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por José Teixeira
OBESIDADE EM ALERTA
Iniciativa do deputado Eduardo Botelho, atendendo a pedido da Associação Mato-grossense de Obesidade, pretende investigar a dimensão da doença nos municípios, identificar falhas no atendimento e propor políticas públicas para prevenção e tratamento em todo o estado.
O avanço da obesidade em Mato Grosso, que já atinge milhares de crianças e adultos e aumenta a incidência de doenças crônicas, levou a Assembleia Legislativa (ALMT) a instalar, nesta quinta-feira (22 de outubro de 2026), a Câmara Setorial Temática (CST) de Atenção à Obesidade. A iniciativa, proposta pelo deputado estadual Eduardo Botelho (União Brasil), atende a uma solicitação da Associação Mato-grossense de Obesidade (AMO) e pretende aprofundar o diagnóstico da doença, discutir os problemas enfrentados pelos pacientes e apresentar soluções para ampliar a prevenção, o tratamento e o acompanhamento médico em todo o estado.
O alerta é sustentado por indicadores preocupantes. Dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), do Ministério da Saúde, apontam que mais de 86 mil crianças de zero a nove anos acompanhadas em Mato Grosso apresentavam excesso de peso em 2025. O número corresponde a aproximadamente 30% das crianças dessa faixa etária avaliadas pelo sistema, evidenciando que o problema não está restrito à população adulta.
A situação revela um desafio que começa ainda na infância e pode se prolongar por décadas. Crianças com excesso de peso apresentam maior risco de desenvolver obesidade na adolescência e na vida adulta, além de alterações metabólicas, problemas cardiovasculares e dificuldades físicas e emocionais.
Outro levantamento, realizado com informações do Sisvan referentes a 2023, identificou excesso de peso em aproximadamente 27,18% das crianças de cinco a nove anos avaliadas em Mato Grosso. O estudo também apontou consumo elevado de alimentos ultraprocessados e baixa ingestão regular de frutas e hortaliças entre as crianças acompanhadas na região Centro-Oeste.
Os percentuais são referentes às populações registradas nos sistemas de acompanhamento nutricional, não representando automaticamente todas as crianças residentes em Mato Grosso. Ainda assim, demonstram a dimensão do problema enfrentado pela rede pública de saúde.
Entre os adultos, a preocupação também é crescente. Um estudo epidemiológico elaborado com dados do Sisvan referentes a 2024 identificou, em Mato Grosso, indicador de obesidade de 704,09 registros por 10 mil habitantes, acima do indicador nacional de 466,07 por 10 mil utilizado na mesma análise. Como se trata de registros de acompanhamento nutricional, os números precisam ser interpretados conforme a metodologia do estudo e não como uma estimativa direta da proporção de todos os moradores do estado que apresentam a doença.
Na capital, dados utilizados pelo Instituto Nacional de Cardiologia apontaram que aproximadamente 65% dos adultos apresentavam excesso de peso em 2023. Em 2006, a proporção era de cerca de 46%. Embora os resultados se refiram especificamente a Cuiabá, ajudam a demonstrar a tendência de crescimento observada no país e reforçam a necessidade de investigações mais abrangentes sobre a realidade dos municípios mato-grossenses.
O cenário nacional também preocupa. Entre 2006 e 2024, a obesidade entre adultos das capitais brasileiras e do Distrito Federal passou de 11,8% para 25,7%, um crescimento relativo de aproximadamente 118%. No mesmo período, o excesso de peso, categoria que inclui sobrepeso e obesidade, aumentou de 42,6% para 62,6%.
A obesidade é considerada uma doença crônica, complexa e multifatorial, associada a fatores genéticos, hormonais, metabólicos, ambientais e socioeconômicos. O consumo frequente de alimentos ultraprocessados, a alimentação inadequada, o sedentarismo, os distúrbios do sono e as dificuldades de acesso a hábitos saudáveis estão entre os elementos que contribuem para seu desenvolvimento.
