BRT EM RETA FINAL

Pivetta anuncia definição da compra dos ônibus do BRT na próxima semana e conclusão das obras até dezembro

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Pivetta anuncia definição da compra dos ônibus do BRT na próxima semana e conclusão das obras até dezembro

14 ANOS DE IMPASSES

JB News

Por Nayara Cristina

O governador de Mato Grosso, Otaviano Pivetta (Republicanos), anunciou nesta quarta-feira (21 de outubro de 2026) que pretende concluir as obras do primeiro corredor do BRT (Bus Rapid Transit) entre Cuiabá e Várzea Grande até dezembro deste ano e avançar, já na próxima semana, na definição da compra dos ônibus que vão operar o sistema. A declaração representa mais um compromisso de entrega de uma obra que se arrasta há 14 anos, atravessou diferentes governos estaduais, enfrentou denúncias de corrupção, paralisações, disputas judiciais, rescisões contratuais e uma mudança completa de tecnologia, sem que a população tenha recebido o transporte de massa prometido originalmente para a Copa do Mundo de 2014.

Durante entrevista coletiva, Pivetta afirmou que as tratativas para aquisição dos veículos estão na fase decisiva. A compra da frota é considerada uma das etapas essenciais para a operação do sistema, já que a conclusão das pistas e estações, isoladamente, não garante o transporte de passageiros.

O governador voltou a estabelecer dezembro de 2026 como prazo para a conclusão da infraestrutura do primeiro corredor, que liga o Aeroporto Internacional Marechal Rondon, em Várzea Grande, ao Centro Político Administrativo, em Cuiabá. A previsão, porém, não significa necessariamente que os ônibus começarão a circular comercialmente ainda neste ano.

A história do empreendimento começou em 2012, quando o Governo de Mato Grosso contratou a implantação do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), anunciado como a principal obra de mobilidade urbana da Copa do Mundo de 2014. O projeto previa a construção de aproximadamente 22 quilômetros de linhas ferroviárias, conectando as regiões do Aeroporto, Centro Político Administrativo e Coxipó.

O contrato original, firmado em junho de 2012, tinha valor aproximado de R$ 1,4 bilhão e prazo de 24 meses. O sistema deveria estar funcionando antes da abertura do Mundial, mas o cronograma não foi cumprido.

A Copa do Mundo passou por Cuiabá, os jogos terminaram e o VLT nunca transportou um único passageiro.

Em dezembro de 2014, diante dos atrasos e problemas de execução, o Governo do Estado determinou a paralisação das obras. Na ocasião, cerca de 30% da infraestrutura física havia sido executada, depois de despesas superiores a R$ 1 bilhão.

O impasse se agravou nos anos seguintes. Em 2015, a paralisação foi judicializada, após tentativas frustradas de retomada. Estudos técnicos passaram a avaliar quanto seria necessário para concluir o sistema e se a continuidade das obras ainda seria economicamente viável.

Em 2016, um levantamento apontou necessidade de aproximadamente R$ 602,7 milhões adicionais para finalizar o VLT. Posteriormente, em 2017, uma nova avaliação elevou a estimativa para R$ 889 milhões, enquanto negociações chegaram a considerar um acordo de R$ 922 milhões.

Paralelamente às discussões financeiras, o empreendimento passou a ser investigado por suspeitas de corrupção.

Em agosto de 2017, a Polícia Federal deflagrou a Operação Descarrilho, que investigou indícios de pagamento de propina relacionados à contratação e execução das obras do VLT durante a gestão do ex-governador Silval Barbosa.

As investigações e os impasses contratuais contribuíram para o rompimento definitivo entre o Estado e o consórcio responsável pelo projeto ferroviário. Em 2019, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso manteve a rescisão unilateral do contrato.

O VLT tornou-se, assim, um dos principais exemplos de obra pública inacabada em Mato Grosso, com trilhos instalados, estruturas parcialmente executadas e dezenas de vagões adquiridos, mas sem prestação efetiva do serviço à população.

