JB News
Por José Teixeira
Câmeras vão entrar nas salas e sistema analisará comportamento de alunos em Cuiabá
Abilio diz que reconhecimento facial já controla frequência e identifica pessoas estranhas; nova etapa prevê análise de atenção e comportamento dos estudantes
O sistema de monitoramento eletrônico das escolas municipais de Cuiabá vai avançar para dentro das salas de aula e ganhar uma nova função: além de reconhecer estudantes, profissionais e pessoas que não pertencem às unidades, a tecnologia deverá analisar o comportamento dos alunos durante as aulas, inclusive identificando se estão ou não prestando atenção.
A ampliação foi anunciada pelo prefeito Abilio Brunini durante a apresentação, nesta segunda-feira (21), do balanço da Educação municipal. Atualmente, a rede possui 172 unidades escolares, mais de 13 mil profissionais e mais de 2 mil câmeras instaladas. Todas as unidades também passaram a contar com conexão de internet por fibra óptica.
O novo passo representa uma ampliação do sistema que começou a ser estruturado pela Prefeitura por meio do programa Aluno Presente. Implantado inicialmente com câmeras inteligentes nas entradas e saídas das escolas e creches, o programa utiliza reconhecimento facial para identificar estudantes e registrar automaticamente a frequência.
Segundo Abilio, o equipamento também reconhece os profissionais que trabalham em cada unidade e permite detectar a presença de pessoas que não fazem parte daquela comunidade escolar.
“As câmeras têm reconhecimento facial, elas reconhecem os alunos, elas estão fazendo uma lista de presença dos alunos por reconhecimento facial e elas também reconhecem os profissionais da Educação que estão trabalhando. E também, quando alguém não pertence àquela unidade escolar, a gente recebe um alerta”, afirmou.
De acordo com o prefeito, o objetivo principal do monitoramento é reforçar a segurança. A tecnologia, porém, passou a assumir outras funções dentro da gestão da rede municipal.
O Aluno Presente foi lançado para alcançar as 172 unidades das zonas urbana e rural. Conforme informações divulgadas pela própria Prefeitura quando iniciou a implantação, as câmeras posicionadas nos acessos das escolas são capazes de autenticar até 40 rostos por segundo.
A identificação automática passou a alimentar o controle de frequência. A plataforma permite visualizar presença por escola, turno, turma, dia e aluno, identificar padrões de ausência e apontar estudantes que acumulam três faltas consecutivas.
Nesse último caso, a informação pode subsidiar a escola no acionamento do Conselho Tutelar, da assistência escolar e da unidade de saúde da família, numa tentativa de antecipar situações de abandono ou evasão escolar.
A tecnologia também foi planejada para conversar com outros setores da escola. No refeitório, por exemplo, a presença registrada na entrada pode ser utilizada para estimar a quantidade de refeições necessárias, além de contabilizar o número de estudantes atendidos pela alimentação escolar.
Os responsáveis também podem receber informações sobre entrada e saída dos filhos, enquanto professores têm acesso às turmas e à frequência registrada automaticamente, podendo corrigir o sistema quando a informação captada eletronicamente não corresponder à presença efetiva do estudante em sala.
Agora, a Prefeitura pretende ultrapassar a área externa e os acessos das unidades.
“Nós estamos com todas as câmeras no ambiente externo e agora nós vamos partir para a instalação das câmeras dentro das salas de aula. Então, cada sala de aula também terá câmeras”, declarou Abilio.
Segundo ele, paralelamente à instalação dos equipamentos, a administração trabalha na implantação de um novo sistema, citado pelo prefeito como desenvolvido em parceria com o “Montessori”, que deverá analisar o comportamento do estudante dentro da sala.
“Nós estamos implementando um novo sistema, em parceria com o Montessori, que faz estudos e que vai analisar o comportamento do aluno dentro da sala de aula. Vai saber se aquele aluno está prestando atenção, se não está prestando atenção e depois também servir para auxiliar na análise de comportamento”, explicou.
O prefeito relacionou a ferramenta também ao acompanhamento de estudantes que eventualmente necessitem de atenção diferenciada.
“De repente, uma criança precisa de uma atenção especial. As câmeras vão servir também para auxiliar os profissionais em dar atenção para aquelas crianças”, disse.
A nova etapa amplia significativamente o alcance original do monitoramento. Além de registrar quem entra e sai da escola e controlar frequência, o sistema anunciado passa a alcançar o cotidiano pedagógico dentro da sala e pretende gerar informações relacionadas ao comportamento e à atenção dos estudantes.
