JB News
Por Nayara Cristina
Prefeito de Cuiabá sustenta que resultado das eleições de 2026 não representa o enfraquecimento do bolsonarismo, aponta crescimento expressivo do PL no Congresso Nacional e afirma que Mato Grosso continuará sendo um dos principais redutos conservadores do Brasil.
A derrota de Flávio Bolsonaro (PL) para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais de 2026 abriu uma nova discussão sobre o futuro da direita brasileira, o protagonismo da família Bolsonaro e a reorganização das forças conservadoras para a disputa de 2030. Apesar do resultado nacional desfavorável, o prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini (PL), afirmou que o bolsonarismo permanece forte, unido e politicamente consolidado, especialmente em Mato Grosso, onde o candidato do PL conquistou mais de 66% dos votos válidos.
Ao comentar o cenário político após as eleições, Abílio rebateu avaliações de que a vitória de Lula representaria o fim da influência de Jair Bolsonaro e de seus aliados sobre a direita nacional. Para o prefeito, os números registrados nas eleições legislativas e estaduais demonstram justamente o contrário: o fortalecimento de um campo político que, embora derrotado na corrida presidencial, ampliou sua representação no Congresso Nacional e preservou importantes bases eleitorais.
A manifestação ocorreu em meio a questionamentos sobre a possibilidade de o Partido Liberal e o bolsonarismo abrirem espaço para novas lideranças conservadoras na próxima eleição presidencial. Entre os nomes mencionados no debate estão o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e Michelle Bolsonaro, eleita senadora pelo Distrito Federal, que poderão desempenhar papéis relevantes na reorganização da direita nos próximos quatro anos.
Abílio, entretanto, rejeitou a interpretação de que o resultado das urnas tenha retirado do bolsonarismo sua condição de principal força política da oposição. Em resposta, o prefeito também fez críticas a integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF), utilizando a trajetória de um ministro, sem identificá-lo nominalmente, para argumentar que declarações sobre o suposto fim do movimento bolsonarista não encontraram respaldo nos resultados eleitorais.
“Eu acho que nenhum ministro mais vai sair gritando que nós derrotamos o bolsonarismo, isso é certeza. Porque o último que fez isso não deu muito certo”, declarou o prefeito.
Na avaliação de Abílio, a eleição presidencial precisa ser analisada em conjunto com o desempenho das forças conservadoras nas disputas para a Câmara dos Deputados, Senado e governos estaduais. Segundo ele, o crescimento parlamentar do PL coloca o partido em uma posição estratégica para influenciar as decisões nacionais e impor dificuldades à agenda do próximo mandato de Lula.
O prefeito destacou especialmente a eleição de 121 deputados federais pelo Partido Liberal, resultado que colocou a legenda na liderança da representação partidária na Câmara dos Deputados para a legislatura que começará em fevereiro de 2027.
A informação é confirmada pelos dados divulgados pela Agência Senado. O PL passou de 97 deputados eleitos em 2022 para 121 em 2026, um crescimento de 24 cadeiras. A bancada representará aproximadamente 23,6% das 513 vagas da Câmara, consolidando-se como a maior força partidária individual da Casa.
Para Abílio, a influência do bolsonarismo vai além dos parlamentares oficialmente filiados ao PL. Ele considera que deputados de outras legendas, incluindo partidos de centro-direita, também possuem afinidade com as pautas defendidas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.
“Bolsonarismo elegeu 121 deputados só no PL. Ainda você tem pelo menos uns dez deputados em cada um dos outros partidos que têm conveniência com o lado. Vai passar de 171 deputados alinhados com Bolsonaro”, afirmou.
A projeção apresentada pelo prefeito representa uma estimativa política de alinhamento parlamentar, e não uma bancada formalmente constituída. Isso porque partidos como União Brasil, PP e Republicanos possuem diferentes correntes internas e nem todos os seus integrantes necessariamente acompanharão o PL em votações importantes.
Mesmo assim, o crescimento da oposição conservadora poderá representar um obstáculo para o governo federal, especialmente em matérias que exigem apoio qualificado do Congresso.
Na Câmara dos Deputados, propostas de emenda à Constituição precisam de pelo menos 308 votos favoráveis, enquanto no Senado são necessários 49 votos. Dessa maneira, um bloco coeso de 206 deputados ou 33 senadores pode impedir a aprovação de mudanças constitucionais, considerando a composição integral das Casas. A articulação de bancadas menores também poderá influenciar a votação de projetos ordinários, medidas provisórias e outras iniciativas do Executivo, embora cada modalidade tenha regras próprias.
