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Por Nayara Cristina
Deisi revela postos de saúde com infiltrações, rachaduras e risco a pacientes em Cuiabá e responde denúncias de falta de médicos
Secretária admite problemas estruturais em unidades da capital, anuncia entregas para novembro, esclarece fechamento da USF Lixeira após queda de árvore e rebate reclamações sobre ausência de profissionais e demora nas consultas.
A secretária municipal de Saúde de Cuiabá, Deisi Bocalon, revelou nesta sexta-feira (23 de outubro de 2026) que unidades básicas de saúde da capital apresentavam problemas estruturais graves, incluindo infiltrações, rachaduras, pisos se soltando e mobiliário inadequado. Durante a inauguração da Unidade de Saúde da Família (USF) Doutor Fábio, na região Leste, a gestora também anunciou novas entregas para novembro, explicou a situação de obras paralisadas há mais de uma década e respondeu a reclamações sobre falta de médicos, dificuldades para conseguir consultas ginecológicas e atendimento odontológico nos bairros.
A entrevista expôs a dimensão dos desafios enfrentados pela administração do prefeito Abilio Brunini (PL) na recuperação da rede municipal de saúde, que reúne dezenas de unidades e atende diariamente milhares de moradores dependentes do Sistema Único de Saúde (SUS).
A USF Doutor Fábio, localizada na Rua Sapezal, atende uma região com população estimada em aproximadamente 16 mil pessoas. A unidade voltou a funcionar na segunda-feira (19), após intervenções iniciadas em agosto, e foi oficialmente inaugurada nesta sexta-feira.
Segundo Deisi, a situação encontrada antes da revitalização representava risco para pacientes e servidores. Durante uma visita da primeira-dama Samantha Iris, foram identificados problemas no piso, que estava se soltando e poderia provocar quedas.
“São unidades que estavam há muitos anos sem nenhum tipo de cuidado. Quando a primeira-dama veio visitar, o piso estava todo soltando e correndo risco, inclusive, de os pacientes caírem, se machucarem”, relatou.
A secretária afirmou que a unidade também apresentava infiltrações, rachaduras e móveis sem condições adequadas para o trabalho dos profissionais.
“Era uma unidade que tinha chuva dentro, tinha rachadura, piso soltando, nenhum móvel adequado já para o exercício da função”, descreveu.
A recuperação foi realizada em aproximadamente três meses, segundo a gestora, e incluiu reparos estruturais, substituição de mobiliário e reorganização de ambientes utilizados no atendimento à população.
Deisi explicou que, por determinação do prefeito, a Secretaria Municipal de Saúde iniciou um levantamento das condições físicas das unidades básicas, com visitas presenciais e participação das equipes responsáveis pelas obras.
O objetivo é identificar os problemas de cada imóvel, elaborar projetos, calcular custos e buscar os recursos necessários para executar as intervenções.
“Foi uma determinação do prefeito que a gente tivesse esse olhar para a manutenção de todas as unidades básicas de saúde. Por isso estamos fazendo visitas em todas as unidades, junto com a equipe de obras, levantamento de todas as necessidades, planejamento e orçamento”, afirmou.
A secretária explicou que parte das intervenções está sendo financiada com recursos próprios do município e emendas parlamentares, inclusive recursos destinados por Abilio Brunini durante seu mandato como deputado federal.
Entretanto, reconheceu que ainda existem unidades aguardando disponibilidade financeira para receber melhorias.
“Já tem várias em andamento, mas ainda existem outras que precisam de recursos para dar continuidade a esse serviço”, declarou.
A recuperação da infraestrutura da saúde municipal não se resume à pintura de paredes ou à troca de móveis. Em determinadas unidades, a situação envolve infiltrações, instalações deterioradas e estruturas que precisam de avaliação técnica para garantir segurança e condições adequadas de funcionamento.
Uma das situações mais delicadas mencionadas na entrevista é a da USF Lixeira/Baú, que teve suas atividades interrompidas no imóvel original após a queda de uma árvore durante uma tempestade, em 17 de setembro de 2026.
