JB News
Por Nayara Cristina
Emerson Teixeira
Em novo confronto na Band, presidente aposta em inteligência artificial, data centers e economia verde; candidato do PL critica governos petistas e propõe internet como infraestrutura nacional, crédito barato e incentivo ao empreendedorismo
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) protagonizaram mais um embate sobre os rumos da economia brasileira durante o debate presidencial do segundo turno, realizado na noite deste domingo (18 de outubro), pela TV Bandeirantes, em São Paulo. Desta vez, o confronto colocou em discussão um dos principais obstáculos ao crescimento econômico do Brasil: a baixa produtividade, a necessidade de investimentos em tecnologia e a capacidade do país de gerar empregos de melhor qualidade e aumentar a renda da população.
Questionados sobre como pretendem acelerar a produtividade brasileira, Lula defendeu os investimentos de seu governo na reindustrialização, na economia digital e na formação de profissionais qualificados. Flávio Bolsonaro respondeu com críticas ao histórico das administrações petistas e apresentou uma proposta de transformação econômica baseada na ampliação da conectividade, na integração entre trabalhadores e empresas e no estímulo ao empreendedorismo.
A discussão começou com uma comparação internacional sobre a evolução da produtividade desde 1995. Segundo os dados apresentados no questionamento feito aos candidatos, enquanto a produtividade brasileira teria crescido aproximadamente 25% nesse período, países como a Alemanha registraram avanço de 60%, a Coreia do Sul ultrapassou 150% e a China alcançou crescimento próximo de 600%.
Os números foram apresentados no debate para demonstrar a distância entre o desempenho brasileiro e o de economias que conseguiram ampliar sua capacidade de produzir mais riqueza com os recursos disponíveis.
A pergunta também destacou a importância do agronegócio brasileiro, apontado como um dos principais responsáveis pelos ganhos de produtividade registrados no país nas últimas décadas.
O desempenho do setor agropecuário, impulsionado pela mecanização, pela pesquisa científica, pela incorporação de novas tecnologias e pelo desenvolvimento de sistemas produtivos mais eficientes, contrasta com as dificuldades enfrentadas por outros segmentos da economia nacional, especialmente parte da indústria e dos serviços.
Ao responder, Lula afirmou que o aumento da produtividade depende diretamente da capacidade do país de investir em inovação, modernização industrial e formação profissional.
O presidente destacou a política Nova Indústria Brasil, apresentada como um dos principais instrumentos de seu governo para recuperar a capacidade produtiva nacional.
Segundo Lula, o programa já mobilizou R$ 725 bilhões em investimentos e financiamentos destinados à modernização da indústria brasileira. O valor foi citado pelo presidente durante o debate, sem detalhamento, naquele momento, da parcela efetivamente desembolsada, contratada ou apenas anunciada.
O petista também afirmou que a indústria voltou a apresentar crescimento e mencionou uma expansão de 3,4%, associando o resultado à retomada das políticas de estímulo à produção nacional.
Para Lula, o Brasil precisa abandonar a dependência excessiva de atividades tradicionais e avançar em segmentos tecnológicos capazes de gerar produtos de maior valor agregado, empregos especializados e competitividade internacional.
Uma das principais apostas apresentadas pelo presidente foi a expansão da economia digital, especialmente por meio da instalação de grandes centros de processamento e armazenamento de dados, os chamados data centers.
Lula afirmou que o governo trabalha para atrair investimentos bilionários nesse setor, com expectativa de movimentar aproximadamente R$ 500 bilhões em projetos relacionados à infraestrutura digital.
O presidente também mencionou uma proposta para que empreendimentos de data centers instalados no país mantenham parte dos dados ou de sua capacidade de armazenamento sob condições estabelecidas pelo governo brasileiro, citando um percentual de 10%.
A declaração foi apresentada como parte de uma estratégia de fortalecimento da infraestrutura tecnológica nacional, embora os critérios técnicos e jurídicos de eventual exigência ainda precisem ser esclarecidos.
Além dos data centers, Lula destacou a economia criativa como um segmento com potencial para ampliar a geração de empregos, estimular novos negócios e abrir oportunidades para jovens brasileiros.
O presidente também defendeu investimentos na chamada economia verde, afirmando que a transição para modelos de produção ambientalmente sustentáveis representa uma oportunidade para atrair capital internacional e fortalecer a indústria nacional.
Segundo Lula, o interesse de investidores estrangeiros por tecnologias limpas, produção sustentável e projetos relacionados à transição energética pode colocar o Brasil em uma posição estratégica no mercado global.
Outro ponto destacado foi a necessidade de ampliar a formação de profissionais nas áreas de engenharia, matemática, tecnologia e inovação industrial.
O presidente afirmou que o país precisa preparar milhares de jovens para atuar em setores de maior complexidade tecnológica, criando condições para elevar a produtividade, melhorar os salários e transformar a estrutura econômica brasileira.
Lula sustentou que a combinação entre indústria moderna, economia digital, sustentabilidade e qualificação profissional pode permitir ao Brasil avançar para um novo patamar de desenvolvimento.
A resposta provocou críticas imediatas de Flávio Bolsonaro, que acusou o presidente de apresentar promessas semelhantes às defendidas pelo PT ao longo de suas administrações anteriores.
O candidato do PL argumentou que Lula já teve tempo suficiente para implementar as transformações anunciadas e questionou por que problemas estruturais da economia brasileira ainda não foram solucionados.
Flávio afirmou que o PT governou o país durante grande parte das últimas duas décadas e acusou o adversário de repetir propostas que, segundo ele, não produziram os resultados esperados.
