GRAVAÇÕES SOB SUSPEITA

Escritório de Wanderley teria sido preparado para filmar pagamento de propina a vereadores e usar imagens para garantir votos em VG

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Escritório de Wanderley teria sido preparado para filmar pagamento de propina a vereadores e usar imagens para garantir votos em VG

JBNews

Por José Teixeira

O escritório do presidente da Câmara Municipal de Várzea Grande, Wanderley Cerqueira (MDB), teria sido preparado para registrar clandestinamente o pagamento de supostas propinas a vereadores e, posteriormente, utilizar as imagens como instrumento de pressão política. A suspeita consta no depoimento de uma testemunha com identidade preservada, apresentado ao Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco) e reproduzido no pedido de busca e apreensão que fundamentou a Operação Cathedra Venalis, deflagrada na terça-feira (20 de outubro).

De acordo com o relato, o suposto esquema teria funcionado durante as articulações para a reeleição da Mesa Diretora da Câmara, realizada em 14 de maio de 2026. Na ocasião, Wanderley foi reconduzido à presidência do Legislativo por uma diferença de apenas um voto, derrotando Lucas do Chapéu do Sol (PL) por 12 votos a 11.

A investigação apura a possibilidade de que vereadores tenham sido atraídos ao escritório de Wanderley para receber propostas financeiras em troca de apoio político. O ambiente teria sido preparado para registrar os encontros e eventuais entregas de dinheiro, criando um mecanismo de controle sobre os parlamentares envolvidos.

Segundo a testemunha, as imagens dos supostos pagamentos poderiam ser utilizadas posteriormente para constranger os vereadores e impedir mudanças de posicionamento na disputa pelo comando da Câmara. A hipótese investigada é de que os registros comprometedores servissem como garantia de fidelidade política.

Além das supostas gravações clandestinas, o Gaeco investiga relatos sobre cartas de renúncia que teriam sido assinadas antecipadamente por parlamentares. Conforme o depoimento, os documentos teriam sido apresentados durante uma reunião realizada na passagem de 2024 para 2025, em uma chácara atribuída ao vereador Miguel Júnior (Cidadania), no Distrito da Guia, em Cuiabá.

A suspeita é de que essas cartas também fossem utilizadas para pressionar vereadores que ameaçassem romper compromissos políticos assumidos anteriormente. Dessa maneira, o suposto esquema não dependeria apenas da distribuição de dinheiro ou de cargos, mas também de mecanismos de constrangimento capazes de interferir na liberdade de decisão dos parlamentares.

O pedido de busca e apreensão reproduz a hipótese de que as gravações e os documentos tenham sido utilizados como instrumentos de pressão política, em uma dinâmica descrita como possível extorsão. A caracterização criminal, entretanto, depende da comprovação dos fatos e da análise das circunstâncias em que as supostas ameaças teriam ocorrido.

Outro ponto mencionado pela testemunha envolve possíveis represálias administrativas contra vereadores que deixassem de apoiar o grupo político. Segundo o relato, servidores vinculados a parlamentares que romperam com a base de sustentação teriam sofrido ameaças ou exonerações.

As suspeitas levantam questionamentos sobre a possível utilização da estrutura administrativa da Câmara como mecanismo de negociação política. Os investigadores buscam esclarecer se cargos, pagamentos e ameaças foram empregados para influenciar a composição e a permanência da Mesa Diretora.

Em outro desdobramento da investigação, divulgado nesta quarta-feira (21), uma testemunha relatou a existência de um suposto pagamento mensal de R$ 10 mil a vereadores para assegurar apoio político a Wanderley. A investigação também menciona possíveis ofertas de cargos vinculados à Mesa Diretora como vantagens para garantir fidelidade ao grupo.

Os relatos sobre pagamentos mensais, gravações clandestinas e cartas de renúncia integram as suspeitas investigadas, mas ainda não representam comprovação de que os valores tenham sido efetivamente entregues ou de que os mecanismos de pressão tenham sido utilizados.

A Operação Cathedra Venalis foi deflagrada em 20 de outubro, com o cumprimento de 30 mandados de busca e apreensão domiciliar, pessoal e veicular em endereços de Várzea Grande, Cuiabá e Chapada dos Guimarães. Mais de 200 agentes participaram da mobilização.

Entre os investigados estão 13 vereadores de Várzea Grande e dois de Cuiabá, além de servidores públicos ligados ao Legislativo várzea-grandense. Na Capital, os parlamentares alcançados pela investigação são Ilde Taques e Alex Rodrigues.

As diligências têm como finalidade localizar documentos, aparelhos eletrônicos, registros de comunicação e outros elementos que possam esclarecer as suspeitas de corrupção e negociação de vantagens indevidas nas articulações políticas.

Um dos pontos centrais da apuração é determinar se as supostas gravações realmente existem, quem teria ordenado a instalação dos equipamentos, quais vereadores poderiam ter sido filmados e se houve utilização das imagens para ameaçar ou constranger parlamentares.

Também será necessário esclarecer a existência e o conteúdo das supostas cartas de renúncia, identificar eventuais beneficiários de pagamentos e verificar se houve ligação entre as alegadas vantagens financeiras e a votação que garantiu a reeleição de Wanderley.

A diferença de apenas um voto na disputa pela presidência aumenta a relevância das suspeitas investigadas, uma vez que uma eventual negociação irregular de apoio poderia ter influenciado diretamente o resultado da eleição interna.

Wanderley Cerqueira já se manifestou publicamente após ser alvo das buscas do Gaeco, negando envolvimento em irregularidades e cobrando apuração de denúncias contra a administração municipal de Várzea Grande.

Até o momento, os relatos sobre as gravações clandestinas, os pagamentos e as cartas de renúncia permanecem sob investigação. Não há, nas informações divulgadas, confirmação de que as supostas filmagens tenham sido localizadas ou de que os pagamentos mencionados pela testemunha estejam comprovados.

A Operação Cathedra Venalis segue como uma investigação sobre possíveis crimes contra a administração pública e mecanismos de cooptação de agentes políticos. Os investigados têm direito à presunção de inocência, ao contraditório e à ampla defesa.