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Por José Teixeira
Deputada estadual eleita critica restrições impostas ao senador após derrota para Lula, acusa a esquerda de espalhar medo durante a campanha presidencial e rejeita boicotes políticos, mas afirma que fé cristã e ideologia de esquerda são incompatíveis.
JB NEWS | POLÍTICA
CUIABÁ (MT) — A primeira-dama de Cuiabá, vereadora e deputada estadual eleita Samantha Iris (PL), fez duras críticas à esquerda, questionou as medidas judiciais impostas ao senador Flávio Bolsonaro (PL) após sua derrota na eleição presidencial e provocou uma discussão sobre a relação entre religião e posicionamento político ao afirmar categoricamente que não existe cristão de esquerda. Em entrevista ao JB News, a parlamentar também acusou a campanha do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de explorar o medo dos eleitores, comentou movimentos de boicote contra municípios onde o petista venceu e classificou a proposta de transporte público gratuito do governo federal como uma promessa de difícil execução.
Uma das manifestações mais contundentes ocorreu quando Samantha foi questionada sobre a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a entrega dos passaportes de Flávio Bolsonaro e impôs restrições à sua saída do país.
Para a parlamentar, a medida levanta questionamentos sobre os limites da atuação judicial e o direito constitucional de ir e vir, especialmente por envolver um senador que ainda exerce mandato parlamentar.
“A primeira coisa que eu acho que todo mundo tá tentando entender é por que o Alexandre de Moraes quis apreender o passaporte dele, baseado em que motivo”, afirmou.
Samantha questionou o que considera uma perseguição ao ex-candidato presidencial e argumentou que a derrota eleitoral não deveria representar, por si só, qualquer limitação à liberdade de circulação do parlamentar.
“Qual é a real necessidade de fazer isso com uma pessoa que é um parlamentar eleito, porque ele ainda tem o mandato? Então por que essa caça a Flávio Bolsonaro? O que motiva isso?”, indagou.
A restrição determinada por Moraes, entretanto, está relacionada a investigações judiciais e não decorre formalmente do resultado eleitoral. Segundo informações divulgadas sobre o caso, a Polícia Federal apontou risco de fuga do senador, que é investigado por suspeitas de irregularidades financeiras, incluindo possíveis vínculos com uma investigação de lavagem de dinheiro envolvendo o advogado Willer Tomaz. Flávio Bolsonaro nega irregularidades.
A decisão também levou em consideração manifestações públicas sobre a possibilidade de o senador deixar o Brasil caso fosse derrotado nas eleições. A existência de investigações e a avaliação de risco processual podem fundamentar medidas cautelares, que não equivalem a uma condenação criminal.
Durante a entrevista, Samantha afirmou desconhecer o paradeiro de Flávio Bolsonaro e evitou confirmar informações sobre uma eventual saída do país. Para ela, a preocupação do senador com seu futuro seria compreensível diante do ambiente político e judicial brasileiro.
“Não sei o que ele tá fazendo ou pra onde ele foi, não tenho essa informação, mas realmente eu acho que muita gente tá se perguntando o porquê dessa preocupação com pra onde ele foi”, declarou.
A parlamentar também mencionou os presos pelos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, estabelecendo uma comparação entre a situação dos envolvidos na invasão das sedes dos Três Poderes e o receio de medidas judiciais contra integrantes da direita.
Ao fazer essa referência, Samantha questionou o tratamento dispensado a pessoas investigadas e condenadas pelos atos daquele dia. Os processos relacionados ao 8 de janeiro, porém, envolvem situações jurídicas distintas, com decisões individuais, acusações e condenações específicas.
O posicionamento da deputada eleita revela sua proximidade com o discurso político do bolsonarismo, especialmente na defesa das liberdades individuais e nas críticas à atuação do Judiciário em processos envolvendo lideranças conservadoras.
A entrevista ganhou contornos ainda mais polêmicos quando Samantha foi questionada sobre a divisão política e religiosa do país depois da vitória de Lula.
Diante da pergunta sobre a existência de cristãos identificados com partidos e movimentos de esquerda, a parlamentar respondeu de forma categórica.