Na ocasião, uma enfermeira foi atingida e precisou receber atendimento médico. A servidora foi encaminhada para avaliação hospitalar, e a unidade acabou interditada por questões de segurança.
Deisi informou que os profissionais foram transferidos temporariamente para o centro comunitário do bairro, onde os atendimentos continuam sendo realizados enquanto a Prefeitura prepara a recuperação do prédio.
A secretária também reconheceu que moradores ainda enfrentam dificuldades para identificar o local provisório de atendimento.
Questionada sobre relatos de pacientes que procuravam a unidade original sem saber para onde os serviços haviam sido transferidos, a gestora afirmou que a Secretaria de Saúde deverá melhorar a comunicação visual e instalar sinalização para orientar a população.
“É no centro comunitário. Acho que é bom a gente fazer uma faixa, colocar lá na unidade. A gente vai colocar, vai melhorar essa comunicação com a população”, afirmou.
A reforma da USF Lixeira já está sendo planejada, com levantamento das necessidades estruturais e preparação das informações que serão encaminhadas à empresa responsável pela execução dos serviços.
Deisi garantiu que a unidade será revitalizada, mas não apresentou uma data definitiva para a conclusão das intervenções e o retorno dos atendimentos ao prédio original.
A queda da árvore também levou a administração municipal a ampliar a preocupação com a arborização existente nas proximidades de outras unidades de saúde.
A secretária informou que conversou com a responsável pela área municipal competente, identificada como Lizy, para solicitar avaliação técnica em imóveis onde árvores próximas às construções possam representar riscos.
Segundo ela, uma equipe especializada deverá verificar as condições desses locais e apontar as providências necessárias para prevenir novos incidentes.
A análise poderá envolver avaliação das árvores e identificação de eventuais riscos às edificações, mas qualquer intervenção dependerá de critérios técnicos e das autorizações cabíveis.
Além das unidades que necessitam de manutenção, a Prefeitura enfrenta dificuldades para retomar obras antigas que ficaram inacabadas.
Durante a entrevista, Deisi citou uma obra de unidade de saúde na região do Doutor Fábio, paralisada desde 2014, como exemplo dos entraves burocráticos e financeiros que precisam ser superados.
Segundo a secretária, o empreendimento foi iniciado com recursos federais e acumulou pendências que chegaram a representar risco de devolução dos valores recebidos.
A gestora explicou que a Prefeitura realizou procedimentos administrativos junto ao Ministério da Saúde para tentar viabilizar a retomada.
“Houve uma abertura da possibilidade de retomada dessas obras. A gente fez toda a parte burocrática junto ao Ministério da Saúde. Estamos agora pleiteando os recursos para iniciar a retomada”, declarou.
A situação é semelhante à relatada pelo prefeito Abilio Brunini durante a mesma solenidade, quando afirmou que obras iniciadas em 2014 enfrentam dificuldades porque os valores originalmente previstos já não correspondem aos custos atuais da construção civil.
O prefeito mencionou especificamente a unidade Doutor Fábio II e o Real Parque, empreendimentos que permanecem pendentes de conclusão.
A retomada dessas construções depende de análises técnicas, adequação dos projetos e definição dos recursos necessários. Ainda não foi divulgado cronograma definitivo para conclusão das duas obras.
Apesar das dificuldades, a secretária apresentou um conjunto de intervenções em andamento e anunciou novas entregas previstas para as próximas semanas.
Uma das principais é o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS III) Verdão, cuja entrega está prevista para novembro de 2026.
O empreendimento recebe aproximadamente R$ 4 milhões em investimentos, incluindo execução da obra e estruturação dos serviços, e deverá ampliar o atendimento especializado em saúde mental na capital.
A unidade terá funcionamento 24 horas, inclusive aos finais de semana e feriados, com possibilidade de acolhimento noturno para pacientes que necessitem de cuidados intensivos.
A estrutura foi planejada para realizar aproximadamente 2.400 atendimentos mensais, fortalecendo a assistência a pessoas com transtornos mentais e outras condições que exigem acompanhamento contínuo.
O projeto representa uma ampliação dos serviços atualmente prestados pela rede municipal de atenção psicossocial, permitindo que determinados pacientes recebam acompanhamento intensivo em ambiente comunitário.