A mudança mais profunda ocorreu em dezembro de 2020, quando o então governador Mauro Mendes anunciou a substituição do VLT pelo BRT, sistema de ônibus de transporte rápido que utiliza corredores exclusivos.

A decisão foi defendida pelo Governo sob o argumento de que o BRT teria custo de implantação e operação inferior ao modal ferroviário, além de apresentar maior flexibilidade para futuras expansões.

Na época, estudos utilizados pelo Executivo estimavam em aproximadamente R$ 763 milhões o investimento necessário para concluir o VLT, enquanto a implantação do BRT foi projetada em cerca de R$ 460 milhões. Os valores correspondiam às alternativas examinadas naquele período e não representavam o custo total acumulado de toda a história do empreendimento.

A mudança, entretanto, também provocou questionamentos políticos, técnicos e judiciais, especialmente sobre o aproveitamento das estruturas já construídas e o destino dos equipamentos adquiridos para o sistema ferroviário.

A substituição exigiu a retirada de trilhos, estruturas de sustentação de cabos elétricos e outras instalações que haviam sido executadas para o VLT.

Em 2023, equipes começaram a desmontar aproximadamente seis quilômetros de trilhos que haviam sido instalados nos corredores de Cuiabá e Várzea Grande. O desmonte simbolizou o abandono definitivo do projeto inicialmente previsto para a Copa de 2014.

O contrato para implantação do BRT foi homologado em abril de 2022, pelo valor de R$ 468 milhões. A ordem de serviço teve início em outubro daquele ano, com prazo de conclusão inicialmente estabelecido para outubro de 2024.

Entretanto, a nova obra também passou a enfrentar dificuldades e sucessivos atrasos.

Intervenções nas avenidas, alterações de projetos, discussões sobre drenagem, adequações de estações e terminais, além de divergências administrativas e políticas, comprometeram o cronograma.

Durante parte da execução, houve disputas entre o Governo do Estado e a administração municipal de Cuiabá, então comandada por Emanuel Pinheiro (MDB), envolvendo autorizações e condições para realização das obras em vias urbanas.

Esses conflitos contribuíram para um ambiente de incertezas, enquanto motoristas, comerciantes e moradores conviviam com canteiros de obras, bloqueios de pistas, congestionamentos, poeira e dificuldades de acesso a estabelecimentos comerciais.

O episódio mais grave da implantação do BRT ocorreu em fevereiro de 2025, quando o Governo de Mato Grosso anunciou a rescisão do contrato com o Consórcio Construtor BRT Cuiabá, responsável pela execução inicial do empreendimento.

Segundo o Executivo, depois de mais de dois anos de contrato, apenas pouco mais de 18% dos serviços haviam sido concluídos, apesar de o prazo original de entrega ter terminado em outubro de 2024.

O Governo alegou descumprimento reiterado do cronograma e informou que a Sinfra havia expedido mais de 50 notificações relacionadas a atrasos e falhas na execução.

O consórcio, por sua vez, contestou as acusações e atribuiu parte das dificuldades a mudanças nos projetos, impedimentos administrativos, atrasos em licenças e impossibilidade de executar determinadas frentes de trabalho.

Entre os problemas mencionados pelas empresas estavam modificações nas estações, no Centro de Controle Operacional, no terminal de Várzea Grande e no projeto de macrodrenagem da região da Prainha.

A empresa também alegou prejuízos financeiros e defendeu que não poderia ser responsabilizada isoladamente pelos atrasos.

Com a ruptura contratual, o Governo decidiu reorganizar a execução do BRT, dividindo as obras restantes em contratos e lotes específicos, com contratação de empresas para diferentes etapas da infraestrutura.

A medida buscou permitir a continuidade do empreendimento sem depender de um único consórcio para todas as intervenções.

O antigo consórcio permaneceu responsável por concluir determinadas frentes já iniciadas, conforme acordo firmado após a rescisão.

A sucessão de mudanças administrativas, contratuais e técnicas fez com que um projeto originalmente programado para ser entregue em aproximadamente dois anos chegasse a outubro de 2026 ainda em execução, 14 anos depois do começo das obras do VLT.

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