PREVISÕES AMBIENTAL E ECONÓMICA

Abilio anuncia contenção de despesas em Cuiabá, alerta prefeitos para crise e cortes nos repasses federais e prevê 2027 difícil sob novo governo Lula

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Abilio anuncia contenção de despesas em Cuiabá, alerta prefeitos para crise e cortes nos repasses federais e prevê 2027 difícil sob novo governo Lula

JBNews

Por José Teixeira

Prefeito questiona prorrogação inédita da votação, analisa comportamento do eleitorado e alerta para queda de repasses federais, avanço das despesas públicas e efeitos do El Niño. Segundo Brunini, Cuiabá já enfrenta uma frustração de receita de R$ 100 milhões e precisará adotar medidas preventivas para evitar desequilíbrio financeiro.

JB NEWS | POLÍTICA E ECONOMIA | 28 DE OUTUBRO DE 2026

O prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini (PL), fez duras críticas à decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a prorrogação do horário de votação no segundo turno das eleições presidenciais de 2026. Ao analisar a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o gestor também demonstrou preocupação com os rumos da economia brasileira e anunciou que a Prefeitura de Cuiabá adotará medidas de contenção de despesas para enfrentar o que considera um cenário de dificuldades financeiras em 2027.

Em entrevista, Brunini relacionou o resultado eleitoral, as dificuldades fiscais do governo federal, os riscos climáticos e a dependência financeira dos municípios às transferências da União. Segundo ele, a combinação desses fatores exige cautela dos prefeitos, principalmente diante do crescimento das despesas permanentes, como salários, encargos e reajustes do funcionalismo público.

A declaração de maior impacto administrativo foi a confirmação de que Cuiabá deverá passar por ajustes nas despesas municipais. O prefeito afirmou que a gestão já registra perdas em relação às receitas federais previstas e que não pretende assumir compromissos financeiros para 2027 sem considerar o risco de novos desequilíbrios.

“Vou tomar medidas aqui no município de Cuiabá de contenção, porque a gente não pode confiar que em 2027 a gente tenha um repasse adequado para poder cuidar do nosso município”, declarou.

A preocupação ocorre poucos dias depois da vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro (PL), em uma disputa marcada pela polarização política, pela mudança no comportamento de parte do eleitorado entre os dois turnos e por questionamentos sobre a decisão judicial que alterou o horário de encerramento da votação.

No primeiro turno, Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.268 votos, equivalentes a 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula conquistou 53.876.617 votos, ou 45,16%. O candidato do PL iniciou a segunda etapa da disputa com vantagem superior a 2,2 milhões de votos.

Entretanto, no segundo turno, realizado em 25 de outubro, o cenário foi revertido. Lula conquistou 64.256.232 votos, correspondentes a 51,79% dos votos válidos, contra 59.826.041 votos de Flávio Bolsonaro, que alcançou 48,21%.

Os números oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que Lula ampliou sua votação em aproximadamente 10,38 milhões de votos entre os dois turnos, enquanto Flávio Bolsonaro registrou crescimento de 3,72 milhões. A diferença final foi de 4.430.191 votos em favor do petista.

A mudança revela a capacidade de Lula de atrair eleitores que haviam escolhido outros candidatos no primeiro turno, além dos efeitos da mobilização eleitoral e da redução da abstenção. Os dados agregados, contudo, não permitem identificar individualmente como cada eleitor mudou seu voto.

O comparecimento também cresceu. Segundo o TSE, a abstenção caiu de 21,08% no primeiro turno para aproximadamente 19,2% no segundo, indicando maior participação popular na etapa decisiva da eleição.

Apesar de reconhecer o encerramento da disputa, Abílio considera que a decisão judicial tomada no dia da votação provocou insegurança no processo eleitoral.

A controvérsia começou após reclamações relacionadas a dificuldades de deslocamento de eleitores, especialmente em municípios onde foram relatados problemas na oferta de transporte coletivo. A coligação de Lula acionou o Supremo, enquanto a candidatura adversária também apresentou relatos de dificuldades de transporte.

O ministro Cristiano Zanin autorizou a extensão da votação até as 19 horas, pelo horário de Brasília. A determinação, entretanto, foi proferida quando o encerramento das seções eleitorais já havia começado.

A medida acabou sendo aplicada apenas às seções cujas urnas permaneciam abertas às 17 horas, sem possibilidade de reabrir equipamentos que já tinham sido encerrados.

Para o prefeito de Cuiabá, essa situação comprometeu a previsibilidade do processo eleitoral.

“Já tinha dado cinco horas da tarde. Às cinco e um, o Zanin vai lá e toma uma decisão com as urnas já teoricamente fechadas. Essa inovação jurídica prejudica a segurança do eleitor no processo eleitoral”, criticou Brunini.

