SAÚDE EM DEBATE

Flávio promete “SUS padrão Einstein”, Lula questiona “Querem privatizar o sistema único”

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Flávio promete “SUS padrão Einstein”, Lula questiona “Querem privatizar o sistema único”

BATE-BOCA PELA SAÚDE

Por Emerson Teixeira

JBNews

Candidato do PL anuncia prontuário eletrônico unificado, inteligência artificial e redução das filas; presidente reage com críticas à gestão Bolsonaro na pandemia e questiona experiência do adversário na saúde pública

O Sistema Único de Saúde (SUS) provocou um dos confrontos mais acalorados entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), durante o primeiro debate presidencial do segundo turno, realizado na noite deste domingo (18 de outubro), pela TV Bandeirantes, em São Paulo. O confronto envolveu propostas para reduzir filas de consultas, exames e cirurgias, investimentos em tecnologia, financiamento da rede pública, acusações sobre a condução da pandemia de Covid-19 e até questionamentos sobre uma eventual privatização do sistema público de saúde.

A discussão começou após uma pergunta dos jornalistas sobre as dificuldades enfrentadas por milhões de brasileiros para conseguir atendimento especializado pelo SUS. O questionamento destacou a demora para consultas, exames e procedimentos cirúrgicos, a falta de informações consolidadas sobre as filas de espera e o financiamento insuficiente do sistema.

Na apresentação da pergunta, foi mencionado que o investimento público brasileiro em saúde corresponde a aproximadamente 4% do Produto Interno Bruto (PIB), percentual inferior aos 6% apontados como referência para a ampliação do financiamento público. A questão dirigida aos candidatos era como aumentar a capacidade de atendimento e de onde sairiam os recursos necessários.

Flávio Bolsonaro iniciou sua resposta fazendo uma crítica ao adversário por declarações relacionadas à população do Rio de Janeiro. Em seguida, apresentou sua principal proposta para a saúde pública: levar ao SUS um padrão de atendimento inspirado no Hospital Israelita Albert Einstein, uma das principais instituições hospitalares do país.

O senador anunciou que pretende nomear o médico Cláudio Lottenberg, ex-presidente do Hospital Israelita Albert Einstein, para comandar o Ministério da Saúde caso seja eleito presidente da República.

Segundo Flávio, a escolha representa a intenção de modernizar a rede pública de atendimento, reduzir a burocracia e incorporar soluções tecnológicas utilizadas por instituições hospitalares de referência.

“O SUS vai ser padrão Einstein, porque você merece”, afirmou o candidato, ao defender que os brasileiros atendidos pelo sistema público tenham acesso a serviços mais rápidos, modernos e humanizados.

Uma das principais propostas apresentadas por Flávio foi a implantação de um prontuário eletrônico único, capaz de reunir as informações médicas dos pacientes em uma plataforma integrada.

De acordo com o senador, o sistema permitiria conectar unidades municipais, estaduais e federais, além de informações da rede privada, facilitando o histórico clínico dos pacientes e o encaminhamento para consultas e procedimentos.

Flávio também defendeu a utilização de inteligência artificial e telemedicina para ampliar a capacidade de atendimento, especialmente em situações de urgência.

O candidato afirmou que pretende disponibilizar ferramentas digitais para orientar os pacientes sobre qual unidade de saúde procurar, evitando deslocamentos desnecessários e reduzindo o tempo de espera.

Ao exemplificar sua proposta, mencionou situações em que pais precisam procurar atendimento médico durante a madrugada para crianças com febre alta e enfrentam dificuldades para encontrar uma unidade preparada para realizar o atendimento.

Segundo ele, a tecnologia poderia ajudar a direcionar os pacientes para o serviço adequado, permitindo atendimento mais rápido e acesso aos medicamentos necessários.

O senador aproveitou para atacar a gestão federal, afirmando que os governos petistas tiveram tempo suficiente para melhorar a saúde pública, mas não conseguiram resolver problemas históricos como a demora no atendimento e a falta de medicamentos nas unidades básicas.

Flávio também citou situações em que pacientes procuram postos de saúde e não encontram medicamentos simples, como dipirona, utilizando o exemplo para defender mudanças na administração do SUS.

A resposta provocou uma reação dura do presidente Lula, que questionou a experiência de Flávio Bolsonaro com a rede pública de saúde e levantou dúvidas sobre o verdadeiro significado da proposta de levar o padrão do Hospital Albert Einstein ao sistema público.

Lula questionou se o adversário pretendia privatizar o SUS, associando a proposta apresentada por Flávio ao modelo de gestão de hospitais privados.

