FLORESTAS ENERGÉTICAS

Expansão do etanol de milho pode exigir R$ 14,3 bilhões em novas florestas de eucalipto em MT

· 4 min de leitura
Expansão do etanol de milho pode exigir R$ 14,3 bilhões em novas florestas de eucalipto em MT

FRONTEIRA DE R$ 14,3 BILHÕES

JB News

Por José Teixeira

Estado pode precisar incorporar 218 mil hectares de florestas energéticas para sustentar crescimento das usinas; capacidade instalada de etanol deve saltar de 6,9 bilhões para 11,9 bilhões de litros até 2030

A expansão acelerada das usinas de etanol de milho está criando uma nova fronteira bilionária de investimentos em Mato Grosso. O Estado poderá precisar movimentar entre R$ 7,6 bilhões e R$ 14,3 bilhões na implantação de novas florestas energéticas para garantir biomassa suficiente ao funcionamento das indústrias nos próximos anos.

A projeção consta do estudo “O desafio da biomassa para o etanol de milho”, divulgado pela Consultoria Agro do Itaú BBA na sexta-feira (11). O levantamento coloca Mato Grosso, maior polo nacional do combustível produzido a partir do cereal, diante de um novo desafio: expandir a produção de energia utilizada pelas próprias usinas no mesmo ritmo em que aumenta a capacidade industrial.

Atualmente, Mato Grosso possui aproximadamente 165 mil hectares de eucalipto plantado. Considerando o crescimento projetado da indústria e um cenário de eficiência operacional média, seriam necessários cerca de 383 mil hectares para suprir a demanda energética das plantas até 2030.

Isso significa incorporar aproximadamente 218 mil novos hectares de florestas energéticas ao Estado.

A necessidade é consequência direta da velocidade com que o setor de etanol de milho está crescendo.

A capacidade instalada em Mato Grosso deverá avançar de aproximadamente 6,9 bilhões de litros em 2025 para 11,9 bilhões de litros em 2030, crescimento de cerca de 72% em apenas cinco anos.

No Brasil, a transformação é ainda maior. A capacidade instalada deverá sair de 10,9 bilhões de litros em 2025 para 25,3 bilhões em 2030, mais que dobrando até o final da década.

O problema é que transformar milho em etanol exige grande quantidade de energia térmica. As usinas utilizam biomassa para alimentar caldeiras responsáveis pela produção de vapor e calor durante o processo industrial.

Com novas plantas entrando em operação e outras aumentando a capacidade, a disponibilidade de biomassa passa a ser um fator estratégico para determinar até onde a indústria poderá crescer.

O eucalipto surge como uma das principais alternativas.

Em um cenário no qual fosse utilizado como única fonte de biomassa, a indústria brasileira precisaria de aproximadamente 35 milhões de metros cúbicos de madeira para sustentar capacidade de 13 bilhões de litros de etanol até o final de 2026. Para garantir esse fornecimento continuamente, seria necessário estoque florestal próximo de 440 mil hectares.

Em Mato Grosso, o tamanho do desafio aumenta à medida que novas usinas são projetadas.

O Itaú BBA calcula que, considerando custo médio de aproximadamente R$ 35 mil por hectare ao longo de um ciclo florestal de 13 anos, a expansão necessária poderá representar investimento inicial na ordem de R$ 7,6 bilhões.

Em cenários de menor eficiência das florestas e das próprias unidades industriais, a necessidade de área e capital cresce e a conta pode alcançar R$ 14,3 bilhões.

Esse valor, porém, não representa investimento público anunciado nem pacote de recursos já contratado. Trata-se de uma estimativa do capital que poderá ser necessário para formar a base florestal capaz de atender à expansão projetada da indústria de etanol de milho.

A dimensão do número revela, entretanto, que a transformação econômica provocada pelas usinas começa a ultrapassar o mercado do próprio milho.

O avanço pode criar demanda adicional por terras, mudas, viveiros, máquinas florestais, transporte, armazenagem de madeira, mão de obra e serviços especializados, formando uma nova cadeia econômica ao redor das plantas de biocombustíveis.

Também abre uma alternativa para produtores rurais.

O estudo avalia que o eucalipto pode ocupar principalmente áreas com menor aptidão para culturas anuais e funcionar como instrumento de diversificação de receita das propriedades. Pelas premissas analisadas, projetos florestais podem alcançar taxa interna de retorno próxima de 17% ao ano.

Existe, entretanto, outro componente que torna a corrida por florestas plantadas ainda mais importante.

As usinas de etanol não disputam biomassa sozinhas. Esmagadoras de soja, frigoríficos, secadores de grãos e outras unidades industriais também utilizam madeira ou resíduos vegetais como fonte de energia, aumentando a concorrência pelo produto dentro do próprio Estado.

Além disso, Mato Grosso estabeleceu um cronograma para diminuir progressivamente a utilização industrial de biomassa proveniente da supressão autorizada de vegetação nativa.

Para indústrias já instaladas, a participação desse tipo de biomassa deverá ser limitada progressivamente e chegar a zero a partir de 2035, ampliando a pressão para que as empresas migrem para florestas plantadas e outras fontes renováveis.

Essa mudança transforma o abastecimento energético em uma questão econômica e também regulatória.

Empresas que não garantirem antecipadamente madeira ou fontes alternativas poderão enfrentar aumento de custos justamente no momento em que bilhões de reais estão sendo investidos na ampliação da capacidade industrial.

O eucalipto também possui uma característica que exige planejamento antecipado: tempo.

Uma floresta não pode ser implantada quando a nova usina estiver pronta e produzir madeira imediatamente. O primeiro ciclo de corte ocorre normalmente anos depois do plantio. Por isso, a formação da base florestal precisa anteceder a expansão industrial.

Além da madeira plantada, alternativas como bambu, casca de arroz, bagaço e palha de cana, capins energéticos e resíduos agroindustriais poderão integrar a matriz das usinas. Ganhos de eficiência das caldeiras também podem reduzir a quantidade de biomassa necessária.

Mesmo assim, a dimensão da expansão prevista coloca as florestas energéticas no centro do próximo ciclo de investimentos do setor.

Mato Grosso já transformou o excedente de milho produzido na segunda safra em combustível, farelos destinados à alimentação animal, óleo e outros produtos industriais. Agora, essa mesma cadeia começa a provocar uma segunda transformação: a necessidade de produzir, em grande escala, a energia que sustentará as próprias fábricas.

Se as projeções se confirmarem, o Estado chegará ao final da década com capacidade para produzir quase 12 bilhões de litros de etanol de milho por ano e poderá precisar adicionar 218 mil hectares de eucalipto à atual base florestal.

O movimento pode colocar até R$ 14,3 bilhões em novos investimentos no radar do agronegócio mato-grossense e transformar a produção de madeira para energia em uma das novas fronteiras econômicas abertas pelo avanço do etanol de milho.