DINHEIRO DO NARCOTRÁFICO
JB News
Por Emerson Teixeira
Thatiana Rabelo, conhecida por comandar negócios em Cuiabá, é investigada por suspeita de lavagem de dinheiro para grupo ligado ao tráfico internacional; operação tenta desvendar patrimônio, movimentações financeiras e conexões com um dos principais alvos
A prisão da empresária e advogada Thatiana Rabelo Mesquita Theodoro, nesta terça-feira (25), abriu uma nova frente em uma investigação que ultrapassa as divisas de Mato Grosso e procura atingir não apenas o transporte de drogas, mas, principalmente, a engrenagem financeira que sustentaria uma organização criminosa de atuação interestadual e internacional.
Conhecida no circuito empresarial e social de Cuiabá, Thatiana é sócia da TRMT Restaurante Ltda., empresa responsável pelo Tatu Bola Bar, estabelecimento instalado em uma das áreas mais movimentadas e valorizadas da Capital, nas proximidades da Praça Popular.
Distante dos pontos de armazenamento e das pistas clandestinas tradicionalmente associados ao narcotráfico, a empresária teria entrado no radar da Polícia Federal durante o rastreamento de pessoas, negócios, bens e movimentações financeiras possivelmente relacionados ao grupo investigado.
A apuração busca esclarecer se Thatiana teria funcionado como um elo entre os recursos provenientes do tráfico de drogas e atividades econômicas formalmente constituídas. A suspeita de lavagem de dinheiro é justamente o ponto que torna a prisão relevante para o avanço do inquérito. Sem mecanismos para ocultar e reinserir recursos ilícitos na economia, grandes estruturas do narcotráfico enfrentam dificuldades para manter aeronaves, remunerar integrantes, adquirir patrimônio e financiar novos carregamentos.
A Polícia Federal, entretanto, ainda não informou qual conduta específica é atribuída à empresária. Também não foi revelado se ela teria movimentado valores, administrado bens, disponibilizado empresas, realizado operações em nome de terceiros ou mantido alguma relação comercial ou pessoal com os demais investigados.
Embora a prisão indique que a Justiça identificou fundamentos para autorizar uma medida cautelar, ainda não é possível afirmar que Thatiana comandava o núcleo financeiro ou ocupava uma posição de liderança na estrutura investigada. Essa definição dependerá do conteúdo da decisão judicial e das provas reunidas no inquérito, que permanece sob sigilo.
A ofensiva é resultado de uma investigação conduzida pela Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Polícia Federal no Tocantins. A ação conta com a participação da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficco) e com o apoio de policiais federais de Redenção, no sul do Pará.
A atuação conjunta demonstra a dimensão interestadual da apuração. A região formada pelo sul do Pará, Tocantins, Goiás e Mato Grosso possui extensas áreas rurais, grande circulação entre estados e numerosas pistas de pouso, características que podem ser exploradas por grupos criminosos para transportar entorpecentes em aeronaves de pequeno porte.
Informações preliminares indicam que a organização investigada utilizaria rotas aéreas para movimentar drogas. Nesse tipo de estrutura, os pilotos e os responsáveis pelo recebimento das cargas representam apenas uma parte da cadeia criminosa. A logística também exige financiamento, abastecimento, manutenção de aeronaves, acesso a pistas de pouso, veículos para retirar as cargas e uma rede encarregada de ocultar os lucros obtidos.
É nessa segunda camada, formada pelo patrimônio e pelo dinheiro, que estaria concentrada a atual fase da investigação. A Polícia Federal procura identificar quem financiava a logística, quem recebia os valores provenientes do tráfico e quais mecanismos teriam sido utilizados para afastar os recursos de sua origem criminosa.
Thatiana Rabelo Mesquita Theodoro é advogada inscrita na Ordem dos Advogados do Brasil em Mato Grosso e possui atuação registrada em processos judiciais desde, pelo menos, a década passada. Em 2013, chegou a ser nomeada para integrar uma comissão temática da OAB-MT.
Nos últimos anos, porém, ganhou maior projeção como empresária do setor de entretenimento e gastronomia. Thatiana passou a aparecer publicamente como sócia e representante do Tatu Bola de Cuiabá, bar conhecido na região da Praça Popular.
Em manifestação pública sobre melhorias realizadas naquela área da cidade, ela foi apresentada como sócia do restaurante e comentou os impactos econômicos e ambientais da implantação da rede de esgoto. A participação reforçou sua presença na administração e na representação pública do empreendimento.
A empresária também passou a ser apresentada em eventos e publicações sociais como “multiempresária”, ampliando sua visibilidade no ambiente empresarial da Capital.
Até o momento, contudo, não existe indicação pública de que o Tatu Bola seja investigado, tenha sido alvo de buscas ou tenha sido utilizado para lavagem de dinheiro. A prisão de uma integrante do quadro societário não permite concluir que o estabelecimento ou os demais sócios tenham qualquer envolvimento com os crimes apurados.
