tenho acima de 40 anos. Eu acredito pelo feminicídio, pela ocultação de cadáver, pelos outros crimes que foram cometidos, por falsa informação de crime, que ele contratou sequestrador para fingir que estavam com ela”, afirmou.

Questionada se uma condenação superior a quatro décadas proporcionaria algum alívio, ela respondeu que a punição não devolveria a vida da irmã, mas representaria uma forma de justiça.

“Não vai trazer ela de volta, mas mais ou menos uma justiça. Eu confio no Ministério Público e na assistente de acusação que nós temos”, declarou.

Ao final do julgamento, realizado no Tribunal do Júri de Cuiabá, o Conselho de Sentença reconheceu a responsabilidade de Jackson pelos crimes de feminicídio, ocultação de cadáver e comunicação falsa de crime.

A juíza Mônica Catarina Perri Siqueira, responsável por presidir a sessão, estabeleceu a pena de 31 anos e três dias de reclusão, em regime inicialmente fechado, além de um mês e três dias de detenção. O julgamento foi encerrado na noite de terça-feira (20).

A sentença também determinou o pagamento de 15 dias-multa e uma indenização equivalente a 50 salários mínimos aos sucessores da vítima, como reparação mínima pelos danos provocados pelo crime.

A acusação foi sustentada em plenário pelo promotor de Justiça Vinícius Gahyva, do Ministério Público de Mato Grosso. Os jurados acolheram a tese apresentada pela acusação e reconheceram os crimes praticados contra Nilza.

Embora a condenação tenha ficado abaixo dos mais de 40 anos esperados por Nilsirene, o resultado representa a responsabilização criminal de Jackson pelo assassinato, pela ocultação do corpo e pela falsa comunicação de crime.

Para a família, entretanto, o encerramento do julgamento não significa o fim do sofrimento. A ausência de Nilza permanece na rotina dos parentes, que perderam uma mulher descrita pela irmã como presente, trabalhadora e generosa.

O depoimento de Nilsirene revelou não apenas o sofrimento provocado pelo feminicídio, mas também o impacto de descobrir que o homem que participou das buscas, frequentou hospitais e afirmou estar tentando encontrar a esposa era o próprio responsável por sua morte.

VEJA

0:00
/6:14