Outra entrega prevista para novembro envolve intervenções nas unidades Pedra 90 III e IV, também mencionadas pela secretária durante a entrevista.
Deisi informou que as obras estão em andamento e que a expectativa é disponibilizar as estruturas à população no próximo mês, embora não tenha indicado uma data exata para as inaugurações.
A gestora também falou sobre a intervenção na unidade do Planalto, cujos serviços já foram iniciados, e sobre outra unidade com previsão de entrega na próxima semana, sem identificação suficientemente clara na gravação.
No Coxipó, a Prefeitura mantém obras relacionadas à ampliação da rede de atendimento especializado, incluindo a estruturação de serviços de reabilitação.
Deisi mencionou a previsão de implantação de um centro de reabilitação craniofacial e de outra estrutura de reabilitação, com prazo estimado de dez meses para execução das obras em andamento.
A secretária avaliou positivamente o desempenho da empresa responsável por uma dessas intervenções e afirmou que o andamento pode ser verificado no próprio local.
O Centro de Especialidades Médicas do Coxipó também integra o planejamento de investimentos da Prefeitura. Em setembro, a administração havia anunciado que os projetos do CAPS III Verdão e do centro especializado do Coxipó somavam mais de R$ 11 milhões em investimentos previstos para obras e equipamentos.
Além das intervenções estruturais, Deisi foi questionada sobre denúncias relacionadas à disponibilidade de médicos na rede pública.
Uma das reclamações envolveu uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), onde uma paciente divulgou vídeo mostrando consultórios vazios e relatando a suposta ausência de profissionais.
A secretária contestou a interpretação de que a unidade estivesse sem médicos e afirmou que, embora tenha ocorrido a ausência de um servidor escalado, havia outros profissionais realizando atendimentos.
“Teve ausência de um profissional que faltou, mas nós tínhamos quatro clínicos e dois pediatras, então não estava com falta”, declarou.
Segundo Deisi, a existência de consultórios sem atendimento simultâneo não significa necessariamente que a unidade esteja desassistida, porque o número de salas pode ser superior à quantidade de profissionais em atividade naquele momento.
“Se ela for nas unidades em que o consultório não está em atendimento, vai ver consultório vazio mesmo. Mas tinha sim quatro profissionais em atendimento”, afirmou.
A secretária disse que os registros eletrônicos permitem comprovar a presença e a produção dos profissionais e que a paciente responsável pela reclamação teria recebido atendimento em menos de uma hora.
“Tanto que, em menos de uma hora, ela saiu e fez o próprio vídeo falando que já tinha recebido o atendimento e já estava a caminho da sua casa”, acrescentou.
A explicação representa a versão oficial da Secretaria Municipal de Saúde sobre o episódio. Os registros individuais de atendimento e a escala completa de profissionais não foram apresentados durante a entrevista.
Outro questionamento envolveu uma moradora do bairro Bela Vista que relatou dificuldades para conseguir consulta ginecológica, com agendamento que, segundo a reclamação, estaria sendo direcionado apenas para fevereiro do próximo ano.
A denúncia também mencionava uma profissional que estaria utilizando o telefone celular durante o expediente, em circunstâncias que, segundo a paciente, teriam comprometido a qualidade do atendimento.
Deisi afirmou que é necessário diferenciar consultas com médicos especialistas dos procedimentos básicos que podem ser realizados diretamente nas unidades de saúde da família.
“No Bela Vista, a gente tem que lembrar que ginecologista é uma especialidade médica. Quando fala em especialidade médica, essa especialidade é regulada. Então ela tem um período, sim, que demora”, explicou.
A regulação é o sistema utilizado pelo SUS para organizar o encaminhamento de pacientes aos serviços especializados, considerando disponibilidade de vagas e critérios de prioridade clínica.
A secretária destacou que determinados procedimentos preventivos, como a coleta de material para exame citopatológico do colo do útero, conhecido popularmente como preventivo, podem ser realizados por enfermeiros habilitados na própria atenção primária, conforme os protocolos assistenciais.