“Eu acho que o cristão de esquerda é o seguinte: ou ele não sabe o que é ser cristão ou ele não sabe o que é ser de esquerda”, declarou.
A primeira-dama sustentou que determinadas posições políticas associadas à esquerda seriam incompatíveis com os ensinamentos bíblicos. Entre os assuntos mencionados estão o aborto, as drogas e questões relacionadas à segurança pública.
“É impossível você ser cristão e defender aborto, defender drogas, defender facções criminosas, defender algumas coisas estranhas que a esquerda defende”, afirmou.
As declarações representam a interpretação religiosa e política da parlamentar, não uma definição consensual do cristianismo. As diferentes tradições cristãs apresentam entendimentos variados sobre participação política, justiça social e questões morais, enquanto a identificação com a esquerda não implica necessariamente apoio às práticas mencionadas por Samantha.
A deputada eleita aprofundou sua crítica ao afirmar que uma pessoa que se considera cristã e, ao mesmo tempo, adota posições políticas de esquerda estaria equivocada quanto à compreensão da Bíblia ou da própria ideologia política.
“Quando a pessoa fala que ela acredita em Deus e é de esquerda, ou ela não conhece a Bíblia ou ela não conhece a esquerda. Porque se você conhece um, não tem como ir pro lado do outro”, sustentou.
Samantha também rejeitou a possibilidade de conciliação entre o feminismo e sua interpretação dos princípios cristãos.
“Não existe cristão de esquerda. Não existe feminista cristã. É impossível você acreditar na Bíblia, você entender o que a Bíblia fala e aceitar a ideologia que a esquerda prega”, declarou.
A manifestação ocorre em um contexto de forte polarização política, no qual questões religiosas, comportamentais e morais continuam ocupando espaço central nas disputas eleitorais brasileiras.
O resultado do segundo turno presidencial demonstra a dimensão dessa divisão. Lula foi reeleito com 64.256.232 votos, correspondentes a 51,79% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro recebeu 59.826.041 votos, equivalentes a 48,21%, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A diferença entre os candidatos foi de aproximadamente 4,43 milhões de votos.
Ao analisar a vitória petista, Samantha rejeitou a interpretação de que o resultado representa necessariamente uma preferência majoritária dos brasileiros pelo atual modelo de governo ou uma rejeição predominante ao bolsonarismo.
Na avaliação da parlamentar, a campanha de Lula teria explorado o receio da população diante de uma possível vitória de Flávio Bolsonaro, especialmente em assuntos relacionados à manutenção de benefícios sociais e serviços públicos.
“Eu acho que foi feito um grande terrorismo pela esquerda de colar cartazes nos pontos de ônibus, nos muros, pela cidade, distribuir pânico, distribuir terror, falar que ia acabar com isso, que ia acabar com aquilo”, criticou.
Samantha também acusou adversários políticos de atribuir ao presidente Lula a criação de políticas e instituições que tiveram origem em outros períodos da história brasileira.
Como exemplo de sua crítica, mencionou o Sistema Único de Saúde (SUS), instituído pela Constituição Federal de 1988 e regulamentado em 1990, portanto antes dos governos petistas.
Para ela, a campanha eleitoral utilizou narrativas alarmistas para influenciar a decisão de parte dos eleitores, embora não tenha apresentado, durante a entrevista, levantamento que permita medir a influência dessas mensagens sobre o resultado das urnas.
A parlamentar ainda argumentou que Flávio Bolsonaro nunca exerceu a Presidência da República e, por isso, não poderia ser responsabilizado diretamente pelos problemas econômicos e administrativos enfrentados pelo país.
Samantha avaliou negativamente a situação nacional e chegou a afirmar que o Brasil estaria em condições piores do que durante a pandemia da Covid-19, período em que Jair Bolsonaro ocupava a Presidência. A comparação foi apresentada como avaliação política da entrevistada, sem indicadores econômicos específicos que permitam confirmar essa conclusão.
Outro assunto abordado foi o movimento de empresários e integrantes da direita que passaram a defender boicotes econômicos contra localidades onde Lula venceu a eleição presidencial.
Durante a entrevista, Samantha foi questionada sobre manifestações que incentivam a suspensão de investimentos, a redução de relações comerciais e até demissões motivadas pelo posicionamento político de trabalhadores.
