JB News
Por José Teixeira
Mato Grosso caminha para alcançar 8,4 bilhões de litros de etanol na safra 2026/27, consolidando sua posição como potência nacional dos biocombustíveis, mas o avanço histórico da produção contrasta com uma realidade sentida diretamente no bolso dos motoristas: o preço do combustível voltou a subir nos postos de Cuiabá.
O cenário ganha um novo ingrediente desde quinta-feira, 10 de setembro de 2026, quando entrou em vigor a redução temporária dos tributos federais incidentes sobre o etanol hidratado. O corte equivale a R$ 0,19 por litro e permanecerá válido até 9 de outubro.
Com isso, a pergunta que passa a dominar o mercado mato-grossense é quanto — e em quanto tempo — dessa redução tributária chegará efetivamente às bombas.
A produção estadual segue justamente na direção oposta à pressão recente dos preços.
O segundo levantamento da safra 2026/27 projeta produção de 8,4 bilhões de litros de etanol em Mato Grosso, crescimento de aproximadamente 13,7% sobre a temporada anterior.
O principal motor dessa expansão é o milho.
Somente a fabricação de etanol de milho deve alcançar 7,2 bilhões de litros, contra aproximadamente 6,24 bilhões de litros no ciclo anterior. Isso representa crescimento projetado de 15,2% e acréscimo próximo de 1 bilhão de litros em uma única safra.
Mato Grosso responde por quase 60% de todo o etanol de milho produzido no Brasil.
A produção proveniente da cana-de-açúcar deverá superar outros 1,2 bilhão de litros, fazendo com que o Estado consolide uma cadeia industrial que transforma cada vez mais a gigantesca produção agrícola mato-grossense em combustível.
Nas bombas, entretanto, o consumidor de Cuiabá enfrentou um movimento diferente nas últimas semanas.
O etanol que podia ser encontrado por aproximadamente R$ 3,77 por litro no final de agosto chegou a R$ 4,19 em estabelecimentos pesquisados nesta semana.
A diferença é de R$ 0,42 por litro, ou aproximadamente 11,1%.
Em um abastecimento de 50 litros, o impacto é expressivo. Um tanque que custava R$ 188,50 a R$ 3,77 passa a exigir R$ 209,50 quando o combustível é comercializado a R$ 4,19.
São R$ 21 a mais em apenas um abastecimento.
Parte dessa pressão já podia ser observada antes de o combustível chegar aos postos.
Entre o início e o fim de agosto, o indicador do etanol hidratado produzido em Mato Grosso passou de aproximadamente R$ 2,56 para R$ 2,77 por litro na origem, avanço superior a 8%.
Esse valor não corresponde ao preço final pago pelo consumidor. Entre a saída da indústria e a bomba entram componentes como transporte, distribuição, tributos e margens comerciais.
É justamente nessa cadeia que estará uma das principais discussões a partir de agora.
Em 9 de setembro de 2026, o Governo Federal editou o Decreto nº 13.116/2026, reduzindo temporariamente PIS/Pasep e Cofins incidentes sobre gasolina e etanol hidratado.
O decreto foi publicado no Diário Oficial da União em 10 de setembro, data em que os novos valores começaram a valer.
Para o etanol hidratado, PIS/Pasep e Cofins foram zerados, representando redução tributária equivalente a R$ 0,19 por litro.
A medida vale de 10 de setembro a 9 de outubro de 2026.
Isso não significa, automaticamente, que cada posto seja obrigado a reduzir exatamente R$ 0,19 no preço exibido na bomba, porque o preço final é formado por diferentes componentes e sofre influência das cotações ao longo da cadeia.
Mas cria um parâmetro objetivo para acompanhar o comportamento do mercado.
Se as demais variáveis permanecerem semelhantes, a retirada de R$ 0,19 de tributos federais abre espaço econômico para redução de preços.
O contraste ganha dimensão ainda maior porque Mato Grosso deixou de ser apenas produtor de matéria-prima e passou a construir uma das maiores estruturas industriais de biocombustíveis do país.
A cadeia estadual de etanol transforma uma parcela significativa do milho produzido no Estado, gera milhares de empregos, amplia a arrecadação e cria uma nova fonte de demanda para a produção agrícola.
Ao mesmo tempo, a expansão coloca Mato Grosso diante de um desafio logístico: a produção estadual é muito superior ao consumo interno, obrigando as indústrias a transportar bilhões de litros para outros mercados brasileiros.
A logística, portanto, passou a ser uma das variáveis estratégicas dessa nova economia.
Para o consumidor, porém, a questão é mais imediata.
Mato Grosso está produzindo etanol em escala recorde. A produção de milho é abundante. A indústria continua expandindo sua capacidade. E, desde 10 de setembro, o Governo Federal retirou R$ 0,19 por litro em PIS/Pasep e Cofins do etanol hidratado.
Agora, o comportamento dos preços nos próximos dias mostrará se essa combinação será suficiente para interromper a recente escalada nas bombas de Cuiabá — e, principalmente, quanto da redução tributária chegará efetivamente ao bolso do motorista mato-grossense.