CASO ZAMPIERI

“Retórica a serviço da impunidade”, diz promotor sobre ‘nuvem de fumaça’ da defesa ao apontar novos envolvidos na morte de Zampieri

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“Retórica a serviço da impunidade”, diz promotor sobre ‘nuvem de fumaça’ da defesa ao apontar novos envolvidos na morte de Zampieri
Promotor Vinícius Gahyva

JB News

Por José Teixeira

Vinícius Gahyva afirma que investigações não encontraram até agora elementos que indiquem participação da empresária no assassinato e reage à estratégia de questionar a vítima: “Retórica a serviço da injustiça e da impunidade”

O promotor de Justiça Vinícius Gahyva Martins afirmou nesta quarta-feira (30) que as diferentes frentes de investigação sobre o assassinato do advogado Roberto Zampieri descartaram, até o momento, indícios que apontem para o envolvimento de Maria Angélica Caixeta Gontijo no crime. Para o representante do Ministério Público de Mato Grosso, insistir nessa linha durante o julgamento dos três réus seria uma tentativa de criar uma “nuvem de fumaça” em torno das responsabilidades que estão sendo analisadas pelo Tribunal do Júri em Cuiabá.

Gahyva participa, ao lado do promotor Samuel Frungilo, da acusação no julgamento de Antônio Gomes da Silva, apontado como executor dos disparos; Hedilerson Fialho Martins Barbosa, acusado de participar da execução do plano criminoso; e o coronel da reserva Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas, acusado de integrar a empreitada criminosa.

O júri começou na terça-feira (29), no Fórum de Cuiabá, e entrou nesta quarta-feira em seu segundo dia.

Questionado sobre as referências feitas pelas defesas a Maria Angélica e sobre a possibilidade de uma reviravolta no caso, Gahyva afirmou que essa hipótese foi investigada em profundidade pela Polícia Civil, teve acompanhamento do Ministério Público e posteriormente passou também pelo trabalho complementar da Polícia Federal.

“Em todas as instâncias foi descartado, ao menos por enquanto, qualquer indício indicativo de envolvimento dessa senhora efetivamente”, afirmou.

O promotor sustentou ainda que a discussão sobre quem teria ordenado o assassinato não altera o objeto central deste julgamento. Segundo ele, o júri atual concentra-se nos acusados de participar diretamente da execução e da intermediação do crime, enquanto as responsabilidades atribuídas aos supostos mandantes serão analisadas em processo próprio.

“Para o presente julgamento, pouco interessa quem tenha sido ou não mandante. Nós estamos tratando dos executores, dos intermediários e dos executores”, declarou.

Gahyva afirmou que levar ao plenário suspeitas que, segundo a acusação, não interferem na responsabilidade dos três réus significa desviar o foco das provas produzidas.

“Levar ao julgamento uma desconfiança é jogar uma nuvem de fumaça em algo que está muito claro e evidente com relação à responsabilidade”, disse.

O promotor também reagiu duramente à estratégia das defesas de trazer para o julgamento acusações envolvendo a vida de Roberto Zampieri, incluindo referências a suspeitas de venda de decisões judiciais e outras controvérsias reveladas a partir do material encontrado no telefone celular do advogado.

Para Gahyva, existe uma contradição quando uma defesa sustenta que determinado réu não participou do homicídio e, simultaneamente, utiliza a conduta da vítima como argumento.

“Se a pessoa nega a autoria e nega envolvimento no crime, o que importa se a vítima era daquele jeito ou desse jeito? Não faz diferença alguma”, argumentou.

Na avaliação do representante do Ministério Público, questionamentos sobre a conduta de Zampieri não podem servir para justificar seu assassinato.

Gahyva afirmou que, independentemente das acusações que posteriormente surgiram envolvendo o advogado, o julgamento trata da morte de um ser humano e do direito à vida.

“Toda vítima, evidentemente, tem seus erros e seus acertos, mas jamais podemos deixar de lembrar que era um pai de família, tinha filhos, tinha esposa, entes queridos”, declarou.

Na sequência, o promotor endureceu o discurso contra a tentativa de transformar as suspeitas existentes contra Zampieri em justificativa para o homicídio.

“Justificar esse tipo de situação atacando a figura da vítima nada mais é do que uma retórica que se coloca a serviço da injustiça, da impunidade e daquilo que a sociedade não deseja”, afirmou.

Outro ponto abordado foi a ofensiva das defesas contra a investigação policial e os questionamentos relacionados à cadeia de custódia de equipamentos eletrônicos apreendidos no decorrer do caso, especialmente o celular de Zampieri.

Gahyva afirmou que o próprio Ministério Público levou ao Conselho Nacional de Justiça informações relacionadas ao material encontrado no aparelho e às circunstâncias que surgiram durante as investigações.

Segundo ele, houve posteriormente uma forte movimentação em torno do conteúdo do celular, que acabou sendo encaminhado a diferentes órgãos.

O promotor afirmou que o material está atualmente em poder ou ao alcance de órgãos como Polícia Federal, Superior Tribunal de Justiça, Supremo Tribunal Federal e Conselho Nacional de Justiça, além das próprias defesas.

Para Gahyva, eventuais consequências relacionadas às suspeitas de corrupção reveladas a partir desse conteúdo estão sendo tratadas pelas instâncias competentes e não devem ser confundidas com a responsabilidade criminal analisada pelo Tribunal do Júri.

O promotor também foi questionado sobre a possibilidade de existirem outros interessados na morte de Zampieri, diante das informações de que o advogado acumulava conflitos e de que diferentes pessoas poderiam ter motivos para desejar sua morte.

Gahyva reconheceu que essa hipótese chegou a ser considerada e afirmou que ainda admite a possibilidade da existência de outros interessados. Ressalvou, entretanto, que interesse ou eventual motivação não significam participação no homicídio.

“Eu até acreditava no início, principalmente nessa questão, e até acredito que possa haver outros interessados. Agora, haver interessados não significa que outras pessoas também concorreram”, afirmou.

Segundo o promotor, existe investigação complementar destinada a apurar a eventual participação de outros envolvidos ou interessados na condição de mandantes. O Ministério Público acompanha esse trabalho e, segundo Gahyva, qualquer responsabilização precisa estar baseada em provas.

O representante do MP ainda fez uma defesa enfática da necessidade de não retirar do centro do processo os familiares de Roberto Zampieri.

Para Gahyva, em meio às discussões sobre corrupção, conteúdo de celulares, supostos mandantes e acusações contra a própria vítima, é necessário lembrar que o homicídio deixou esposa, filhos e outros familiares.

“Nós estamos falando de direitos humanos”, afirmou.

O promotor classificou o assassinato como uma grave violação à vida e lembrou que a acusação submetida aos jurados é de homicídio triplamente qualificado.

Roberto Zampieri foi assassinado a tiros em 5 de dezembro de 2023, quando estava dentro de sua caminhonete, em frente ao escritório onde trabalhava, no bairro Bosque da Saúde, em Cuiabá.

O julgamento iniciado na terça-feira analisa especificamente a responsabilidade atribuída a Antônio Gomes da Silva, Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas e Hedilerson Fialho Martins Barbosa. Paralelamente, outras frentes investigativas relacionadas ao assassinato e às informações encontradas nos dispositivos de Zampieri seguem tramitando.

Para o Ministério Público, porém, essas apurações não devem desviar os jurados da questão que está sendo decidida neste momento: a responsabilidade individual dos três homens colocados no banco dos réus pelo assassinato do advogado.

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