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Por Nayara Cristina
Vereador participou de jantar com aliados da presidente, posou para foto ao lado do grupo de Dilemário Alencar e, horas depois, mudou de posição; movimentação fortalece bloco de Ilde Taques na reta final da disputa pela Mesa Diretora
A disputa pelo comando da Câmara Municipal de Cuiabá ganhou uma nova e intensa reviravolta nesta quarta-feira (30). Em menos de 24 horas, o vereador em exercício Antônio Lemes (PSD) deixou o grupo político liderado pela atual presidente da Casa, Paula Calil (PL), e decidiu aderir à articulação de Ilde Taques (Podemos), que trabalha para conquistar a Presidência do Legislativo cuiabano.
A mudança provocou forte reação entre os aliados de Paula. Nos bastidores, integrantes do grupo passaram a classificar a decisão de Lemes como uma traição política e chegaram a chamá-lo de “traidor” e “Judas”, principalmente porque, poucas horas antes, o parlamentar havia participado diretamente das articulações do bloco adversário.

Na noite de terça-feira (29), Lemes esteve reunido com vereadores ligados a Paula e participou do jantar que consolidou Dilemário Alencar (União Brasil) como alternativa do grupo para disputar a Presidência da Câmara. O parlamentar inclusive posou para fotografia ao lado dos integrantes do bloco, num gesto interpretado naquele momento como demonstração pública de alinhamento.
Antes mesmo do jantar, Lemes já havia declarado que caminharia com Paula. A estratégia construída pelo grupo previa inicialmente sustentar a possibilidade de recondução da atual presidente e, caso ela não conseguisse reunir as condições políticas e jurídicas necessárias para disputar novamente o cargo, concentrar os votos em Dilemário.
A mudança ocorrida na manhã desta quarta-feira, portanto, pegou o grupo de surpresa.
Paula recebeu com estranheza a decisão de Lemes. Entre pessoas próximas à presidente, a avaliação é de que a saída ocorreu no momento mais delicado da construção política e depois de o vereador ter participado das conversas que definiram os próximos passos do grupo. Nos bastidores, aliados tratam a movimentação como uma verdadeira “punhalada pelas costas”.
A virada de Lemes também ocorre depois de um período de forte pressão em torno de seu voto.
Na terça-feira, o parlamentar relatou publicamente um desentendimento com o vereador licenciado Jeferson Siqueira (PSD), titular da cadeira atualmente ocupada por ele. Jeferson faz parte da articulação política favorável à candidatura de Ilde Taques e chegou a protocolar pedido para interromper antecipadamente a licença de 120 dias e reassumir o mandato.
Lemes afirmou que vinha sofrendo pressão relacionada à eleição da Mesa Diretora e relatou preocupação com sua integridade física. Segundo a versão apresentada pelo próprio vereador, houve um episódio de tensão depois que ele se recusou a participar de uma fotografia ao lado de Jeferson e Ilde. Lemes, entretanto, deixou claro que não atribuía qualquer ameaça a Ilde, direcionando seu relato ao parlamentar licenciado.
A situação ganhou ainda mais importância porque a Procuradoria Legislativa da Câmara concluiu, na terça-feira (29), que Jeferson não poderia interromper antecipadamente a licença concedida para tratar de interesses particulares. O entendimento mantém Antônio Lemes no exercício do mandato e, consequentemente, com direito a participar da eleição da nova Mesa Diretora.
Isso transformou o voto de Lemes em uma das peças mais disputadas da reta final.
Informações de bastidores apontam ainda que o vereador passou uma noite de forte tensão após participar do encontro com o grupo de Paula e Dilemário. Nesta quarta-feira, depois de toda a movimentação registrada desde o jantar, decidiu mudar de posição e seguir para o bloco de Ilde.
A alteração tem impacto direto na matemática da eleição.
Ilde vinha trabalhando nos últimos dias com um grupo político formado por até 15 vereadores. Entre os nomes apresentados pela articulação estavam Ilde Taques, Adevair Cabral, Baixinha Giraldelli, Jeferson Siqueira, Michelly Alencar, Dra. Mara, Daniel Monteiro, Maria Avalone, Eduardo Magalhães, Chico 2000, Alex Rodrigues, Katiuscia Manteli, Sargento Joelson, Dídimo Vovô e Maysa Leão.
A conta, porém, tinha uma particularidade importante. Jeferson está licenciado e, enquanto permanecer afastado, não participa da votação. Quem ocupa sua cadeira é justamente Antônio Lemes.
Com a decisão da Procuradoria de impedir o retorno antecipado de Jeferson e a mudança de posição de Lemes, Ilde passa a contar politicamente com o vereador que efetivamente estará em condições de votar caso o cenário permaneça inalterado até a eleição.
Do outro lado, o grupo de Paula havia saído do jantar de terça-feira contabilizando 13 vereadores e tentando conquistar novos apoios para chegar aos 14 votos necessários para formar maioria entre os 27 integrantes da Câmara.
Foi durante esse encontro que Dilemário ganhou força como alternativa para enfrentar Ilde. A construção estabelecida pelo grupo previa manter Paula como primeira opção enquanto houvesse possibilidade de sua recondução. Caso esse caminho não prosperasse, os votos seriam direcionados para Dilemário.
A saída de Lemes, portanto, não representa apenas a perda de um integrante. O movimento retira um voto de um bloco que buscava chegar à maioria e fortalece justamente o adversário que já vinha anunciando vantagem numérica na disputa.
A movimentação de Lemes chama atenção ainda pela velocidade com que ocorreu.
Na terça-feira, o vereador manifestou alinhamento com Paula. Horas depois, esteve na residência da presidente participando do jantar político. Posou para fotografia com os vereadores e acompanhou a construção em torno de Dilemário. Na manhã seguinte, mudou de lado e passou a integrar a articulação de Ilde.
O episódio acrescenta mais um capítulo a uma eleição marcada por mudanças de posição, licenças parlamentares, interpretações regimentais, decisões judiciais e negociações voto a voto.
Com 27 vereadores, qualquer mudança individual pode alterar completamente a correlação de forças. Para alcançar maioria absoluta, são necessários 14 votos.
Agora, a adesão de Antônio Lemes fortalece a articulação de Ilde Taques e obriga o grupo de Paula Calil e Dilemário Alencar a refazer as contas justamente na reta final da disputa.
A eleição da nova Mesa Diretora está marcada para 6 de outubro. Até lá, a sucessão de mudanças ocorridas nos últimos dias demonstra que fotografias, jantares e declarações públicas de apoio ainda não significam voto definitivamente garantido no plenário.