Em Mato Grosso, as diferenças entre os municípios representam outro desafio. Em determinadas regiões, a dificuldade de acesso a especialistas, nutricionistas, exames e tratamentos pode comprometer o acompanhamento de pacientes que dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS).
O crescimento das cidades, as mudanças nos hábitos alimentares, as longas jornadas de trabalho e a redução da atividade física também integram o conjunto de fatores que precisam ser considerados na formulação de políticas públicas.
As consequências para a saúde podem ser graves. A obesidade aumenta o risco de diabetes tipo 2, hipertensão arterial, infarto, acidente vascular cerebral (AVC), apneia do sono, problemas renais, gordura no fígado e doenças articulares. Também está associada ao desenvolvimento de determinados tipos de câncer.
Além dos efeitos físicos, a doença pode provocar limitações de mobilidade, dificuldades emocionais e situações de discriminação. O preconceito relacionado ao peso pode dificultar a procura por atendimento médico e comprometer a continuidade do tratamento.
Os impactos financeiros também são expressivos. Estudo do Instituto Cordial estimou que o sobrepeso e a obesidade provocam custos anuais entre R$ 41,7 bilhões e R$ 44,6 bilhões no Brasil, considerando despesas médicas, perda de produtividade, aposentadorias precoces e redução da arrecadação tributária. Caso a tendência de crescimento seja mantida, o impacto nacional poderá ultrapassar R$ 60,5 bilhões anuais até 2033.
Esses valores são nacionais e não representam gastos específicos de Mato Grosso. Entretanto, ajudam a dimensionar as consequências econômicas de uma doença que exige acompanhamento prolongado e pode provocar internações, cirurgias, afastamentos do trabalho e tratamento contínuo de outras enfermidades.

Foi diante desse cenário que a Assembleia Legislativa decidiu criar um espaço específico para estudar a obesidade e suas consequências no território mato-grossense.
A instalação da Câmara Setorial ocorreu na Sala de Reuniões das Comissões Deputado Oscar Soares, na sede do Legislativo estadual, em Cuiabá.
O colegiado foi instituído pelo Ato nº 075/2026/SSL/ALMT, assinado em 8 de setembro de 2026, após aprovação do Requerimento nº 532/2026, de autoria de Eduardo Botelho. A Câmara terá prazo inicial de 180 dias, prorrogável por igual período.
O ato estabelece como finalidade estudar, diagnosticar, discutir, acompanhar e propor medidas, políticas públicas, ações legislativas e estratégias de atenção integral às pessoas com obesidade em Mato Grosso.
A Câmara será presidida por Juvelina de Campos Nunes, terá Bruno Lima Barcellos como relator e Silvana Aparecida Gadani de Arruda como secretária. Também integram o colegiado Gunther Peres Pimenta, Regis Vilela Leal, Tarsis Miyabara, Ismael Carvalho, Hélio Marcelo Pesenti Sandrin, Marcus Antônio Godoy, Sônia Cristina Mangoni de Oliveira Lelis e Antero Paes de Barros Neto.
A criação da Câmara não significa a aprovação de uma nova lei sobre obesidade. Trata-se de um instrumento de estudo e discussão da Assembleia Legislativa, destinado a reunir informações, ouvir especialistas e representantes da sociedade, identificar dificuldades e produzir recomendações que poderão subsidiar futuras iniciativas do poder público.
Entre os problemas que poderão ser examinados estão a disponibilidade de atendimento especializado nos municípios, as dificuldades de acesso a endocrinologistas, nutricionistas e psicólogos, as condições de acompanhamento de pacientes com obesidade grave e a organização da rede pública de tratamento.
Outro tema relevante será a necessidade de ampliar o diagnóstico precoce, principalmente entre crianças e adolescentes, para reduzir o risco de desenvolvimento de doenças associadas ao excesso de peso.
