JB News
Por José Teixeira
Bolsa dispara 4,71% na última semana antes da votação, dólar permanece acima de R$ 5,20 e investidores aguardam resultado da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro; em Mato Grosso, câmbio, juros, crédito e agronegócio ampliam os efeitos da decisão nacional
O Brasil chega às urnas neste domingo (4) para escolher seu próximo presidente, governadores, senadores e deputados depois de uma semana em que a disputa política atravessou definitivamente as portas do mercado financeiro. Se milhões de brasileiros fazem sua escolha nas urnas, investidores passaram os últimos pregões ajustando posições diante das pesquisas eleitorais e tentando antecipar o cenário econômico que poderá surgir a partir de 2027.
A fotografia deixada pelo último pregão antes da votação é expressiva. O Ibovespa encerrou sexta-feira (2) aos 192.114 pontos, depois de subir 2,63% apenas naquele dia. No acumulado da semana, o principal índice da Bolsa brasileira avançou 4,71%.
Foi um movimento forte para uma semana marcada por elevada incerteza política.
O dólar, entretanto, apresentou comportamento mais cauteloso. A moeda norte-americana terminou sexta-feira próxima de R$ 5,22 e, apesar da pequena queda de 0,13% no último pregão, acumulou valorização de aproximadamente 0,65% na semana.
Os dois movimentos ajudam a explicar o comportamento dos investidores às vésperas da eleição. Enquanto parte do mercado aumentou posições em ações brasileiras, outra parcela continuou utilizando o dólar como proteção diante da possibilidade de resultados diferentes daqueles antecipados pelas pesquisas.
A disputa presidencial tornou-se uma das principais variáveis incorporadas aos preços dos ativos brasileiros.
Na última pesquisa Datafolha divulgada antes da eleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apareceu com 45% dos votos válidos no primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) registrou 40%. Considerando todos os votos pesquisados, Lula tinha 42% e Flávio, 38%.
O levantamento também mostrou uma disputa apertada para um eventual segundo turno. Nesse cenário, Lula apareceu com 48% e Flávio Bolsonaro com 45%, diferença dentro da margem de erro.
O equilíbrio aumentou a sensibilidade do mercado a praticamente cada pesquisa divulgada durante a reta final.
Parte dos investidores passou a apostar na possibilidade de crescimento eleitoral de Flávio Bolsonaro. Essa percepção contribuiu para o movimento observado principalmente nas ações de empresas estatais e setores mais sensíveis às expectativas sobre política fiscal, privatizações, concessões e intervenção governamental.
Isso, porém, não significa que os mais de 192 mil pontos alcançados pelo Ibovespa representem uma previsão segura sobre o resultado eleitoral.
A movimentação também foi favorecida pelo cenário internacional. Dados mais fracos do mercado de trabalho dos Estados Unidos reduziram a pressão sobre os juros norte-americanos e aumentaram o apetite por ativos de países emergentes. Na sexta-feira, foram informadas apenas 29 mil novas vagas de trabalho nos Estados Unidos em setembro, abaixo das aproximadamente 90 mil esperadas pelo mercado.
O resultado enfraqueceu o dólar internacionalmente e contribuiu para a entrada de recursos em mercados considerados de maior risco.
Por isso, a forte valorização da Bolsa brasileira na reta final precisa ser observada dentro de um conjunto de fatores, e não exclusivamente pelo processo eleitoral.
Enquanto a Bolsa acelerou, os últimos números da economia brasileira deixaram um sinal de cautela para quem assumir o país em janeiro.
A produção industrial brasileira caiu 0,6% em agosto na comparação com julho. O resultado eliminou a pequena alta de 0,1% registrada no mês anterior.
Nos últimos quatro meses disponíveis, a indústria acumulou retração de 3,1%, reduzindo parte do crescimento observado no primeiro quadrimestre.
Também permanece no radar a situação fiscal brasileira.
O Governo Central registrou déficit primário de R$ 13,6 bilhões em agosto. No mesmo mês de 2025, o resultado negativo havia sido de R$ 15,5 bilhões.
A trajetória da dívida e das despesas públicas tornou-se um dos pontos centrais acompanhados pelo mercado porque interfere diretamente nas expectativas para inflação, juros e câmbio.
Isso significa que, independentemente do vencedor, o próximo governo encontrará pressão para demonstrar como pretende administrar as contas públicas sem interromper investimentos e políticas governamentais.
É justamente nesse ponto que a política encontra a economia.
Um governo percebido como fiscalmente mais previsível tende a reduzir o prêmio de risco exigido pelos investidores. O movimento pode contribuir para juros futuros menores, valorização de ativos e melhora das condições de financiamento.
O caminho inverso também existe.
Caso investidores identifiquem risco de aumento descontrolado de despesas, deterioração fiscal ou crescimento acelerado da dívida, a reação pode aparecer rapidamente no dólar, nos juros futuros e na Bolsa.
Por isso, a primeira abertura do mercado depois das urnas será acompanhada de perto.
A atenção não estará concentrada exclusivamente no nome que terminar domingo à frente da corrida presidencial.