Entre os municípios citados na pergunta esteve Jangada, em Mato Grosso, apontado como alvo de manifestações de boicote por causa do resultado eleitoral.
Embora reconheça o clima de insatisfação entre eleitores conservadores, a deputada eleita afirmou não acreditar que essas iniciativas se transformem em ações generalizadas.
“A gente vive num momento onde as pessoas ainda estão com os ânimos exaltados, no calor da emoção da situação da eleição, mas no fundo eu acredito que o pessoal da direita dificilmente vai tomar ações drásticas como essa”, declarou.
Samantha associou sua expectativa ao comportamento social que atribui aos cristãos e aos conservadores, afirmando acreditar que a solidariedade deve prevalecer sobre as divergências partidárias.
“Eu acho muito difícil que uma pessoa de direita que veja alguém em necessidade vai deixar de ajudar por questão política”, afirmou.
Ao mesmo tempo, a parlamentar atribuiu à direita o protagonismo das ações sociais e de solidariedade no Brasil, interpretação que reflete suas convicções pessoais e não exclui a atuação de entidades religiosas, movimentos sociais e organizações de diferentes orientações políticas.
Apesar de não endossar diretamente os boicotes, Samantha também não anunciou medidas concretas para combater eventuais práticas discriminatórias contra trabalhadores ou comerciantes em razão do voto.
A deputada eleita ainda criticou a proposta defendida por Lula de ampliar a gratuidade no transporte coletivo urbano aos fins de semana e feriados.
Na avaliação dela, a iniciativa enfrenta dificuldades financeiras e administrativas porque o custeio dos sistemas de transporte público depende de contratos, estruturas e necessidades específicas de cada município.
“Eu acho que é impossível o governo federal oferecer isso porque o custeio do transporte público é uma coisa do município e não tem como precificar isso, quantificar isso de maneira realista pra que o governo federal pague”, afirmou.
Samantha citou Cuiabá como exemplo de cidade que já oferece transporte coletivo gratuito aos domingos, política implantada durante a gestão do prefeito Abilio Brunini (PL), seu marido.
A gratuidade foi instituída pela Lei Municipal nº 7.248, de abril de 2025, e também contempla determinadas datas comemorativas e feriados. Segundo dados divulgados pela prefeitura no início de outubro de 2026, a iniciativa já havia atendido mais de 1,14 milhão de passageiros, com investimento municipal informado de aproximadamente R$ 7,09 milhões.
No âmbito federal, a proposta de Lula envolve a ampliação da tarifa zero por meio de mudanças legislativas e mecanismos de financiamento. Uma proposta de emenda à Constituição em discussão no Congresso prevê a destinação de recursos para custear o benefício, mas sua implementação depende de aprovação parlamentar e definição das fontes financeiras.
Para Samantha, a experiência de Cuiabá demonstra que políticas de transporte gratuito precisam considerar as condições orçamentárias de cada administração.
A primeira-dama classificou a iniciativa nacional como uma promessa eleitoral cuja viabilidade ainda precisaria ser comprovada.
As declarações de Samantha Iris ocorrem em um momento importante de sua trajetória política. Eleita vereadora de Cuiabá em 2024, com 7.460 votos, a parlamentar conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa de Mato Grosso nas eleições de 2026, ampliando sua atuação da política municipal para o cenário estadual.
Sua eleição também fortalece a presença do PL no Legislativo mato-grossense e projeta uma liderança política identificada com o conservadorismo, a defesa de pautas religiosas e o bolsonarismo.
Ao abordar temas que vão da liberdade de circulação de Flávio Bolsonaro à relação entre fé e ideologia, passando pela rejeição a boicotes políticos e pelas críticas às propostas de Lula, Samantha deixou claro que pretende manter um posicionamento de oposição ao campo político do presidente reeleito.
A entrevista evidencia que, apesar do encerramento da disputa presidencial, a polarização permanece presente no debate público. Para a deputada estadual eleita, a derrota de Flávio Bolsonaro não encerra as divergências sobre os rumos do país, a atuação das instituições e os valores que devem orientar a política brasileira.
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