O prefeito defendeu que eventuais dificuldades de deslocamento deveriam ter sido resolvidas de maneira localizada, com ampliação do horário apenas nos municípios efetivamente afetados.

Na avaliação dele, uma medida de alcance nacional, anunciada no momento do encerramento da votação, criou dificuldades operacionais e questionamentos sobre a igualdade de condições entre os eleitores.

A preocupação com a falta de planejamento também apareceu nas declarações do próprio presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques. Em balanço oficial, ele reconheceu que a prorrogação exigiu adaptações nos sistemas de apuração, nas rotinas da Justiça Eleitoral e nos procedimentos de segurança dos servidores e mesários.

Nunes Marques informou ainda que não havia norma específica autorizando aquele tipo de prorrogação, considerada inédita no tribunal.

Apesar da controvérsia, o levantamento oficial divulgado pelo TSE em 27 de outubro aponta que 34.393 votos foram registrados depois das 17 horas. Desse total, 32.399 ocorreram entre 17h e 18h, período que inclui eleitores que já poderiam estar aguardando nas filas, situação normalmente permitida pelas regras eleitorais.

O número total de votos registrados depois das 17 horas representa aproximadamente 0,03% dos votos válidos do segundo turno. O levantamento não permite atribuir todos esses votos à decisão de Zanin, tampouco identificar os candidatos escolhidos, em razão do sigilo do voto.

Mesmo considerando todos os registros posteriores às 17 horas, a quantidade é muito inferior à vantagem de 4,43 milhões de votos obtida por Lula. Portanto, os dados disponíveis não demonstram que a prorrogação tenha alterado o vencedor da eleição.

Ao comentar o episódio, Brunini comparou a situação a uma partida de futebol encerrada após um gol irregular. Na visão do prefeito, mesmo diante de uma decisão contestável, o resultado acaba permanecendo e a disputa política segue seu curso.

A análise do prefeito também alcançou o desempenho eleitoral do deputado federal André Janones, aliado de Lula e conhecido por sua atuação nas redes sociais.

Questionado sobre a possibilidade de Janones ter contribuído decisivamente para a virada petista, especialmente nos embates digitais com o deputado Nikolas Ferreira, Brunini minimizou a influência política do parlamentar.

Para ele, a projeção de Janones nas redes sociais não se traduz necessariamente em credibilidade eleitoral duradoura.

O prefeito também fez uma previsão sobre o futuro político do deputado, afirmando acreditar que ele poderá se afastar de Lula caso a situação econômica do país se deteriore.

“Daqui a pouco o Janones […] vai começar a bater no Lula, falar que não foi para isso que ele ajudou Lula a se eleger e tentar se projetar como um adversário político”, afirmou.

A declaração representa uma avaliação política de Brunini. Não há, no material apresentado, manifestação de Janones que confirme a intenção de romper com o presidente.

Entretanto, o ponto central da entrevista foi o alerta sobre os desafios econômicos que, segundo o prefeito, poderão comprometer a capacidade de investimento das administrações municipais a partir de 2027.

Brunini considera que o Brasil enfrentará um período de dificuldades provocado pela combinação de pressões orçamentárias, despesas públicas elevadas, possíveis limitações de transferências federais e fenômenos climáticos extremos.

“2027 promete ser um ano economicamente muito difícil. Muito difícil”, advertiu.

O prefeito chamou atenção especialmente para os efeitos do El Niño, fenômeno climático associado ao aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial e capaz de provocar alterações importantes no regime de chuvas em diferentes regiões do Brasil.

A preocupação encontra respaldo em estudos oficiais. O quarto boletim do Painel El Niño 2026–2027, publicado em outubro pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) em conjunto com outros órgãos federais, apontou probabilidade de 95% de ocorrência de um evento muito forte no trimestre de outubro a dezembro de 2026.

As projeções indicam que o fenômeno poderá persistir pelo menos até o primeiro trimestre de 2027, ampliando riscos associados à seca, às temperaturas elevadas e aos incêndios florestais no centro-norte do Brasil.

No Sul, o principal risco envolve chuvas acima da média e possíveis enchentes.

Para Mato Grosso, estado cuja economia depende fortemente da agropecuária, alterações no regime de chuvas podem representar dificuldades para a produção agrícola, a pecuária, o transporte e a arrecadação tributária.

A intensidade exata dos efeitos ao longo de 2027, porém, ainda depende da evolução das condições climáticas. As previsões oficiais não permitem afirmar antecipadamente que as queimadas ou as perdas econômicas serão necessariamente maiores do que as registradas em 2026.

Brunini acredita que a pressão climática, somada ao cenário fiscal brasileiro, poderá reduzir a atividade econômica e comprometer a capacidade de arrecadação dos municípios.