A composição da Câmara dos Deputados e, principalmente, do Senado será outra informação fundamental para definir a percepção dos investidores.
O presidente eleito dependerá do Congresso para aprovar mudanças tributárias, alterações fiscais, orçamento, projetos envolvendo empresas públicas, concessões, investimentos e eventuais reformas econômicas.
Um Congresso fragmentado pode aumentar o custo político de aprovação das medidas econômicas. Uma base parlamentar mais organizada poderá facilitar a execução do programa escolhido nas urnas.
Por isso, investidores devem analisar simultaneamente o resultado presidencial e a nova correlação de forças no Legislativo.
Em Mato Grosso, essa discussão ganha dimensão própria.
A economia estadual possui forte ligação com o mercado internacional por causa da soja, milho, algodão e carne bovina. Isso faz com que alterações do dólar, juros, demanda chinesa e preços internacionais das commodities tenham repercussão praticamente imediata sobre produtores, tradings, transportadoras, frigoríficos e fornecedores.
Somente no primeiro semestre de 2026, Mato Grosso exportou aproximadamente 24,06 milhões de toneladas de soja, volume recorde para o período.
O Estado respondeu por cerca de 34,6% de toda a soja brasileira enviada ao exterior nesses seis meses.
Essa característica cria uma situação diferente daquela enfrentada por economias menos dependentes das exportações.
Um dólar mais valorizado pode aumentar a receita em reais das commodities exportadas. Por outro lado, também encarece fertilizantes, defensivos, máquinas, peças e outros insumos importados ou vinculados à moeda norte-americana.
É exatamente essa equação que produtores mato-grossenses terão de administrar na safra 2026/27.
Estimativas para a próxima temporada apontam custeio da soja ao redor de R$ 4,32 mil por hectare, aproximadamente 3,35% superior ao ciclo anterior. Fertilizantes, corretivos e operações mecanizadas estão entre os componentes que pressionaram os custos.
No algodão, outra cultura estratégica para Mato Grosso, os números também demonstram margens apertadas. O preço médio negociado para a safra 2026/27 até agosto estava em R$ 129,67 por arroba, enquanto o valor calculado para cobrir o custo total da atividade chegava a R$ 147,47 por arroba.
Nesse ambiente, a eleição presidencial deixa de ser uma discussão distante para o produtor rural.
A política econômica escolhida em Brasília influencia juros, crédito rural, câmbio, investimentos em logística, tributação e capacidade de financiamento das próximas safras.
A votação deste domingo também decidirá o comando do Governo de Mato Grosso.
Embora a disputa estadual tenha características próprias, a próxima administração encontrará decisões importantes envolvendo infraestrutura, política de incentivos fiscais, investimentos públicos, concessões rodoviárias, logística e capacidade financeira do Estado.
Mato Grosso chega à eleição depois de anos de forte expansão dos investimentos públicos e privados em infraestrutura e com uma economia diretamente dependente da capacidade de escoar uma produção agropecuária crescente.
Rodovias, ferrovias, armazenagem e energia continuarão sendo pontos decisivos para a competitividade estadual independentemente do resultado eleitoral.
O próximo governo também terá de administrar o equilíbrio entre arrecadação e política de incentivos fiscais, assunto que ganhou espaço inclusive nos debates da campanha estadual.
Quando os negócios forem retomados na segunda-feira, investidores terão finalmente números concretos para substituir semanas de pesquisas e projeções.
Bolsa, dólar e juros futuros serão os primeiros termômetros.
Uma reação positiva poderá indicar que o resultado ficou próximo do cenário que já vinha sendo incorporado aos preços. Uma reação negativa poderá representar correção das apostas realizadas antes das urnas.
Também existe a possibilidade de uma segunda etapa de incerteza.
Caso nenhum candidato à Presidência alcance mais da metade dos votos válidos neste domingo, o Brasil entrará imediatamente em uma nova campanha até o segundo turno, marcado para 25 de outubro.
Nesse cenário, pesquisas eleitorais continuarão influenciando os mercados durante outras três semanas.
O fechamento desta sexta-feira mostrou justamente como essa expectativa já entrou no preço dos ativos.
O Ibovespa chegou à eleição acima dos 192 mil pontos depois de avançar 4,71% em cinco pregões. O dólar permaneceu na faixa dos R$ 5,20. Os juros futuros reagiram às pesquisas, às expectativas fiscais e ao cenário internacional.
Nas urnas, entretanto, começa outra etapa.
A partir deste domingo, a pergunta econômica deixará gradualmente de ser apenas quem vencerá a eleição e passará a ser qual política fiscal, monetária, tributária e de investimentos o vencedor terá condições políticas de executar.
Para Mato Grosso, onde bilhões de dólares em soja, milho, algodão e carne atravessam as fronteiras todos os anos, essa resposta terá efeitos que irão muito além de Brasília.
Ela chegará ao preço da próxima safra, ao crédito do produtor, ao custo do frete, aos investimentos em infraestrutura, à arrecadação estadual e, finalmente, ao bolso de quem vive e produz em Mato Grosso.