“Será que ele quer privatizar o SUS?”, questionou o presidente durante sua intervenção.

O petista também afirmou que o candidato do PL desconhece o funcionamento cotidiano das unidades públicas de saúde, especialmente das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs).

Lula ironizou a experiência do adversário ao sugerir que Flávio estaria habituado ao atendimento particular e não conheceria as dificuldades enfrentadas pelos brasileiros que dependem exclusivamente da rede pública.

O presidente aproveitou a discussão para responsabilizar a administração do ex-presidente Jair Bolsonaro pela condução da pandemia de Covid-19.

Em uma das declarações mais contundentes, Lula citou as mais de 700 mil mortes registradas no Brasil durante a crise sanitária e acusou a gestão anterior de ter cometido erros graves ao não seguir adequadamente as orientações científicas.

Segundo o presidente, parte das mortes poderia ter sido evitada com uma atuação diferente do governo federal, especialmente no reconhecimento da gravidade da pandemia e no respeito às recomendações médicas e científicas.

A afirmação representa uma avaliação política de Lula sobre a condução da crise sanitária e não uma conclusão apresentada no debate por meio de estudo epidemiológico específico.

Lula também defendeu os investimentos realizados em seus governos e afirmou que sua administração trabalha para recuperar a capacidade de atendimento do SUS, melhorar as condições de funcionamento das unidades e valorizar os profissionais de saúde.

O presidente reconheceu que nem todos os problemas foram solucionados, mas sustentou que seu governo realizou esforços para ampliar o acesso da população aos serviços públicos.

Ao mencionar os profissionais que atuam na rede de saúde, Lula lembrou que o debate estava sendo realizado no dia 18 de outubro, data em que é celebrado o Dia do Médico no Brasil, e parabenizou a categoria.

O confronto ganhou um novo capítulo quando os candidatos passaram a se interromper durante a resposta do presidente. Diante das manifestações de Flávio Bolsonaro, a mediação precisou interferir para restabelecer a ordem e garantir a continuidade do tempo destinado a Lula.

O cronômetro chegou a ser interrompido, enquanto a mediadora solicitava que Flávio respeitasse o direito de fala do adversário.

A tensão aumentou quando o candidato do PL pediu direito de resposta. A solicitação, entretanto, foi negada pela organização do debate, e a discussão prosseguiu conforme as regras estabelecidas para o encontro.

O episódio demonstrou o nível de acirramento da disputa presidencial e evidenciou a dificuldade dos candidatos em manter o confronto restrito à apresentação de propostas.

Apesar da intensidade das acusações, a pergunta central sobre o financiamento do SUS não recebeu, nesse trecho do debate, uma resposta detalhada sobre a origem dos recursos necessários para ampliar o atendimento.

Flávio concentrou sua resposta na modernização administrativa, na digitalização do sistema e na promessa de redução das filas. Lula, por sua vez, priorizou a defesa do SUS, o histórico de investimentos públicos e as críticas à condução da pandemia pelo governo Bolsonaro.

O debate deixou em aberto questões fundamentais, como o custo de implantação das novas tecnologias, a ampliação da oferta de médicos especialistas, a capacidade dos hospitais públicos de absorver a demanda reprimida e o aumento de recursos para consultas, exames e cirurgias.

A discussão também tem impacto direto em Mato Grosso, onde moradores de municípios do interior frequentemente precisam buscar atendimento especializado em cidades-polo, especialmente Cuiabá e Várzea Grande. A distância dos serviços de referência, a disponibilidade de especialistas e a organização das filas representam desafios para a rede estadual e municipal de saúde.

A promessa de um prontuário eletrônico integrado poderia facilitar a circulação de informações entre unidades, mas sua implantação exigiria investimentos em infraestrutura tecnológica, integração de sistemas, proteção de dados e capacitação profissional.

Já a redução das filas dependeria não apenas de tecnologia, mas também de mais profissionais, estrutura hospitalar, equipamentos, financiamento e capacidade de realização de procedimentos.

O embate sobre a saúde ocorreu em um dos momentos decisivos da eleição presidencial. Lula e Flávio Bolsonaro disputam o segundo turno marcado para 25 de outubro, após um primeiro turno em que o candidato do PL obteve 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do atual presidente.

A uma semana da votação, o confronto na Band revelou que o futuro do SUS será um dos temas centrais da disputa, colocando frente a frente a promessa de modernização tecnológica apresentada por Flávio Bolsonaro e a defesa da estrutura pública e do histórico de investimentos sustentada pelo presidente Lula.