A eventual utilização de empresas para ocultar valores precisa ser comprovada por documentos contábeis, transferências bancárias, operações patrimoniais ou outros elementos objetivos. Nenhuma prova desse tipo foi divulgada até agora em relação ao restaurante.
Entre os nomes relacionados à apuração está Matheus Matias de Oliveira, apontado como um dos principais alvos da ofensiva. O nome dele não aparece pela primeira vez em procedimentos conduzidos pela Polícia Federal.
Uma decisão registrada no Tribunal Regional Federal da 1ª Região menciona Matheus no contexto de uma investigação sobre tráfico internacional de entorpecentes, organização criminosa e delitos conexos. O documento registra que um veículo foi apreendido na residência dele durante o cumprimento de um mandado de busca.
Naquele episódio específico, contudo, Matheus não foi denunciado pelo Ministério Público Federal pelos fatos que provocaram a apreensão do automóvel. A circunstância demonstra que a abertura de uma investigação ou o cumprimento de uma busca não representam, automaticamente, o oferecimento de denúncia ou o reconhecimento de responsabilidade criminal.
Agora, os investigadores procuram esclarecer se existem conexões entre Matheus, Thatiana e a movimentação financeira do grupo suspeito de utilizar aeronaves para transportar drogas.
A natureza desse possível vínculo permanece como uma das principais perguntas ainda sem resposta. Não foi informado se os dois mantinham relação pessoal, societária, profissional ou comercial. Também não se sabe se a suposta ligação foi identificada por meio de transferências bancárias, aquisição de patrimônio, mensagens, contratos ou depoimentos.
Em investigações contra grandes grupos de narcotráfico, localizar e apreender a droga representa apenas uma etapa do trabalho policial. A sobrevivência da organização depende da transformação do lucro clandestino em recursos que possam circular sem despertar suspeitas.
A lavagem de dinheiro pode ocorrer, em tese, por meio de empresas, negócios com grande circulação financeira, aquisição de veículos e imóveis, contratos simulados, empréstimos fictícios, contas bancárias de terceiros ou sucessivas transferências. Esses são mecanismos conhecidos em investigações financeiras, mas não há confirmação pública de que algum deles tenha sido utilizado por Thatiana.
Ao direcionar as diligências para pessoas ligadas ao patrimônio e à movimentação dos valores, a Polícia Federal procura atingir a capacidade econômica do grupo. A estratégia busca impedir que a organização continue financiando voos, comprando drogas, substituindo aeronaves apreendidas e reorganizando sua logística depois de prisões ou perdas de carregamentos.
Por essa razão, o esclarecimento do papel atribuído à empresária é considerado fundamental para compreender o alcance da investigação. Caso a suspeita de participação financeira seja confirmada, o inquérito poderá revelar como o dinheiro obtido com o transporte de drogas era ocultado e reinserido no mercado formal. Se os indícios não forem comprovados, caberá à Justiça afastar a responsabilidade dela e reavaliar as medidas cautelares impostas.
Apesar da prisão, a Polícia Federal ainda não divulgou oficialmente o nome da operação, o número de mandados expedidos, as cidades alcançadas nem o material apreendido durante as diligências.
Também permanecem sem resposta o volume de dinheiro supostamente lavado, o período abrangido pela investigação, a quantidade de aeronaves monitoradas, os países possivelmente envolvidos e a função individual atribuída aos demais investigados.
Não há confirmação sobre a apreensão de documentos, celulares, computadores, veículos, dinheiro ou registros contábeis em endereços ligados a Thatiana. Caso tenham sido recolhidos, esses materiais poderão ser submetidos a perícia e confrontados com dados bancários, fiscais e patrimoniais.
A investigação deverá avançar sobre a origem e o destino das movimentações identificadas, além das possíveis relações entre os alvos. O resultado desse cruzamento será determinante para esclarecer se a empresária teve participação consciente na ocultação de valores ou se suas relações comerciais possuem origem legítima.
A defesa de Thatiana Rabelo ainda não havia se pronunciado até a publicação desta reportagem. O espaço permanece aberto para manifestação.
A prisão possui natureza cautelar e não representa condenação. Thatiana, Matheus e os demais investigados têm direito à ampla defesa e devem ser considerados inocentes até eventual decisão judicial definitiva.

Além de Thatiana Rabelo e Matheus Matias de Oliveira, a Operação Bóreas alcançou outros investigados cujas identidades permanecem sob sigilo. Ao todo, a 4ª Vara Federal de Palmas expediu três mandados de prisão preventiva e três de busca e apreensão, além de autorizar a apreensão de aeronaves e o bloqueio e sequestro de bens e valores. A Polícia Federal também solicitou a inclusão de dez investigados nos mecanismos da Difusão Vermelha da Interpol. Até o momento, entretanto, apenas os nomes de Thatiana e Matheus vieram a público. A identidade do terceiro alvo de prisão e dos demais integrantes da organização ainda não foi divulgada.