DINHEIRO NA MIRA DO GAECO
JBNews
Por Nayara Cristina
Relatório financeiro da Operação Cathedra Venalis identifica transferência feita por Flavinho da VG a Nilton Borgato e sua esposa; investigadores apontam ausência de informações sobre a origem e a finalidade do dinheiro.
Uma movimentação financeira de R$ 100 mil realizada pelo vereador de Várzea Grande Flávio de Oliveira Silva, conhecido como Flavinho da VG, entrou no radar do Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco) durante as investigações da Operação Cathedra Venalis, deflagrada na terça-feira (20 de outubro) para apurar suspeitas de corrupção e compra de votos na Câmara Municipal de Várzea Grande.
O dinheiro foi depositado em uma conta conjunta do ex-secretário de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação de Mato Grosso Nilton Borges Borgato e de sua esposa, Gheysa Maria Bonfim Borgato, ex-prefeita de Glória d’Oeste. Nilton foi condenado, em julho de 2026, a oito anos e oito meses de prisão por tráfico internacional de drogas, em decisão que ainda estava sujeita a recursos.
A transação ocorreu em 23 de novembro de 2022, por meio de dinheiro em espécie e cheque, mas os detalhes ganharam repercussão em 21 de outubro de 2026, após a divulgação de informações atribuídas ao Relatório de Inteligência Financeira (RIF) do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), analisado no contexto da operação.
Segundo o documento, Flavinho da VG aparece identificado como depositante e responsável pela operação. Entretanto, os registros financeiros não permitiram esclarecer a origem econômica dos recursos, a justificativa comercial do pagamento ou a natureza da relação financeira entre o vereador e os titulares da conta.
Os investigadores também não conseguiram identificar, pelos dados apresentados, quanto dos R$ 100 mil foi efetivamente depositado em espécie, qual parcela correspondeu a cheque e quem teria emitido o documento bancário.
Outro ponto destacado é a incompatibilidade aparente entre o valor movimentado e a renda mensal líquida cadastrada para o parlamentar naquele período.
Conforme as informações atribuídas ao relatório, Flavinho possuía renda líquida mensal de R$ 16.288. O depósito de R$ 100 mil correspondia, portanto, a aproximadamente 6,14 vezes esse rendimento.
Essa diferença foi considerada relevante para a análise da operação financeira. Contudo, a comparação com a renda mensal, isoladamente, não comprova origem ilícita, pois recursos também podem decorrer de patrimônio acumulado, empréstimos ou operações comerciais legítimas.
O levantamento aponta ainda que a conta conjunta de Nilton Borgato e Gheysa Bonfim apresentou movimentação aproximada de R$ 796 mil entre 10 de janeiro de 2022 e 5 de janeiro de 2023, considerando os créditos e débitos registrados no período.
O depósito de Flavinho integra esse volume financeiro e aparece em dois indexadores do relatório, embora corresponda a uma única transação. Isso significa que o valor de R$ 100 mil não deve ser contabilizado duas vezes.
Os dados divulgados indicam que a transferência representou aproximadamente 23,78% dos créditos recebidos pela conta conjunta no período analisado. Parte expressiva dos recursos movimentados foi utilizada para pagamentos de faturas de cartões de crédito.
A ausência de esclarecimentos sobre a motivação econômica da transação levou os investigadores a incluir a movimentação entre os elementos financeiros examinados durante a Operação Cathedra Venalis.
Nilton Borgato comandou a Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação de Mato Grosso entre 2019 e 2022. Também exerceu mandato como prefeito de Glória d’Oeste.
Em abril de 2022, foi preso preventivamente durante a Operação Descobrimento, deflagrada pela Polícia Federal para investigar uma organização suspeita de tráfico internacional de cocaína transportada por aeronaves.
Quatro anos depois, em julho de 2026, a Justiça Federal da Bahia proferiu sentença condenatória contra o ex-secretário, estabelecendo pena de oito anos e oito meses de reclusão. A decisão ainda admitia recursos quando os detalhes da investigação financeira foram divulgados.
A condenação de Borgato por tráfico internacional de drogas decorre de outro processo e não constitui prova de que o depósito realizado por Flavinho esteja relacionado ao crime ou às suspeitas investigadas na Câmara de Várzea Grande.
Também não existe comprovação pública de que Gheysa Bonfim tenha participado de qualquer irregularidade relacionada à transferência.
A Operação Cathedra Venalis investiga supostas negociações financeiras realizadas para garantir apoio político à recondução de Wanderley Cerqueira (MDB) à presidência da Câmara Municipal de Várzea Grande.
Entre as linhas de investigação estão relatos sobre pagamentos mensais de R$ 10 mil a vereadores, ofertas de R$ 100 mil por votos, distribuição de cargos e promessas de vantagens ligadas à eventual privatização do Departamento de Água e Esgoto (DAE).
O Gaeco também examina suspeitas de ameaças, gravações clandestinas e utilização de documentos para pressionar parlamentares.
A operação cumpriu 30 mandados de busca e apreensão em Cuiabá, Várzea Grande e Chapada dos Guimarães, alcançando vereadores, servidores e outras pessoas relacionadas às articulações políticas investigadas.
O depósito identificado na conta de Nilton Borgato, entretanto, ocorreu em 2022, anos antes da eleição da Mesa Diretora examinada na investigação.
Por essa razão, os documentos financeiros divulgados não permitem estabelecer uma relação direta entre a transferência de R$ 100 mil e as suspeitas de compra de votos ou pagamento de propina na Câmara.
Também não há informação pública confirmada de que Borgato tenha participado da suposta organização investigada na Operação Cathedra Venalis ou tenha sido alvo dos mandados cumpridos em outubro.
A presença da transação no relatório financeiro demonstra que os investigadores examinaram o registro bancário, mas não significa que todos os envolvidos na movimentação tenham praticado crimes.
Até a conclusão desta reportagem, não foram localizadas manifestações específicas de Flavinho da VG, Nilton Borgato ou Gheysa Bonfim esclarecendo a finalidade do depósito realizado em novembro de 2022.
A investigação deverá buscar documentos, registros bancários e outras informações capazes de esclarecer se a transferência correspondeu a uma negociação comercial, empréstimo, pagamento de obrigação particular ou outra operação financeira.
Os resultados dessa análise poderão determinar se existem elementos para aprofundar a apuração ou se o registro bancário permanecerá apenas como informação contextual dentro do procedimento.
Até o momento, não foi identificada decisão judicial que reconheça o depósito como pagamento de propina, nem comprovação de que os R$ 100 mil tenham sido utilizados para financiar apoio político.
A investigação continua em andamento, e a responsabilidade de eventuais envolvidos dependerá de provas individualizadas e de avaliação pelas autoridades competentes, assegurados o contraditório, a ampla defesa e a presunção de inocência.