MODAL DA CONFUSÃO

Emocionado, secretário Marcelo Padeiro deixa audiência pública sobre atraso nas obras do BRT e diz que tem “Muita coisa pra falar que poderia infartar”

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Emocionado, secretário Marcelo Padeiro deixa audiência pública sobre atraso nas obras do BRT e diz que tem “Muita coisa pra falar que poderia infartar”

JBNews

Por Nayara Cristina

A audiência pública realizada nesta segunda-feira (13), na Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT), para discutir o andamento das obras do Bus Rapid Transit (BRT) foi marcada por um momento de forte emoção protagonizado pelo secretário de Estado de Infraestrutura e Logística (Sinfra), Marcelo Padeiro. Visivelmente abalado durante sua manifestação, o gestor interrompeu a participação no debate e deixou o plenário após afirmar que seu estado emocional não lhe permitia permanecer na sessão, chegando a declarar que poderia “infartar” caso continuasse no ambiente.

A audiência havia sido convocada para que representantes do Governo do Estado apresentassem esclarecimentos sobre o cronograma das obras, os atrasos registrados na implantação do modal e as medidas adotadas para garantir a conclusão do projeto, considerado uma das principais intervenções de mobilidade urbana em execução em Mato Grosso. Os parlamentares cobraram informações sobre o andamento dos contratos, a execução financeira, os prazos de entrega e os impactos causados pelas obras em Cuiabá e Várzea Grande, que há anos convivem com mudanças no trânsito, bloqueios de vias e prejuízos ao comércio.

Antes de deixar o plenário, Marcelo Padeiro fez um desabafo e comparou a atual cobrança em torno das obras do BRT com a condução do antigo projeto do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), iniciado em preparação para a Copa do Mundo de 2014 e que jamais foi concluído. Segundo o secretário, bilhões de reais foram investidos no VLT sem que a população recebesse o sistema prometido, situação que, na avaliação dele, não gerou o mesmo nível de cobrança pública observado atualmente em relação ao BRT.

Durante a audiência, Padeiro afirmou que o VLT permaneceu praticamente dez anos sem que um único trilho fosse instalado, apesar do elevado volume de recursos públicos já empregados no empreendimento. Para ele, a comparação é inevitável, pois a atual gestão assumiu um projeto considerado inviável e precisou reconstruir praticamente todo o planejamento da mobilidade urbana da região metropolitana.

Durante sua fala, Padeiro afirmou que a comparação entre os dois projetos é inevitável e defendeu que a implantação do BRT representa um desafio técnico de grande complexidade, envolvendo desapropriações, intervenções em vias urbanas, remanejamento de redes de serviços públicos e adequações constantes no cronograma de execução.

O secretário também ampliou suas críticas para a gestão dos recursos públicos no país. Em seu pronunciamento, citou temas como as chamadas “emendas Pix” e o chamado “orçamento secreto”, afirmando que o Brasil precisa aperfeiçoar os mecanismos de aplicação e fiscalização do dinheiro público. Segundo ele, existem fatos relacionados à administração pública sobre os quais prefere não se manifestar para evitar que o debate se transforme em confronto político ou que ele próprio se exaltasse durante a audiência.

Após comunicar sua saída da audiência, os esclarecimentos técnicos passaram a ser conduzidos por integrantes da equipe da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística, acompanhados da assessoria jurídica da pasta. Os representantes responderam aos questionamentos formulados pelos deputados estaduais sobre o andamento das obras, os prazos previstos para entrega das etapas em execução, os contratos firmados e os principais obstáculos enfrentados durante a implantação do sistema.

O encontro ocorreu em meio ao aumento da pressão exercida pelo Poder Legislativo sobre o Governo do Estado em razão dos sucessivos atrasos registrados nas obras. Parlamentares têm cobrado maior transparência quanto ao cronograma, aos investimentos realizados e às medidas adotadas para minimizar os impactos causados à população e ao comércio ao longo dos trechos onde os serviços estão em andamento.

O BRT foi escolhido pelo Governo de Mato Grosso para substituir definitivamente o projeto do VLT, que permaneceu inacabado por mais de uma década após consumir elevados investimentos públicos sem que entrasse em operação. A mudança de modal foi anunciada durante a gestão do governador Mauro Mendes sob o argumento de que o sistema de ônibus de trânsito rápido apresentava menor custo de implantação, manutenção mais simples e prazo reduzido para conclusão.

A história do VLT remonta a 2012, quando a obra foi lançada como o principal legado de mobilidade urbana para a Copa do Mundo de 2014. O projeto previa cerca de 22 quilômetros de trilhos ligando Cuiabá a Várzea Grande, passando pelo Aeroporto Marechal Rondon, Centro da Capital e Centro Político Administrativo. Na época, a promessa era entregar um sistema moderno de transporte coletivo antes do Mundial.

Entretanto, a execução foi marcada por sucessivos atrasos, alterações contratuais, dificuldades financeiras, paralisações e investigações conduzidas por órgãos de controle. Com o passar dos anos, operações do Ministério Público, Polícia Federal e Controladoria identificaram suspeitas de superfaturamento, pagamento de propinas e diversas irregularidades nos contratos firmados para implantação do modal. As obras acabaram sendo interrompidas e permaneceram praticamente abandonadas por cerca de uma década, período em que estruturas se deterioraram e os vagões adquiridos permaneceram sem utilização.

Ao assumir o governo, Mauro Mendes determinou uma revisão completa do empreendimento. Estudos técnicos concluíram que a retomada do VLT exigiria investimentos bilionários adicionais e um prazo ainda maior para sua conclusão. Diante desse cenário, o Executivo decidiu rescindir definitivamente o contrato e implantar o sistema BRT como alternativa considerada mais viável sob os aspectos técnico, financeiro e operacional.

Desde então, o Governo do Estado vem executando as obras em diversas frentes. Nos últimos meses foram entregues importantes etapas da infraestrutura, incluindo trechos do corredor estrutural entre o Aeroporto Marechal Rondon e o Comando-Geral da Polícia Militar, além de obras de drenagem, pavimentação, iluminação, reurbanização e adequação viária. Outras fases seguem em andamento, como a construção das estações de embarque, implantação dos corredores exclusivos, sistemas semafóricos inteligentes e conclusão dos acabamentos necessários para que o novo modal entre em operação.

Mesmo com os avanços anunciados pelo governo, o empreendimento continua sendo alvo de cobranças por parte da Assembleia Legislativa, de comerciantes e da população. Os parlamentares defendem maior transparência sobre os prazos definitivos de entrega e cobram celeridade para reduzir os impactos causados pelas intervenções nas principais avenidas de Cuiabá e Várzea Grande.

A audiência pública desta segunda-feira reforçou o clima de tensão em torno da principal obra de mobilidade urbana de Mato Grosso. Enquanto o Governo sustenta que trabalha para concluir um projeto que substituiu um empreendimento considerado inviável e marcado por uma década de paralisação, deputados continuam cobrando respostas, cronogramas mais precisos e garantias de que a população finalmente terá um sistema de transporte coletivo moderno após mais de dez anos de espera.

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