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Por Emerson Teixeira
A resposta do presidente estadual do Partido Liberal (PL), Ananias Filho, às críticas da prefeita de Várzea Grande, Flávia Moretti, vai muito além de uma simples divergência interna. Nos bastidores da sucessão estadual, a declaração é interpretada como um recado direto a uma das principais lideranças da legenda justamente no momento em que o partido enfrenta sua maior dificuldade desde que homologou a candidatura do senador Wellington Fagundes ao Governo de Mato Grosso: unificar a própria base política.
A convenção realizada na última terça-feira (22), que oficializou Wellington como candidato ao Palácio Paiaguás e José Medeiros ao Senado, acabou evidenciando uma realidade que o comando estadual tenta administrar desde o início do ano. Dos 22 prefeitos eleitos pelo PL em Mato Grosso, apenas quatro compareceram ao evento. Outros 18 gestores municipais, entre eles Flávia Moretti, Cláudio Ferreira, de Rondonópolis, e Sérgio Machnic, de Primavera do Leste, ficaram ausentes, alimentando a leitura de que a candidatura liberal ainda enfrenta resistência dentro da própria legenda.
O esvaziamento ganhou peso porque parte desses prefeitos já declarou apoio ao governador Otaviano Pivetta (Republicanos), enquanto outros evitam assumir compromisso público com Wellington Fagundes, preferindo manter uma posição de neutralidade diante da disputa. O próprio senador reconheceu que ainda não conta com o apoio declarado de prefeitos estratégicos, como Flávia Moretti e Abilio Brunini, justificando que os gestores vivem sob pressão para manter uma boa relação institucional com o Governo do Estado em busca de investimentos para seus municípios.
Foi nesse ambiente de divisão que Ananias decidiu responder às declarações de Flávia Moretti, que recentemente afirmou sentir-se “órfã” do partido e reclamou da falta de respaldo político da direção estadual.
Sem esconder o incômodo, o presidente do PL afirmou que a prefeita não pode alegar abandono depois de todo o apoio recebido da legenda durante sua campanha e também no início de sua gestão.
Segundo ele, o partido esteve presente sempre que foi solicitado.
“Todas as vezes que ela pediu a presença do partido em Várzea Grande, o partido esteve. Antes mesmo de ela tomar posse, eu cuidei muito mais de Várzea Grande do que de Cuiabá ou de qualquer outro município do Estado.”
Ananias também fez questão de lembrar que o apoio não foi apenas político. Segundo ele, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, atuou pessoalmente para garantir recursos destinados à campanha que elegeu Flávia Moretti em 2024.
“Ela teve apoio, sim. O presidente Valdemar trabalhou e ajudou a mandar recursos para a campanha.”
A declaração foi interpretada nos bastidores como uma cobrança por reciprocidade. Integrantes da direção estadual avaliam que, diante do investimento político feito pelo partido na eleição municipal, esperava-se que a prefeita estivesse hoje entre as principais apoiadoras da candidatura de Wellington Fagundes.
Durante a entrevista, Ananias também rebateu outra reclamação feita por Flávia, de que teria ficado sem respaldo da legenda nos conflitos envolvendo integrantes do próprio PL, especialmente nos embates com o vereador Samir Japonês.
O dirigente afirmou que adotou todas as providências possíveis dentro do estatuto partidário e revelou que chegou a instaurar procedimento administrativo contra o parlamentar.
“Eu abri procedimento administrativo contra o Samir. Agora, eu não posso pegar uma marreta e bater na cabeça de ninguém. Sou contra qualquer tipo de violência.”
Em outro momento da entrevista, Ananias endureceu o discurso ao afirmar que divergências internas precisam ser tratadas dentro do partido, criticando a exposição pública das insatisfações.
“Gostaria que ela sentasse comigo para fazer o posicionamento dela. O partido também não pode ficar fazendo lamúrias públicas de algo que considero equivocado.”
O presidente estadual ainda revelou um episódio ocorrido durante a eleição da Mesa Diretora da Câmara de Várzea Grande. Segundo ele, Flávia procurou a direção estadual tentando convencer os vereadores do PL a mudarem de posicionamento político. Após conversar com a bancada, Ananias disse que retornou à prefeita informando que não havia ambiente para alterar o acordo firmado.
“Expliquei que os vereadores não mudariam de posição. Eu não vou obrigar ninguém a mudar voto.”
Na sequência, contou que também se reuniu com o então presidente da Câmara, Vanderlei, que, segundo ele, manifestou interesse em manter uma relação institucional de paz com a Prefeitura.
Apesar do tom firme, Ananias evitou defender qualquer tipo de punição aos prefeitos que ainda resistem em subir no palanque de Wellington Fagundes. Diferentemente do discurso adotado meses atrás, quando chegou a mencionar a possibilidade de sanções por infidelidade partidária, agora o dirigente afirma que pretende convencer os gestores pelo diálogo, descartando uma postura “ditatorial”.
A mudança de estratégia é vista como consequência direta do cenário político enfrentado pelo PL. Além da ausência de 18 prefeitos na convenção, parte dos chefes do Executivo municipal já aderiu ao projeto de reeleição de Otaviano Pivetta, enquanto outros mantêm diálogo permanente com o Palácio Paiaguás e evitam assumir compromisso público com Wellington, numa demonstração de que a disputa pelo apoio dos prefeitos se tornou um dos principais campos de batalha da eleição estadual de 2026.
Nesse contexto, a fala de Ananias sobre Flávia Moretti deixa de ser apenas uma resposta às críticas da prefeita e passa a representar um recado político para toda a base liberal: o partido considera que fez sua parte ao eleger seus prefeitos e espera, agora, que essas lideranças retribuam o apoio fortalecendo o projeto de Wellington Fagundes. A dificuldade, porém, será transformar essa expectativa em unidade partidária em um momento em que o PL convive com seu mais evidente racha interno desde o início da corrida pelo Governo de Mato Grosso.