No Senado, o cenário também é favorável ao crescimento da oposição. Conforme levantamento divulgado pela Rádio Senado nesta terça-feira (27), o PL deverá iniciar a próxima legislatura com 29 senadores, constituindo a maior bancada da Casa, que possui 81 integrantes. O número atualizado supera os 27 parlamentares mencionados por Abílio durante sua declaração.
Além da representação no Legislativo federal, o Partido Liberal também saiu fortalecido das disputas estaduais. A legenda comandará seis governos estaduais a partir de 2027, a maior quantidade entre os partidos isoladamente. O PSD terá cinco governos, enquanto PT, PP e Republicanos administrarão quatro unidades da Federação cada.
Esse conjunto de resultados sustenta parte da avaliação do prefeito de Cuiabá de que a derrota presidencial não significou uma derrota generalizada da direita.
“Elegemos o maior número de governadores e elegemos também o maior número de prefeitos. Elegemos o maior número de deputados estaduais. Elegemos o maior número de vereadores. Ou seja, quem pensou que derrotou o bolsonarismo, está acabado. O bolsonarismo está forte”, declarou Abílio, ao destacar o desempenho eleitoral do campo conservador.
As referências a prefeitos e vereadores, contudo, dizem respeito a cargos que não estiveram em disputa nas eleições gerais de 2026. A próxima eleição municipal está prevista para 2028, quando será possível medir novamente a força territorial das legendas nesses cargos.
O contraste entre a derrota presidencial e o crescimento parlamentar fica evidente quando se observam os números oficiais do segundo turno. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Lula foi reeleito com 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro recebeu 59.826.041 votos, correspondentes a 48,21%.
A diferença nacional foi de aproximadamente 4,43 milhões de votos. Apesar de não conquistar a Presidência da República, Flávio demonstrou capacidade de mobilização eleitoral, ultrapassando a marca de 59 milhões de votos e mantendo a disputa polarizada até o encerramento da apuração.
Em Mato Grosso, entretanto, o resultado foi bastante diferente do registrado nacionalmente, e é justamente nesse cenário que Abílio Brunini concentra seus argumentos sobre a resistência e a força do bolsonarismo.
No estado, Flávio Bolsonaro conquistou 1.351.099 votos, equivalentes a 66,06% dos votos válidos. Lula recebeu 694.167 votos, ou 33,94%. A vantagem do candidato do PL chegou a 656.932 votos, confirmando Mato Grosso como um dos principais redutos eleitorais da direita brasileira.
O desempenho foi ainda mais expressivo quando observado o mapa municipal. Flávio venceu em 131 dos 142 municípios mato-grossenses, enquanto Lula conquistou a maioria dos votos em apenas 11 cidades.
Em importantes centros econômicos ligados ao agronegócio, a votação conservadora alcançou índices elevados. Em Sinop, Flávio obteve 77,71% dos votos válidos. Em Sorriso, chegou a 75,68%, enquanto Rondonópolis registrou 65,74%. Os resultados demonstram a força eleitoral do PL em regiões onde pautas relacionadas ao setor produtivo, à segurança pública e ao conservadorismo possuem expressiva presença no debate político.
Na capital, Cuiabá, o resultado também foi favorável ao candidato bolsonarista. Flávio Bolsonaro recebeu 219.767 votos, correspondentes a 59,58% dos votos válidos, contra 149.091 votos de Lula, que alcançou 40,42%.
A diferença de mais de 70 mil votos entre os candidatos foi destacada pelo prefeito como demonstração da consolidação de uma identidade política conservadora na capital mato-grossense.
“Cuiabá está consolidada, 59%. Cinquenta e nove por cento da população de Cuiabá votou no Flávio Bolsonaro. Só para você ter ideia do que é isso, é um resultado incrível”, afirmou.
O percentual citado por Abílio corresponde, tecnicamente, aos votos válidos, não à totalidade da população cuiabana. Ainda assim, representa uma vitória expressiva do candidato do PL no município.
O prefeito também chamou atenção para características sociais e institucionais da capital, especialmente a concentração de universidades e servidores públicos. Na avaliação dele, esses segmentos possuem parcelas do eleitorado identificadas com posições de esquerda, o que tornaria o desempenho de Flávio ainda mais relevante.
Abílio ressaltou que nem todos os servidores possuem o mesmo posicionamento ideológico, mas argumentou que o resultado da eleição confirma a existência de uma maioria conservadora entre os eleitores que compareceram às urnas e registraram votos válidos para presidente.
A interpretação do prefeito, entretanto, não significa que seja possível identificar o comportamento eleitoral de categorias profissionais específicas apenas pelo resultado geral da cidade. Para estabelecer essas relações seriam necessários levantamentos detalhados sobre o perfil dos eleitores.
