OPERAÇÃO AD REM

Chácara em Chapada entra na mira por suspeita de lavagem de dinheiro do CV; saiba como polícia rastreou R$ 661 mil e chegou a imóveis da facção

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Chácara em Chapada entra na mira por suspeita de lavagem de dinheiro do CV; saiba como polícia rastreou R$ 661 mil e chegou a imóveis da facção

JBNews

Por José Teixeira

Celulares apreendidos, planilhas financeiras, Pix de R$ 341,8 mil, movimentação bancária incompatível com renda declarada e contratos em nome de terceiros revelaram suspeita de esquema comandado por “Federal do CV”; investigação alcançou cinco imóveis e identificou grupo com 147 integrantes

Uma investigação da Polícia Civil de Mato Grosso revelou indícios de uma estrutura financeira do Comando Vermelho (CV) que, além de controlar a distribuição de drogas e arrecadar dinheiro de pontos de tráfico, teria utilizado contas bancárias de terceiros, familiares e negócios imobiliários para movimentar recursos e ocultar patrimônio. Entre os bens colocados sob sequestro judicial está uma chácara na região do Rio dos Peixes, entre Cuiabá e Chapada dos Guimarães, negociada, segundo documentos da investigação, por aproximadamente R$ 180 mil, com entrada de R$ 100 mil e contrato em nome de outra pessoa.

O avanço das investigações, que começou com a apreensão de celulares e documentos financeiros durante uma ofensiva contra a facção em março de 2026, levou os policiais a identificar aproximadamente R$ 661,7 mil em registros de arrecadação e movimentações relacionadas às atividades investigadas. O rastreamento também encontrou um comprovante de transferência via Pix de R$ 341,8 mil entre contas de terceiros e créditos bancários de R$ 518,4 mil recebidos, em pouco mais de seis meses de 2023, por um investigado que tinha renda mensal cadastrada de R$ 5.222.

As descobertas resultaram na Operação Ad Rem, deflagrada em 19 de outubro de 2026 pela Gerência de Combate ao Crime Organizado e pela Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (GCCO/Draco). A ação foi autorizada pelo juiz Jean Garcia de Freitas Bezerra, da 7ª Vara Criminal de Cuiabá, em decisão de 8 de outubro, que determinou a prisão preventiva de Sebastião da Silva Junior, conhecido como “Federal do CV”, além de seis mandados de busca e apreensão e o sequestro judicial de cinco imóveis.

Sebastião é apontado pelos investigadores como integrante da estrutura financeira do Comando Vermelho em Mato Grosso, com suspeitas de atuação na arrecadação de dinheiro, distribuição de entorpecentes, gerenciamento dos pontos de tráfico e administração de empréstimos com juros elevados.

O ponto de partida das descobertas foi a Operação Ruptura CPX, deflagrada em 31 de março de 2026, quando a Polícia Civil cumpriu ordens judiciais contra integrantes do Comando Vermelho em Cuiabá, Várzea Grande e São Paulo. Naquela ocasião, foram expedidos 13 mandados de prisão preventiva e sete de busca e apreensão.

A primeira fase revelou uma organização hierarquizada, com suspeitas de participação em tráfico de drogas, roubos de veículos, furtos de defensivos agrícolas, lavagem de dinheiro e domínio territorial. Uma das áreas investigadas foi o Residencial Isabel Campos, na região da rodovia Mário Andreazza, em Várzea Grande, que teria sido ocupado por integrantes da organização e passado a ser chamado de “Complexo”.

A partir dos celulares apreendidos durante a operação, os investigadores conseguiram aprofundar a análise de mensagens, comprovantes de transferências e planilhas financeiras. Os documentos permitiram reconstruir parte das suspeitas sobre o funcionamento administrativo da facção e identificar pessoas que exerciam funções de controle e arrecadação.

Entre os materiais analisados estava um grupo de mensagens denominado “Central MT”, com 147 participantes, muitos deles suspeitos de manter vínculos com o Comando Vermelho. Conforme os relatórios, Sebastião da Silva Junior aparecia entre os integrantes mais ativos.

Os investigadores também identificaram indícios de que ele compartilhava orientações relacionadas ao estatuto da organização e recebia informações sobre a movimentação financeira dos pontos de venda de drogas, conhecidos no meio criminoso como “quebradas”.