Em contraposição ao modelo apresentado por Lula, o senador anunciou que pretende desenvolver o que classificou como o maior programa de mobilidade social da história brasileira.
A proposta defendida por Flávio prevê transformar a internet em infraestrutura essencial, ampliando o acesso à conectividade em escolas, hospitais, comunidades indígenas, regiões periféricas e localidades distantes dos grandes centros urbanos.
Segundo o candidato, a conectividade deve ser tratada como um serviço estratégico para o desenvolvimento econômico, com capacidade de aproximar trabalhadores, empresas, instituições financeiras e órgãos públicos.
Flávio afirmou que pretende criar uma plataforma digital integrada ao governo federal para permitir que os brasileiros encontrem oportunidades de emprego próximas de suas residências, de acordo com suas qualificações profissionais.
O sistema reuniria informações fornecidas por setores de recursos humanos das empresas, permitindo que trabalhadores identifiquem vagas compatíveis com seus perfis, comparem oportunidades e procurem ocupações com remuneração superior à que recebem atualmente.
A iniciativa, segundo o senador, também permitiria ampliar o acesso à capacitação profissional sem exigir deslocamentos para centros de formação presencial.
Flávio defendeu cursos digitais, qualificação remota e ferramentas de orientação para que trabalhadores possam desenvolver novas habilidades e melhorar suas condições de inserção no mercado.
O candidato voltou a destacar o papel da Caixa Econômica Federal, instituição que pretende transformar em um instrumento central de sua política de desenvolvimento econômico e mobilidade social.
Batizada por ele de banco da prosperidade, a Caixa seria utilizada para oferecer crédito, orientação financeira, capacitação e apoio à abertura de pequenos negócios.
Flávio citou como exemplos profissionais autônomos, manicures, cabeleireiros e trabalhadores interessados em iniciar atividades comerciais por meio da internet.
Segundo o presidenciável, o governo deverá fornecer orientações sobre formalização, abertura de empresas, acesso a financiamento e organização financeira, permitindo que trabalhadores que hoje prestam serviços de maneira informal desenvolvam seus próprios empreendimentos.
O senador também prometeu linhas de crédito com juros reduzidos e condições tributárias diferenciadas para novos negócios.
Uma das propostas apresentadas prevê que pequenos empreendedores comecem a recolher determinados tributos somente depois de iniciar a geração de receita, permitindo um período de adaptação financeira durante a fase inicial de funcionamento das empresas.
Flávio argumentou que a redução das barreiras para a abertura de negócios, combinada com crédito acessível e capacitação digital, pode contribuir para melhorar a renda de milhões de brasileiros.
O candidato também defendeu a criação de mecanismos de apoio permanente aos novos empreendedores, com orientações sobre administração, acesso ao mercado consumidor e comercialização de produtos pela internet.
Apesar das diferenças de abordagem, os dois candidatos apresentaram a tecnologia como instrumento essencial para aumentar a produtividade e ampliar oportunidades econômicas.
Lula concentrou sua resposta nos investimentos industriais, na formação de profissionais especializados e na atração de grandes empreendimentos tecnológicos. Flávio priorizou o acesso individual às ferramentas digitais, a conexão entre empresas e trabalhadores e o estímulo aos pequenos negócios.
As propostas, entretanto, levantam questões relevantes sobre financiamento e execução.
No caso dos investimentos industriais defendidos por Lula, um dos desafios será demonstrar quanto dos recursos anunciados efetivamente se transforma em novas fábricas, modernização tecnológica, empregos e ganhos de produtividade.
Já as propostas apresentadas por Flávio Bolsonaro exigiriam investimentos em infraestrutura de internet, desenvolvimento de plataformas digitais, integração de dados, capacitação profissional e ampliação das linhas de crédito destinadas aos empreendedores.
A promessa de juros baixos também dependeria de condições macroeconômicas, fontes de financiamento e critérios capazes de garantir sustentabilidade às operações de crédito.
Em Mato Grosso, o debate sobre produtividade possui relevância especial em razão da força do agronegócio e da necessidade de ampliar a industrialização da produção estadual.
O estado se destaca na produção de soja, milho, algodão e proteína animal, mas ainda enfrenta desafios relacionados à agregação de valor, à infraestrutura logística, à qualificação de trabalhadores e à diversificação de sua economia.
A expansão de tecnologias digitais, da agroindústria, de centros de processamento de dados e de atividades relacionadas à economia verde pode representar oportunidades para municípios mato-grossenses que buscam atrair novos investimentos e reduzir a dependência da comercialização de matérias-primas.
Por outro lado, a ampliação do acesso à internet, à qualificação profissional e ao crédito também poderia beneficiar trabalhadores autônomos, microempreendedores e pequenos comerciantes espalhados pelo interior do estado.
O confronto econômico ocorreu em uma das etapas finais do debate presidencial promovido pela Band, a exatamente uma semana do segundo turno das eleições, marcado para 25 de outubro.
Com Lula buscando a reeleição e Flávio Bolsonaro defendendo uma mudança na condução do governo federal, a disputa sobre produtividade colocou em evidência duas prioridades distintas: a retomada industrial financiada por investimentos públicos e privados e a ampliação da mobilidade econômica por meio de tecnologia, empreendedorismo e acesso ao crédito.
O desafio para ambos será demonstrar como transformar essas propostas em resultados concretos, com crescimento sustentado, redução das desigualdades, aumento da renda e maior competitividade da economia brasileira.