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Por José Teixeira
Despesa total é projetada em R$ 8.171 por hectare na safra 2026/27; milho também enfrenta forte aperto e margem operacional pode despencar 88%
O produtor de Mato Grosso deverá entrar na safra 2026/27 enfrentando uma combinação preocupante de custos elevados, preços pressionados e redução das margens. As novas projeções para soja e milho indicam que produzir continuará ficando mais caro justamente quando a rentabilidade das principais culturas do Estado perde força.
No caso da soja, o Custo Total está projetado em R$ 8.171,41 por hectare, avanço de 16,69% em relação à temporada anterior.
O custeio da lavoura está estimado em R$ 4.323,22 por hectare, enquanto o Custo Operacional Efetivo pode atingir R$ 6.012,39 por hectare.
O aumento das despesas ocorre simultaneamente à deterioração da rentabilidade.
A projeção para o Lajida da soja é de R$ 1.069,47 por hectare, resultado 35,05% inferior ao observado na safra anterior. Na comparação com a média das últimas cinco temporadas, a retração chega a aproximadamente 53,5%.
Os números mostram que o produtor pode colher uma safra de grande dimensão e, ainda assim, terminar o ciclo com resultado econômico significativamente menor.
O problema ganha proporção estadual devido ao tamanho da agricultura mato-grossense.
A área destinada à soja na safra 2026/27 é projetada em aproximadamente 13,04 milhões de hectares, com pequena expansão sobre o ciclo anterior.
A produtividade, entretanto, pode recuar 5,43%, ficando em 62,44 sacas por hectare.
Com menos soja produzida em cada hectare, a estimativa é de que Mato Grosso encerre a temporada com aproximadamente 48,88 milhões de toneladas, retração de 5,19%.
Isso cria um cenário particularmente delicado: o produtor gasta mais para plantar, enfrenta perspectiva de produtividade menor e precisa administrar uma margem mais estreita.
No milho, a situação projetada é ainda mais apertada.
O Custo Total pode alcançar R$ 7.376,08 por hectare, enquanto a receita bruta projetada está em aproximadamente R$ 5.388,93 por hectare.
A diferença entre os dois indicadores se aproxima de R$ 2 mil por hectare. Essa comparação, entretanto, não deve ser confundida automaticamente com prejuízo contábil imediato, porque o Custo Total incorpora componentes diferentes daqueles considerados no cálculo da margem operacional.
Mesmo assim, o indicador de rentabilidade acende o alerta.
O Lajida projetado para o milho cai para aproximadamente R$ 122,26 por hectare, uma redução de 88,16%.
A expectativa é de que a área de milho alcance aproximadamente 7,48 milhões de hectares, crescimento de 0,59%. A produtividade é estimada em 119,64 sacas por hectare, retração de 8,05%, levando a produção projetada para aproximadamente 53,68 milhões de toneladas.
Existe, porém, uma mudança estrutural acontecendo dentro de Mato Grosso que pode ajudar a sustentar a demanda pelo cereal.
O consumo estadual de milho deverá aumentar 16,23% e alcançar 27,04 milhões de toneladas, impulsionado principalmente pela expansão da indústria de etanol de milho.
Isso significa que uma parcela cada vez maior da produção poderá ser consumida dentro do próprio Estado, diminuindo a necessidade de transportar todo o cereal para mercados distantes e fortalecendo a industrialização local.
O avanço das usinas, contudo, não elimina a pressão provocada pelos custos.
Com margens menores, produtores podem reduzir investimentos em tecnologia, máquinas, armazenagem e expansão de área. O movimento acaba atingindo outros segmentos da economia dos municípios agrícolas, como concessionárias de equipamentos, comércio de insumos, transportadoras, oficinas, construção civil e serviços.
O cenário também interessa diretamente ao sistema financeiro. Uma rentabilidade menor aumenta a importância do crédito rural, do seguro, das operações de barter e da renegociação das obrigações assumidas para financiamento das lavouras.
Para Mato Grosso, portanto, a discussão ultrapassa a porteira.
Soja e milho sustentam uma parcela expressiva da atividade econômica estadual e alimentam cadeias que vão da produção rural ao transporte, armazenagem, indústria, exportação e arrecadação pública.
A safra 2026/27 começa a desenhar um paradoxo: Mato Grosso continuará produzindo dezenas de milhões de toneladas de grãos, mas o tamanho da colheita poderá esconder uma queda expressiva do dinheiro que efetivamente permanece no bolso do produtor.