Em outra conversa, mantida com um contato identificado como “Cris Tigrinho Nome”, apareciam registros financeiros que ajudaram os policiais a compreender a dimensão da arrecadação investigada.

As prestações de contas relativas a diferentes regiões somaram aproximadamente R$ 475,8 mil em março de 2026. Outros R$ 185,9 mil estavam associados a expressões como “madeira” e “feijão”, interpretadas pelos investigadores como possíveis referências à comercialização de drogas.

A soma chegou a aproximadamente R$ 661,7 mil. Esse montante corresponde aos registros examinados no período e não significa, necessariamente, que todo o valor tenha sido apreendido, bloqueado ou definitivamente comprovado como produto do tráfico.

As mensagens também permitiram identificar uma possível estrutura de controle sobre grandes quantidades de entorpecentes. Em diálogos atribuídos ao investigado, aparecem referências a 486 quilos de drogas. Outros registros mencionam a distribuição de 400 quilos para pontos de comercialização e a manutenção de 296,85 quilos em estoque.

Em conversas com um contato denominado “Dono do Caminhão”, os policiais localizaram referências ao envio de dez quilos de entorpecentes para Bom Sucesso, pelo valor de R$ 12 mil, e à destinação de outros 40 quilos para uma área identificada como Nova Esperança.

O material reforçou a suspeita de que Sebastião não atuava apenas na movimentação financeira, mas também acompanhava a logística de abastecimento e distribuição de entorpecentes.

Outro elemento relevante surgiu na análise de conversas com um contato identificado como “Lava Jato”. Segundo os relatórios, essa pessoa tratava o investigado por “Patrão” e encaminhou um comprovante de transferência via Pix de R$ 341,8 mil entre contas bancárias de terceiros.

Também foi identificada, em outro diálogo, a indicação de uma chave Pix vinculada à esposa de Sebastião, Anayna Laura da Conceição Silva.

A utilização de contas de terceiros passou a integrar as suspeitas de que recursos poderiam estar sendo movimentados de maneira a dificultar a identificação de seus responsáveis e beneficiários. A existência dessas transferências, isoladamente, não comprova que todos os titulares das contas participassem conscientemente de atividades criminosas.

A investigação financeira revelou ainda uma discrepância considerada relevante pela Justiça. Embora Sebastião tivesse renda mensal cadastrada de R$ 5.222, relatórios apontaram que ele recebeu aproximadamente R$ 518,4 mil em créditos bancários ao longo de pouco mais de seis meses de 2023.

O volume de recursos representava quase 100 vezes sua renda mensal cadastrada e foi considerado um dos elementos de incompatibilidade financeira examinados pelos investigadores. A comparação, entretanto, não permite concluir, por si só, que os créditos correspondiam integralmente a rendimentos ilícitos.

Foi a combinação desses elementos, somada aos registros encontrados nos aparelhos apreendidos e às informações patrimoniais reunidas posteriormente, que reforçou as suspeitas contra o investigado.

A frente patrimonial chegou à chácara na região do Rio dos Peixes, entre Cuiabá e Chapada dos Guimarães. Conforme informações da decisão judicial divulgadas pela imprensa, a propriedade foi negociada por aproximadamente R$ 180 mil, com entrada de R$ 100 mil e pagamento do restante em 32 parcelas de R$ 2.500.

O contrato teria sido firmado em nome de Ana Paula da Conceição Curado, circunstância examinada pela polícia diante dos indícios de que Sebastião seria o verdadeiro responsável ou beneficiário do patrimônio.

A suspeita central não é de que o simples pagamento de uma entrada elevada represente crime, mas de que a titularidade formal do imóvel poderia estar sendo utilizada para dissimular o controle patrimonial exercido pelo investigado.

A utilização de nomes de terceiros, quando comprovadamente destinada a esconder a propriedade de bens provenientes de crimes, pode constituir um mecanismo de lavagem de dinheiro. No caso da chácara, os elementos divulgados apontam para suspeita de ocultação patrimonial, ainda sujeita à comprovação judicial.

Não há, nos documentos publicamente conhecidos, demonstração de que a propriedade tenha funcionado como depósito de drogas, centro de distribuição ou local de reuniões da facção. O vínculo investigado é principalmente patrimonial e financeiro.

Além da chácara, a decisão alcançou quatro imóveis em Várzea Grande. Entre eles estão propriedades nos bairros Santa Cecília, Canelas, Jardim Eldorado e Jardim Paula I.

