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Por Nayara Cristina
Prefeito afirma que eleição mostrou perda de força de grupos tradicionais, cita votação de Júlio Campos em Várzea Grande e diz que vitória de Pivetta representa escolha do eleitor por “segurança, verdade e propostas sólidas”
O prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini (PL), fez nesta terça-feira (6) uma das avaliações mais duras sobre o resultado das eleições de 2026 em Mato Grosso e afirmou que as urnas expuseram a perda de espaço de famílias que durante décadas estiveram no centro das decisões políticas do Estado.
Sem decretar formalmente o fim da carreira de qualquer liderança, Abílio afirmou que o resultado eleitoral impôs pelo menos uma “pausa” a grupos tradicionais e demonstrou, na avaliação dele, uma mudança no comportamento do eleitorado mato-grossense.
“É muito difícil você decretar fim político de qualquer pessoa que seja. Acho que não cabe a mim decretar fim político de ninguém. Mas que há uma pausa na carreira política, sim”, afirmou.
Na sequência, o prefeito foi ainda mais incisivo ao citar famílias que ocuparam cargos de destaque na política estadual durante décadas.
“Os resultados desse processo eleitoral demonstram que Mato Grosso não quer mais a família Riva, não quer mais a família Campos, não quer mais a família Botelho e não quer mais a família Emanuel. Acho que esse resultado foi consolidado agora”, declarou.
A avaliação ocorre depois de uma eleição marcada pela derrota de nomes tradicionais que se distribuíram principalmente nos palanques do senador Wellington Fagundes (PL) e da candidata ao Governo Natasha Slhessarenko (PSD). Os dois grupos concentraram lideranças com décadas de atuação política, algumas delas presentes na vida pública de Mato Grosso desde as décadas de 1980 e 1990.
Para Abílio, o recado das urnas vai além da derrota individual de candidatos. Na avaliação do prefeito, existe uma substituição gradual do modelo político baseado em sobrenomes tradicionais, estruturas partidárias consolidadas e influência histórica sobre determinados redutos eleitorais.
O prefeito usou como exemplo o resultado obtido pelo deputado estadual Júlio Campos em Várzea Grande, cidade considerada berço político da família Campos.
Segundo Abílio, Júlio recebeu aproximadamente 4 mil votos no município, enquanto Samanta Iris, ligada ao grupo político do prefeito de Cuiabá, ultrapassou 9 mil votos.
“Só para você ter noção, Júlio Campos teve 4 mil votos em Várzea Grande. A Samanta teve 9 mil e pouco. A Samanta teve o dobro do número de votos dele na própria terra”, comparou.
O desempenho, na interpretação de Abílio, simboliza uma mudança que também estaria ocorrendo dentro dos bairros e redutos onde políticos tradicionais historicamente dependiam da estrutura de vereadores, cabos eleitorais e lideranças comunitárias.
Ele relatou uma situação ocorrida no Pedra 90, um dos maiores bairros da região Sul de Cuiabá, para sustentar o argumento.
“Teve um vereador aqui, por exemplo, que estava apoiando um candidato de Várzea Grande lá no Pedra 90. O candidato teve 300 votos, a Samanta teve 1.400 votos. Ou seja, essa velha classe política está perdendo seu espaço”, disse.
A declaração de Abílio ocorre após uma eleição que provocou uma verdadeira reorganização do tabuleiro político de Mato Grosso.
Além da derrota de candidatos tradicionais à Assembleia Legislativa e ao Congresso Nacional, algumas famílias que permaneceram durante décadas ocupando mandatos perderam representação direta nos principais espaços de poder.
Na avaliação do prefeito, a população passou a valorizar menos a tradição política e mais aquilo que considera resultado administrativo, previsibilidade e capacidade de execução.
Abílio citou como exemplo a eleição de Otaviano Pivetta ao Governo de Mato Grosso.
Segundo ele, a vitória de Pivetta é justamente uma demonstração de que o eleitor não escolheu necessariamente o candidato com maior capacidade de comunicação, oratória ou carisma.
“A demonstração que essa velha classe política está perdendo espaço é clara quando um cara que não tem boa oratória, não tem uma facilidade de comunicação, consegue apresentar projetos sólidos e alcançar o Governo do Estado, ser eleito governador”, afirmou.
Abílio avaliou que Pivetta venceu porque conseguiu transmitir ao eleitor uma imagem de segurança administrativa e continuidade do modelo de gestão desenvolvido pelo governador Mauro Mendes.
“Ninguém vai falar que ele foi eleito governador porque ele é o mais eloquente, o mais habilidoso, carismático. Mas ele foi o mais verdadeiro. Ele foi o mais sólido na apresentação das propostas e o mais sólido na questão de apresentar o que ele deseja fazer com Mato Grosso”, declarou.
Segundo o prefeito, Pivetta adotou durante a campanha um discurso baseado nos limites do que poderia ou não ser realizado pelo Governo.
“Ele chegou e falou: ‘Isso é possível fazer, nós vamos fazer. Isso não é possível fazer, nós não vamos fazer’. E o eleitor escolheu isso. O eleitor escolheu: ‘Prefiro aquilo que é confiável’”, disse.
Abílio também relacionou a vitória de Pivetta à avaliação do governo Mauro Mendes, argumentando que parte do eleitorado preferiu apostar na continuidade de um projeto que considerava conhecido a aderir a promessas consideradas de execução incerta.
“O povo escolheu essa segurança, a segurança do trabalho bom que o Mauro vinha fazendo e a segurança das propostas que ele fez, que foram mais eficazes. Porque, às vezes, as promessas fáceis passam e a pessoa não cumpre”, afirmou.
Questionado sobre as dificuldades de comunicação enfrentadas por Pivetta no início da campanha, Abílio sustentou que o principal obstáculo enfrentado pelo então candidato não era rejeição, mas desconhecimento.
Segundo o prefeito, à medida que Pivetta passou a aparecer mais para o eleitorado e apresentar sua trajetória e propostas, seus índices começaram a crescer gradativamente.
“Se você pegar o histórico, vai ver que, desde que ele assumiu o Governo, ele veio crescendo dois, três pontos na pesquisa mês a mês. Então o maior problema dele, acho que era que ele não era conhecido”, disse.
Para Abílio, o crescimento eleitoral ocorreu justamente à medida que Pivetta teve maior exposição.
“A partir do momento que ele foi ficando conhecido e foi tendo a oportunidade de se apresentar, ele foi crescendo nas pesquisas”, completou.
O resultado das eleições de 2026 colocou sob pressão alguns dos grupos mais longevos da política de Mato Grosso e abriu espaço para uma nova configuração de forças no Estado.
A leitura feita por Abílio Brunini é de que a mudança não aconteceu apenas nos nomes eleitos, mas na própria lógica utilizada pelo eleitor para escolher seus representantes.
Famílias que durante décadas carregaram sobrenomes eleitoralmente poderosos agora enfrentam o desafio de reconstruir espaço fora dos mandatos, enquanto lideranças de perfil administrativo ou surgidas mais recentemente avançam sobre territórios que antes pareciam praticamente impenetráveis.
Para Abílio, portanto, as urnas não decretaram necessariamente o desaparecimento definitivo dessas lideranças. Mas deixaram um aviso que, na visão dele, ficou impossível de ignorar: sobrenome, tradição e estrutura já não seriam suficientes para garantir poder político em Mato Grosso.