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Por Emerson Teixeira
A prisão da advogada Dayane Karol Moreira da Silva, deflagrada na manhã desta quinta-feira (30), durante a Operação Replay, colocou no centro das investigações um suposto esquema de lavagem de dinheiro e blindagem patrimonial utilizado por uma facção criminosa com atuação em Mato Grosso. Conforme a Polícia Civil, a profissional é suspeita de utilizar conhecimentos jurídicos e sua atuação na formalização de negócios imobiliários para conferir aparência de legalidade a bens adquiridos com recursos oriundos, principalmente, do tráfico de drogas.
A ofensiva, conduzida pela Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Organizado (Draco) e pelo Grupo de Combate ao Crime Organizado (GCCO), representa mais uma etapa das operações Apito Final, Fair Play e Tempo Extra, que, há meses, investigam a estrutura financeira da organização criminosa comandada pelo faccionado Paulo Witter Farias Paelo, conhecido como W.T.. Mesmo recolhido na Penitenciária Central do Estado (PCE), ele é apontado como responsável por continuar administrando o patrimônio da facção, dando ordens para aquisição de imóveis, movimentações financeiras e ocultação de bens.
Segundo o delegado Victor Hugo Caetano, do GCCO, Dayane exercia papel estratégico na engrenagem financeira do grupo criminoso. As investigações apontam que ela atuava como procuradora em negociações imobiliárias realizadas, principalmente, no litoral de Santa Catarina, utilizando pessoas interpostas para registrar imóveis e mascarar a verdadeira propriedade dos bens.
De acordo com a Polícia Civil, a advogada teria participado da formalização de transações destinadas exclusivamente a esconder o patrimônio pertencente ao tesoureiro da facção. A suspeita é de que contratos, procurações e registros fossem estruturados para dificultar a identificação da origem ilícita dos recursos empregados nas aquisições.
A Operação Replay cumpriu 55 ordens judiciais nos estados de Mato Grosso, Santa Catarina e Rio de Janeiro. Durante a ação foram sequestrados nove imóveis, seis veículos, além do cumprimento de mandados de prisão e de busca e apreensão. A Justiça também determinou o bloqueio de patrimônio estimado em aproximadamente R$ 20 milhões, considerado fruto da atividade criminosa. Entre os bens atingidos estão apartamentos de alto padrão de frente para o mar em Balneário Camboriú, imóveis em Itapema e uma residência localizada em condomínio de luxo, avaliados em cerca de R$ 6 milhões.
Além da advogada, também foram presos Emerson Ferreira Lima, conhecido como “Gordão”, apontado como principal operador financeiro de W.T.; Alex Júnior Santos de Alencar, o “Alex Soldado”, identificado como um dos homens de confiança da liderança da facção fora do sistema prisional; e Brunno Passos da Silva, assessor parlamentar do vereador licenciado Jefferson Siqueira (PSD), que foi exonerado do cargo logo após a operação.
As apurações revelaram ainda que o grupo utilizava uma complexa rede de movimentações bancárias em nome de terceiros sem capacidade econômica compatível, empresas de fachada e operadores financeiros para ocultar a origem do dinheiro obtido com atividades criminosas, especialmente o tráfico de drogas. A investigação também identificou que W.T. mantinha comunicação clandestina de dentro da Penitenciária Central do Estado por meio de aparelhos celulares, de onde continuava determinando investimentos, compras de imóveis, aquisição de veículos e até ordens relacionadas às atividades da organização.
Conforme o delegado Victor Hugo Caetano, o foco da investigação não é apenas prender integrantes da facção, mas atingir sua base financeira. Segundo ele, retirar o patrimônio construído com dinheiro ilícito representa uma das formas mais eficazes de enfraquecer o crime organizado, impedindo que os recursos continuem sendo utilizados para financiar novas ações criminosas.
Como a investigação chegou até a advogada
A prisão de Dayane Karol Moreira da Silva é resultado de um trabalho investigativo iniciado nas operações Apito Final, Fair Play e Tempo Extra, que passaram a rastrear a movimentação financeira do núcleo comandado por W.T. Durante a análise de quebras de sigilo, movimentações bancárias, registros cartoriais, documentos imobiliários e cruzamento de informações patrimoniais, os investigadores identificaram que diversos imóveis de alto padrão eram registrados em nome de terceiros sem capacidade financeira para adquiri-los.
O aprofundamento das diligências revelou que essas negociações contavam com a atuação direta da advogada, que aparecia como procuradora em operações imobiliárias realizadas, principalmente em Santa Catarina, conferindo formalidade jurídica às transações e dificultando o rastreamento da verdadeira origem dos recursos. A partir desse conjunto de provas, a Polícia Civil representou pelas medidas cautelares, que foram autorizadas pelo Poder Judiciário e culminaram na deflagração da Operação Replay nesta quinta-feira, com prisões, buscas e o sequestro milionário de bens destinados, segundo a investigação, à lavagem de dinheiro da facção criminosa.