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Por Emerson Teixeira
O Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco) deflagrou, na manhã desta sexta-feira (24), a segunda fase da Operação Safra Desviada, aprofundando as investigações sobre um sofisticado esquema criminoso que teria provocado prejuízos estimados em R$ 28,7 milhões ao agronegócio mato-grossense. A nova etapa da ofensiva concentra esforços na descapitalização financeira dos investigados, atingindo bens de alto valor, contas bancárias, imóveis e empresas supostamente utilizadas para ocultar recursos obtidos de forma ilícita.
As ordens judiciais foram expedidas com base nas provas reunidas durante a primeira fase da investigação e incluem dez mandados de busca e apreensão, além de uma série de medidas patrimoniais destinadas a impedir a continuidade da movimentação financeira do grupo e preservar eventual ressarcimento às vítimas.
Entre as determinações autorizadas pela Justiça estão o sequestro de uma aeronave, a apreensão de três veículos, o bloqueio de ativos financeiros, a indisponibilidade de imóveis e a quebra dos sigilos bancário e fiscal de dez pessoas físicas e jurídicas ligadas ao esquema investigado. As medidas têm como objetivo rastrear a circulação do dinheiro, identificar possíveis “laranjas” e mapear a estrutura financeira utilizada para ocultar patrimônio.
As diligências são realizadas simultaneamente nos municípios de Lucas do Rio Verde, Nova Ubiratã, Sinop e Tapurah, em Mato Grosso, além das cidades paulistas de Presidente Prudente e Álvares Machado, locais apontados pelas investigações como estratégicos para o funcionamento da organização.
Segundo o Gaeco, o grupo investigado teria criado uma complexa engenharia empresarial para desviar recursos provenientes de operações comerciais ligadas ao setor algodoeiro. A suspeita é de que empresas fossem utilizadas para simular negociações, movimentar valores e conferir aparência de legalidade a operações financeiras que, na prática, serviriam para gerar enriquecimento ilícito dos envolvidos.
As investigações apontam ainda que, além dos prejuízos milionários suportados por produtores rurais e empresas do agronegócio, os investigados teriam adotado mecanismos destinados a dificultar a atuação das autoridades responsáveis pela apuração, buscando ocultar documentos, patrimônio e movimentações financeiras.
Embora os nomes dos investigados desta segunda fase ainda não tenham sido oficialmente divulgados pelas autoridades, o procedimento permanece sob sigilo justamente para preservar o andamento das diligências e evitar o comprometimento das investigações.
Os investigados poderão responder, conforme o avanço da apuração e eventual oferecimento de denúncia pelo Ministério Público, por crimes como organização criminosa, lavagem de dinheiro, estelionato, apropriação indébita, falsidade ideológica, fraude documental e outros delitos eventualmente identificados durante a análise do material apreendido. A tipificação definitiva dependerá da conclusão do inquérito e da individualização das condutas atribuídas a cada suspeito.
A operação mobiliza um grande aparato policial. Em Mato Grosso, o Gaeco conta com o apoio dos 11º e 12º Batalhões da Polícia Militar, das equipes de Força Tática de Sinop, Sorriso e Nova Mutum, além do efetivo do 13º Batalhão da PM de Lucas do Rio Verde e do 1º Pelotão da Polícia Militar de Tapurah. No estado de São Paulo, as diligências recebem apoio operacional do 8º Batalhão de Ações Especiais de Polícia (BAEP), responsável pelo cumprimento de parte das ordens judiciais.
A força-tarefa do Gaeco reúne integrantes do Ministério Público de Mato Grosso, Polícia Civil, Polícia Militar, Polícia Penal e Sistema Socioeducativo, atuando de forma integrada no enfrentamento às organizações criminosas que operam dentro e fora do Estado.
A Operação Safra Desviada teve início em fevereiro deste ano, quando o Gaeco revelou um esquema ainda maior de desvios envolvendo cargas de grãos. Na ocasião, as investigações apontaram prejuízo superior a R$ 140 milhões ao Grupo Lermen e a outras empresas do setor agrícola.
Na primeira etapa foram cumpridas aproximadamente 180 medidas cautelares em Cuiabá, Sorriso, Sinop, Lucas do Rio Verde, Nova Mutum, Colíder, Nova Ubiratã, Boa Esperança do Norte e Campo Verde. A análise do vasto material apreendido naquela fase permitiu aos investigadores identificar novas ramificações da organização, rastrear movimentações financeiras consideradas incompatíveis e reunir elementos que fundamentaram as medidas cumpridas nesta sexta-feira.
Com a nova ofensiva, o Ministério Público busca aprofundar a identificação dos beneficiários do esquema, ampliar o rastreamento dos recursos desviados e responsabilizar criminalmente todos aqueles que tenham participado da estrutura investigada, considerada uma das mais complexas já identificadas envolvendo operações financeiras ligadas ao agronegócio mato-grossense.