O prefeito também recomendou cautela aos cidadãos interessados em realizar investimentos, defendendo a redução da exposição a riscos financeiros diante das incertezas previstas.

No campo administrativo, sua maior preocupação é com o cumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).

A legislação estabelece limites para despesas com pessoal, endividamento e gestão das contas públicas. No caso do Poder Executivo municipal, o gasto com pessoal pode alcançar no máximo 54% da Receita Corrente Líquida, com limite prudencial de 51,3% e limite de alerta de 48,6%.

O problema, segundo Brunini, é que muitos prefeitos planejam aumentos de despesas com base em expectativas de crescimento da arrecadação que podem não se concretizar.

Se a receita prevista não entrar nos cofres públicos, o município poderá enfrentar dificuldades para pagar salários, fornecedores, contratos e outras obrigações.

“A maioria dos municípios, confiando numa melhoria de repasse ou num crescimento econômico, às vezes faz uma projeção de gastos com folha maior. E pode não dar certo, pode ter uma frustração de receita”, alertou.

Brunini citou experiências anteriores de dificuldades financeiras enfrentadas por prefeitos durante governos de Lula e afirmou enxergar risco de novos problemas com as transferências federais no próximo mandato presidencial.

É importante observar que repasses constitucionais, como os do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), seguem critérios legais e dependem de fatores como a arrecadação de impostos federais e os coeficientes de distribuição. Por isso, não é possível concluir que a reeleição de Lula, isoladamente, provocará uma redução automática dos valores destinados às prefeituras.

Mesmo assim, oscilações na arrecadação federal e alterações na execução de transferências podem afetar o planejamento financeiro municipal.

Em Cuiabá, o prefeito apresentou números que, segundo ele, demonstram a necessidade de maior rigor na administração das despesas públicas.

Brunini afirmou que o município registra crescimento de aproximadamente 18% ao ano na receita própria, mas enfrenta uma frustração de R$ 100 milhões em relação aos recursos federais esperados para 2026.

Na avaliação do prefeito, esse desequilíbrio compromete parte do ganho obtido com o fortalecimento da arrecadação municipal e reduz a margem disponível para novos investimentos.

Os R$ 100 milhões mencionados por Brunini representam uma estimativa apresentada pelo próprio gestor na entrevista. Para confirmar contabilmente o valor e identificar quais receitas deixaram de ingressar, seria necessário confrontar a previsão orçamentária municipal com os demonstrativos de execução de receitas e transferências efetivamente realizadas.

A pressão sobre o orçamento também envolve a folha salarial.

Em maio de 2026, a Prefeitura de Cuiabá anunciou a concessão de Reajuste Geral Anual (RGA) de 4,11% aos servidores municipais em geral e de 3,51% aos profissionais da educação.

Segundo a administração municipal, a medida representou impacto financeiro estimado em R$ 88 milhões na folha de pagamento.

O prefeito avalia que a combinação de reajustes salariais, crescimento das despesas obrigatórias e eventual redução de receitas pode comprometer o equilíbrio financeiro do município.

“Se a gente fizer a mesma projeção de despesa, de aumento de despesa com folha, e o governo federal não cumprir a sua participação, vai acabar acontecendo uma frustração de receita e o município entrar em endividamento”, declarou.

A preocupação também se estende ao orçamento da União.

Durante a entrevista, Brunini afirmou que aproximadamente 97% do orçamento federal estaria comprometido com despesas permanentes, restando apenas 3% para investimentos.

Os números oficiais do Projeto de Lei Orçamentária Anual de 2027, entretanto, utilizam outro indicador. Segundo o Ministério do Planejamento e Orçamento, as despesas obrigatórias representam 91,7% das despesas primárias previstas para 2027, contra 92,4% em 2026.

Embora o percentual seja diferente do mencionado pelo prefeito, os dados evidenciam que grande parte do orçamento primário federal permanece vinculada a obrigações legais, reduzindo a flexibilidade para determinadas escolhas de gastos públicos.

Também é necessário distinguir despesas discricionárias de investimentos, pois nem todos os recursos que não são obrigatórios se destinam a obras ou à ampliação da infraestrutura.

Para Brunini, a rigidez orçamentária é um dos principais desafios da administração pública brasileira e poderá afetar especialmente os municípios mais dependentes de recursos federais.

Na avaliação do prefeito, cidades que apresentam menor capacidade de arrecadação própria poderão enfrentar dificuldades adicionais caso haja desaceleração econômica ou frustração de transferências previstas.

Em Mato Grosso, ele recomenda que os gestores revisem suas projeções financeiras e evitem assumir compromissos permanentes sem garantia de receitas

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