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Por José Teixeira
Ministro rejeitou pedido da Justiça do Trabalho envolvendo patrimônio da Florais Transportes, ligada a Andreson Gonçalves; recursos permanecem preservados para investigação da Operação Sisamnes
O ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou a liberação de valores bloqueados da Florais Transportes Ltda., empresa ligada ao lobista Andreson de Oliveira Gonçalves, para pagamento de dívidas trabalhistas e manteve as restrições patrimoniais impostas no âmbito da Operação Sisamnes.
A decisão foi assinada por Cristiano Zanin em 2 de setembro de 2026 e rejeitou a possibilidade de reserva, destinação ou liberação dos recursos alcançados pelas medidas criminais para satisfação dos créditos apresentados pela Justiça do Trabalho de Mato Grosso.
O pedido envolve aproximadamente R$ 6,5 milhões e chegou ao Supremo depois que a Justiça do Trabalho comunicou a existência de execuções contra a transportadora e seu sócio e questionou se parte do patrimônio bloqueado poderia ser utilizada para quitar os débitos.
A consulta havia sido encaminhada pela Vara do Trabalho de Peixoto de Azevedo, ligada ao Tribunal Regional do Trabalho da 23ª Região, e envolve duas execuções trabalhistas.
Antes da decisão de Zanin, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, manifestou-se contra a liberação.
A PGR argumentou que a constrição determinada na investigação criminal deveria prevalecer sobre as pretensões de terceiros, inclusive de natureza trabalhista, enquanto não houver definição sobre a origem e a destinação definitiva dos bens.
Zanin acolheu o entendimento.
Ao analisar o caso, o ministro considerou que permanecem em vigor medidas cautelares patrimoniais contra a Florais Transportes e que a liberação antecipada poderia comprometer a finalidade da investigação criminal.
As medidas de sequestro e bloqueio possuem justamente a finalidade de preservar patrimônio que, caso as acusações sejam comprovadas, poderá ser utilizado para reparação de danos ou eventual perda de bens, direitos e valores considerados produto ou proveito de crime.
A decisão não extingue os créditos trabalhistas nem significa que os trabalhadores perderam o direito reconhecido nas respectivas ações.
O que o Supremo decidiu é que o patrimônio atingido pela medida criminal não poderá ser liberado neste momento para satisfazer essas execuções.
Zanin determinou ainda que o Tribunal Regional do Trabalho da 23ª Região seja oficialmente comunicado.
A Florais Transportes tornou-se um dos pontos centrais da investigação financeira da Operação Sisamnes.
Relatórios da Polícia Federal apontam que a empresa teria sido utilizada, em tese, para movimentar recursos relacionados ao suposto esquema de negociação de decisões judiciais atribuído ao núcleo comandado pelo lobista Andreson.
Essas conclusões fazem parte da investigação e da acusação e não representam condenação definitiva da empresa ou dos envolvidos.
As quebras de sigilo analisadas pela Polícia Federal identificaram uma ligação financeira expressiva entre a transportadora e Roberto Zampieri.
Entre 2019 e 2023, Zampieri teria transferido aproximadamente R$ 7,18 milhões para contas da Florais Transportes, em operações que variaram de R$ 50 mil a R$ 2 milhões.
A PF passou a analisar essas movimentações dentro da investigação sobre possível lavagem de dinheiro relacionada à suposta comercialização de decisões judiciais.
Andreson é apontado pelas investigações como um dos principais intermediários do esquema descoberto depois da morte de Zampieri.
O advogado foi assassinado em 5 de dezembro de 2023, em Cuiabá. A análise de seu celular revelou conversas e documentos que deram origem a novas frentes de investigação sobre possíveis negociações envolvendo decisões no Tribunal de Justiça de Mato Grosso e no Superior Tribunal de Justiça.
A Operação Sisamnes foi deflagrada pela Polícia Federal em novembro de 2024 e, desde então, produziu sucessivas fases, buscas, prisões, afastamentos, bloqueios patrimoniais e quebras de sigilo.
Andreson chegou a permanecer preso preventivamente e atualmente cumpre prisão domiciliar em Primavera do Leste, por determinação judicial.
A manutenção do patrimônio da Florais bloqueado ganha importância justamente porque a investigação entrou em uma fase na qual a PGR já apresentou acusações formais contra integrantes de diferentes núcleos do suposto esquema.
Na prática, a decisão de 2 de setembro de 2026 preserva os ativos sob controle do processo criminal até que seja definida a situação jurídica do patrimônio.
Há ainda uma coincidência processual relevante.
Foi na mesma decisão em que manteve as restrições sobre a Florais Transportes que Cristiano Zanin voltou a cobrar da Justiça Federal de Mato Grosso informações sobre a tentativa de notificação do produtor rural Bernardo Mazzutti, também denunciado no caso.
O ministro concedeu novo prazo de 10 dias para cumprimento dessa diligência.
Os dois movimentos mostram que a investigação derivada do celular de Roberto Zampieri continua avançando simultaneamente em duas frentes: na preservação do patrimônio que poderá responder por eventuais crimes e na preparação da ação penal contra os denunciados pela PGR.