“Se o atendimento que ela estava procurando era uma coleta de CCO ou um atendimento básico da área de ginecologia, o próprio enfermeiro da unidade pode realizar esse procedimento”, afirmou.
Entretanto, reconheceu a necessidade de obter mais informações sobre a situação apresentada pela moradora para verificar se houve falha de atendimento ou demora excessiva no encaminhamento.
“Tem que pegar mais detalhes deste caso. Se quiser me passar, eu posso verificar”, declarou.
A demora relatada até fevereiro de 2027 não foi confirmada nem descartada com base em documentos durante a entrevista. Também não foram apresentados dados atualizados sobre a fila municipal de ginecologia, o número de pacientes aguardando consultas ou o tempo médio de espera.
A secretária também foi questionada sobre reclamações relacionadas ao atendimento odontológico no bairro Jardim Vitória.
Na resposta, Deisi abordou de maneira mais ampla a estrutura da rede e as dificuldades de gestão de pessoal, mas não apresentou um cronograma específico para resolver as demandas odontológicas mencionadas na entrevista.
Segundo ela, Cuiabá possui 72 unidades de atenção básica e mais de 150 equipes de saúde, o que exige acompanhamento permanente da atuação dos profissionais e das condições de atendimento.
A gestora reconheceu que, em uma rede de grande dimensão, podem ocorrer problemas pontuais de comportamento profissional e dificuldades no relacionamento com os pacientes.
“São pessoas que a gente convive com bons e maus profissionais em qualquer lugar. Então a gente corre, sim, o risco de ter algum empecilho desse, mas a gente tenta trabalhar pontualmente esses casos”, afirmou.
Deisi ressaltou que a qualidade do atendimento não depende exclusivamente da recuperação dos prédios, mas também da postura dos servidores, da organização dos serviços e do acolhimento oferecido à população.
A declaração reforça uma das discussões levantadas pelo prefeito Abilio Brunini durante a inauguração da USF Doutor Fábio: a necessidade de oferecer atendimento público com condições de infraestrutura e qualidade de assistência comparáveis às de unidades particulares.
A diferença entre a estrutura física e a assistência efetivamente prestada representa um dos principais desafios da administração municipal.
A recuperação de unidades deterioradas melhora as condições de segurança, conforto e trabalho, mas não elimina automaticamente problemas relacionados à disponibilidade de médicos, filas de especialidades, exames, medicamentos e continuidade dos tratamentos.
No caso da USF Lixeira, a Prefeitura ainda precisa concluir o planejamento da reforma, resolver os problemas estruturais e melhorar a orientação aos usuários que procuram atendimento no endereço antigo.
Nas unidades com obras paralisadas desde 2014, os entraves envolvem pendências administrativas, atualização dos custos e obtenção de recursos para a retomada dos projetos.
Já nas reclamações relacionadas às UPAs e consultas especializadas, o desafio está em demonstrar, por meio de escalas, registros de atendimento e indicadores de demanda, se a capacidade disponível é suficiente para atender à população nos prazos necessários.
A entrevista da secretária revelou que a administração trabalha simultaneamente em três frentes: recuperação de prédios deteriorados, conclusão de obras antigas e reorganização dos serviços prestados pela rede municipal.
Embora existam entregas previstas para novembro e intervenções em andamento, permanecem pendências que exigirão investimentos, fiscalização e acompanhamento da execução.
Para os moradores, a principal expectativa é que as reformas sejam acompanhadas por atendimento regular, profissionais disponíveis, redução do tempo de espera e condições adequadas para receber assistência médica e odontológica.
Ao reconhecer problemas estruturais, confirmar a necessidade de novos recursos e responder às denúncias de usuários, Deisi Bocalon expôs os desafios de uma rede que precisa recuperar sua infraestrutura sem interromper os serviços essenciais.
A inauguração da USF Doutor Fábio representa uma etapa desse processo. O resultado mais amplo dependerá da capacidade da Prefeitura de alcançar outras unidades, concluir obras pendentes e garantir que a melhoria dos prédios seja acompanhada por avanços concretos na assistência à população cuiabana.