No bairro Canelas, um dos imóveis é identificado como local de funcionamento do Espaço Fest Madame Valente. Outra propriedade, situada na Rua Parecis, no Jardim Paula I, foi apontada como residência de Sebastião.

A existência de espaços utilizados comercialmente entre os bens investigados ampliou a atenção sobre a possível exploração econômica de propriedades vinculadas ao suspeito. Entretanto, a exploração comercial de um imóvel não demonstra, por si só, que a atividade desenvolvida no local seja criminosa.

A Polícia Civil também encontrou indícios de uma possível rede de empréstimos e cobrança de juros elevados. Uma planilha recuperada de um dos aparelhos analisados registrava taxas mensais estimadas entre 32% e 35%, além de informações sobre clientes e divisão de responsabilidades.

Para os investigadores, os registros sugerem possível atuação em agiotagem e movimentação de dinheiro por meio de negócios paralelos ao comércio de entorpecentes.

Outro ponto identificado nos materiais apreendidos foi a existência de um grupo denominado “Grupo de Serviço Geral”, no qual mensagens indicariam o recebimento antecipado de informações sobre operações policiais. Conforme a investigação, Sebastião teria utilizado o ambiente para alertar outros integrantes, hipótese que também integra a apuração sobre sua posição dentro da organização.

O conjunto de informações provocou uma reviravolta na situação judicial do investigado.

Sebastião havia sido preso durante a Operação Ruptura CPX, mas obteve posteriormente a revogação de sua prisão preventiva. Na ocasião, sua defesa sustentou que ele seria apenas um “laranja”, utilizado para movimentações financeiras realizadas por terceiros.

A Justiça considerou, naquele momento, que faltavam elementos suficientes para manter a prisão, incluindo documentação financeira que ainda não havia sido incorporada ao processo.

Com o aprofundamento da investigação, a análise dos celulares, das planilhas, dos registros de arrecadação e das operações bancárias forneceu novos elementos à autoridade policial, que solicitou outra vez a prisão preventiva.

Na decisão de 8 de outubro, o juiz Jean Garcia de Freitas Bezerra considerou que as informações reunidas reforçavam os indícios de uma atuação mais ampla do investigado, incluindo funções de administração financeira, distribuição de drogas e coordenação de atividades relacionadas à facção.

A autorização para o sequestro judicial dos imóveis teve como objetivo impedir que os bens fossem transferidos ou utilizados para preservar recursos que, segundo as suspeitas, poderiam ter origem nas atividades criminosas investigadas.

O sequestro patrimonial é uma medida cautelar e não representa confisco definitivo. A perda dos bens depende dos desdobramentos do processo e das decisões judiciais cabíveis.

O delegado Anteno Junior Pimentel Marcondes, responsável pelas investigações, explicou que a Operação Ad Rem faz parte da estratégia de atingir as estruturas econômicas das organizações criminosas, impedindo a preservação ou o reinvestimento de recursos ilícitos.

A investigação também deixa questões relevantes ainda sem resposta pública, especialmente quanto à origem integral dos valores movimentados, à efetiva participação das pessoas que figuram como titulares de contas e imóveis, ao valor de mercado das cinco propriedades e à eventual existência de outros bens associados ao grupo.

Embora os elementos divulgados permitam reconstruir parte significativa do caminho percorrido pela Polícia Civil — desde a apreensão dos celulares em março até o rastreamento financeiro e as medidas patrimoniais de outubro —, o processo tramita sob sigilo, e não foram disponibilizados integralmente os relatórios de inteligência, os documentos bancários e os contratos examinados.

A Operação Ad Rem representa, assim, uma nova fase da investigação iniciada com a Ruptura CPX. Depois de identificar integrantes, funções e suspeitas de controle territorial do Comando Vermelho, a Polícia Civil passou a concentrar esforços no dinheiro, nas transações bancárias e no patrimônio atribuído aos investigados.

O caso demonstra como mensagens extraídas de celulares, planilhas de arrecadação, registros de Pix e contratos imobiliários podem ser confrontados para identificar suspeitas de ocultação de patrimônio. A existência de uma chácara na região de Chapada dos Guimarães entre os bens sequestrados reforça a abrangência patrimonial da investigação, mas a responsabilização criminal dos envolvidos dependerá da conclusão das apurações e da avaliação das provas pela Justiça.