A atenção à obesidade também envolve pacientes que necessitam de tratamento medicamentoso e, em situações específicas, cirurgia bariátrica. Esses procedimentos dependem de indicação clínica, avaliação especializada e acompanhamento contínuo.
A Câmara poderá discutir mecanismos para melhorar o acesso aos serviços existentes, identificar eventuais dificuldades nas filas de atendimento e recomendar estratégias para ampliar a assistência, respeitando as competências da Secretaria de Estado de Saúde, dos municípios e do Ministério da Saúde.
O fortalecimento das unidades básicas de saúde representa outra frente possível de discussão. Esses estabelecimentos são fundamentais para identificar alterações de peso, acompanhar pacientes com doenças crônicas, orientar famílias e encaminhar os casos que necessitam de atendimento especializado.
A participação das escolas também poderá ganhar importância no debate, especialmente porque os indicadores mostram que o excesso de peso já atinge uma parcela significativa das crianças acompanhadas em Mato Grosso.
A promoção da alimentação saudável, a valorização de alimentos naturais, a educação nutricional e o incentivo à prática de atividade física estão entre as medidas reconhecidas como importantes para a prevenção da obesidade.
Ao mesmo tempo, especialistas ressaltam que a prevenção não deve ser baseada apenas em recomendações individuais. É necessário considerar as condições econômicas das famílias, o acesso aos alimentos, a infraestrutura urbana e a disponibilidade de serviços de saúde.
Em municípios mais distantes dos grandes centros, o encaminhamento para atendimento especializado pode exigir deslocamentos e despesas adicionais, fatores que precisam ser considerados na organização da assistência estadual.
A atuação da Câmara Setorial poderá contribuir para mapear essas diferenças e produzir um diagnóstico mais preciso da capacidade de atendimento em Mato Grosso.
Outro ponto importante será identificar o número de pacientes acompanhados na rede pública, a distribuição dos casos por faixa etária e município e as principais dificuldades relatadas pelos profissionais de saúde.
O levantamento de dados estaduais mais completos é necessário porque pesquisas nacionais realizadas apenas nas capitais não permitem conhecer integralmente a situação dos municípios do interior.
O desafio será transformar essas informações em recomendações capazes de orientar políticas públicas permanentes, com atenção tanto à prevenção quanto ao tratamento das pessoas que já convivem com a doença.
A iniciativa de Eduardo Botelho, apresentada a partir da demanda da Associação Mato-grossense de Obesidade, amplia o espaço institucional para que pacientes, profissionais e representantes da sociedade participem da construção dessas propostas.
O trabalho também poderá contribuir para futuras discussões legislativas, caso sejam identificadas necessidades de atualização das normas estaduais ou de criação de instrumentos de apoio à rede de atendimento.
Entretanto, qualquer proposta dependerá de análise jurídica, planejamento administrativo, avaliação financeira e tramitação própria, quando necessária.
Com mais de 86 mil crianças de zero a nove anos identificadas com excesso de peso entre as acompanhadas pelo Sisvan em 2025 e indicadores crescentes de obesidade na população adulta, Mato Grosso enfrenta um problema que exige atenção de longo prazo.
A instalação da Câmara Setorial marca o início de uma etapa de diagnóstico e discussão no Legislativo estadual, com a perspectiva de reunir informações que ajudem a dimensionar a doença nos municípios e identificar caminhos para melhorar o atendimento.
O resultado efetivo da iniciativa dependerá da qualidade dos estudos produzidos, da participação dos profissionais e pacientes e da capacidade de transformar recomendações em medidas concretas.
Mais do que discutir números, a Câmara terá diante de si a responsabilidade de examinar uma realidade que envolve a saúde de crianças, adolescentes, adultos e idosos, com reflexos sobre a qualidade de vida, os gastos públicos e o futuro de milhares de famílias mato-grossenses.