A iniciativa também se conecta a outra frente anunciada pela Secretaria Municipal de Educação. Durante o balanço, a gestão informou que prepara uma equipe de psicólogos para atuar na rede, oferecendo suporte a estudantes e profissionais. Entre as atribuições apresentadas está justamente a identificação de fatores emocionais, sociais e comportamentais que possam interferir no desempenho escolar.
A instalação de câmeras dentro das salas não surgiu agora. Em fevereiro de 2025, ainda no início da gestão, Abilio já havia anunciado a intenção de instalar equipamentos nos pátios e nas salas das escolas e creches. Na ocasião, relacionou a medida à prevenção de bullying, agressões e outros episódios de violência contra crianças.
O projeto ganhou outra dimensão em setembro de 2025, quando a Prefeitura iniciou oficialmente o Aluno Presente, agregando reconhecimento facial, chamada automática, acompanhamento da evasão, comunicação com responsáveis, controle de alimentação e painéis de dados para os gestores.
Há também um histórico relacionado aos limites de acesso às imagens. Em novembro de 2025, a Câmara de Cuiabá manteve veto do prefeito a um dispositivo aprovado pelo Legislativo que permitiria que pais e responsáveis acessassem imagens das câmeras das escolas em tempo real.
Na justificativa apresentada naquele momento, a administração argumentou que a transmissão das imagens poderia atingir direitos de privacidade de estudantes e profissionais, além de criar riscos de exposição indevida. Com o veto, permaneceu o modelo de acesso controlado pela administração municipal, sem abertura irrestrita das imagens aos responsáveis.
A expansão anunciada agora ocorre em um ambiente juridicamente mais sensível porque o reconhecimento facial utiliza dados biométricos. Pela Lei Geral de Proteção de Dados, informação biométrica vinculada a uma pessoa é classificada como dado pessoal sensível. No caso de crianças e adolescentes, a LGPD determina ainda que o tratamento dos dados seja realizado observando o melhor interesse desse público.
A Autoridade Nacional de Proteção de Dados também já se debruçou sobre reconhecimento facial envolvendo crianças e adolescentes. Documentos técnicos da ANPD destacam que sistemas de vigilância e monitoramento associados à automação devem respeitar a privacidade e não podem ser utilizados de maneira indiscriminada, devendo ser consideradas necessidade, proporcionalidade e alternativas menos invasivas.
O próprio Governo Federal orienta que o uso de biometria e reconhecimento facial em escolas seja realizado de forma minimalista, proporcional e transparente, inclusive quanto às condições de tratamento e armazenamento dos dados.
Quando lançou o Aluno Presente, a Prefeitura informou que o sistema gera metadados no processamento das imagens e declarou que a operação observa a LGPD. Cuiabá também possui política municipal de proteção de dados, que prevê gestão de riscos, segurança da informação, proporcionalidade no tratamento e adoção de proteção de dados desde a concepção de novas soluções tecnológicas.
Com a nova etapa, entretanto, a administração ainda não detalhou publicamente questões como prazo para instalação das câmeras em todas as salas, custo específico dessa expansão, período de armazenamento das imagens, critérios técnicos utilizados pelo sistema para classificar atenção ou comportamento, quem terá acesso às análises produzidas e quais protocolos serão utilizados quando a tecnologia apontar uma situação que demande acompanhamento.
O anúncio ocorreu dentro de um balanço mais amplo da Educação. A Prefeitura informou que o setor recebeu R$ 1,045 bilhão em 2026, correspondente a 26,5% do orçamento municipal, percentual apresentado pela administração acima do mínimo constitucional de 25%.
Do montante informado pela gestão, aproximadamente R$ 890 milhões são destinados aos profissionais da rede. Outros R$ 28 milhões foram aplicados em melhorias nas escolas em 2026 e mais de R$ 10 milhões foram repassados diretamente às unidades durante o primeiro semestre para manutenção e outras necessidades.
A Prefeitura também informou ter realizado manutenção em aproximadamente 2 mil aparelhos de ar-condicionado e iniciado a instalação de outros 950 equipamentos novos.
Além do monitoramento tecnológico e da equipe de psicólogos, a Secretaria anunciou um Centro de Formação dos Profissionais da Educação, voltado à capacitação continuada e à produção de materiais próprios, especialmente nas áreas de Matemática e Língua Portuguesa.
Assim, o sistema anunciado por Abilio passa a integrar uma estrutura que combina segurança escolar, reconhecimento facial, controle automático de frequência, combate à evasão, acompanhamento individual, gestão da alimentação e, na próxima etapa, monitoramento dentro das salas e análise de comportamento dos estudantes.
A Prefeitura ainda deverá definir como essa última camada tecnológica será operacionalizada e quais serão os parâmetros técnicos e de proteção de dados adotados para transformar imagens captadas durante as aulas em informações destinadas ao acompanhamento pedagógico dos estudantes.
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