O resultado de 2026 também permite uma comparação com a eleição presidencial anterior. Em 2022, Jair Bolsonaro venceu Lula em Cuiabá com 61,50% dos votos válidos no segundo turno. Quatro anos depois, Flávio Bolsonaro manteve a liderança na capital, mas com um percentual inferior ao alcançado pelo pai.
O dado evidencia, ao mesmo tempo, a permanência de uma maioria eleitoral favorável ao bolsonarismo na cidade e a necessidade de ampliar sua capacidade de mobilização para futuras disputas.
Em Mato Grosso, a força conservadora também se refletiu nas eleições estaduais. Otaviano Pivetta (Republicanos) foi eleito governador no primeiro turno, enquanto Mauro Mendes (União Brasil) e José Medeiros (PL) conquistaram as duas vagas disputadas para o Senado.
A composição demonstra que a direita mato-grossense reúne diferentes partidos e lideranças, com alianças que ultrapassam os limites do PL. Essa característica poderá ser importante para a reorganização nacional da oposição, especialmente diante do debate sobre quem deverá assumir o protagonismo da disputa presidencial de 2030.
Apesar das diferenças partidárias e de eventuais divergências internas, Abílio sustenta que Mato Grosso possui uma configuração política própria, marcada por forte identificação com o conservadorismo.
“Aqui é outro país e a gente vai continuar cuidando do nosso estado e do nosso município”, declarou.
A expressão utilizada pelo prefeito reforça a percepção de que Mato Grosso apresenta um comportamento eleitoral distinto daquele observado em regiões onde Lula conquistou suas principais vantagens.
O posicionamento também demonstra a intenção de preservar o fortalecimento político da direita no estado, independentemente de quem ocupará a Presidência da República a partir de janeiro de 2027.
A discussão sobre o futuro do bolsonarismo ganha importância porque a eleição de 2026 produziu dois resultados simultâneos: a permanência de Lula no comando do Executivo federal e a ampliação da presença do PL no Poder Legislativo.
Com isso, a próxima legislatura poderá ser marcada por disputas mais intensas entre governo e oposição. A força das bancadas conservadoras poderá influenciar negociações políticas, a tramitação de propostas constitucionais, a fiscalização do Executivo e a relação entre o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal.
O fortalecimento parlamentar, porém, não significa automaticamente que o governo ficará sem condições de governar. A formação de maiorias depende de negociações, interesses regionais, acordos partidários e posicionamentos individuais dos congressistas, especialmente entre legendas que não integram de maneira permanente nem a base governista nem a oposição.
Outro fator importante será a definição das lideranças que conduzirão a direita nos próximos anos. O governador Tarcísio de Freitas aparece entre os nomes capazes de ampliar alianças para além do eleitorado bolsonarista, enquanto Michelle Bolsonaro, agora eleita para o Senado, poderá assumir um papel ainda mais relevante na articulação política nacional.
Já Flávio Bolsonaro, mesmo derrotado, encerra a eleição com uma votação expressiva e permanece entre os principais representantes do movimento associado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
A disputa sobre o comando da direita, portanto, deverá envolver tanto a preservação da identidade bolsonarista quanto a possibilidade de construção de alianças mais amplas para enfrentar o PT em 2030.
A posição defendida por Abílio Brunini é de que o bolsonarismo continua ocupando um espaço central nesse processo. Para ele, os resultados das eleições legislativas, a conquista de governos estaduais e a votação obtida em Mato Grosso afastam qualquer conclusão de que o movimento tenha perdido sua capacidade de influência política.
Embora tenha reconhecido a derrota presidencial e defendido, logo após o segundo turno, que o resultado das urnas não fosse contestado, o prefeito deixa claro que não considera encerrado o ciclo político da família Bolsonaro.
Ao contrário, suas declarações indicam que a estratégia dos aliados deverá passar pela consolidação das bancadas parlamentares, pelo fortalecimento das administrações estaduais e municipais e pela manutenção da mobilização de eleitores conservadores.
Em Mato Grosso, onde Flávio Bolsonaro recebeu praticamente dois de cada três votos válidos, Abílio enxerga uma base política capaz de sustentar esse projeto nos próximos anos.
A mensagem do prefeito é que a derrota de Flávio Bolsonaro na eleição presidencial não representa, em sua avaliação, o fim do bolsonarismo. Para Abílio, o movimento continua politicamente relevante, possui representação expressiva no Congresso e encontra em Mato Grosso um de seus territórios mais favoráveis.
Resta saber se essa força eleitoral e parlamentar será suficiente para manter a unidade da direita, influenciar os rumos do novo governo Lula e construir uma candidatura competitiva à Presidência da República em 2030.
Veja