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Por Nayara Cristina
A Câmara Municipal de Cuiabá definiu nesta terça-feira, 6 de outubro, o comando do Legislativo para o biênio 2027/2028. Sem adversário na votação e depois de uma disputa que movimentou os bastidores políticos da Capital durante meses, o vereador Ilde Taques (Podemos) foi eleito presidente da Casa com 27 votos, consolidando um acordo que terminou reunindo todos os parlamentares em torno de sua candidatura.
A unanimidade registrada no plenário representa uma mudança expressiva em relação ao cenário construído nas semanas anteriores. Ilde chegou à reta final da disputa sustentado por um grupo de 15 vereadores, apenas um voto acima da maioria necessária de 14. O bloco cresceu, desidratou as alternativas adversárias e, às vésperas da eleição, levou o grupo ligado ao prefeito Abilio Brunini (PL) a desistir de apresentar uma candidatura própria.
Minutos antes da votação, Ilde adotou um discurso de independência institucional e deixou claro que pretende manter diálogo com o Executivo sem transformar o Legislativo em extensão do Palácio Alencastro.
“Não vamos ser um puxadinho da Prefeitura de Cuiabá. Vamos cumprir nossa missão constitucional de fiscalizar os gastos públicos, mas o prefeito Abilio Brunini sempre terá as portas abertas para suas visitas. Todos os seus projetos que forem importantes para Cuiabá”, afirmou.
A declaração estabelece desde já o tom que Ilde pretende imprimir à presidência a partir de janeiro de 2027. O vereador defendeu que Câmara e Prefeitura mantenham uma relação institucional, mas preservando a autonomia constitucional dos dois Poderes.
Segundo ele, os problemas enfrentados pela Capital exigem capacidade de diálogo acima das diferenças políticas. Ilde afirmou que Cuiabá precisa da união dos agentes públicos na busca de soluções, sem que isso retire dos vereadores o dever de fiscalizar contratos, despesas e ações do Executivo.
O discurso ocorre depois de uma eleição interna marcada justamente pela relação entre a Câmara e o prefeito. Durante boa parte da articulação, Abilio trabalhou para tentar manter um grupo politicamente próximo de sua gestão no comando do Legislativo. A primeira alternativa foi a permanência da atual presidente, Paula Calil (PL), mas a tentativa esbarrou nas regras para recondução ao mesmo cargo dentro da legislatura.
Sem conseguir viabilizar a permanência de Paula, o grupo passou a trabalhar com o nome de Dilemário Alencar (União Brasil). No fim de setembro, Paula chegou a retirar sua candidatura e declarar apoio a Dilemário. Naquele momento, o grupo contabilizava 13 vereadores, enquanto Ilde anunciava 15 apoios.
A correlação de forças, entretanto, continuou mudando.
Ilde conseguiu preservar seu núcleo político, recebeu novas adesões e chegou aos últimos dias com vantagem suficiente para tornar cada vez mais difícil a formação de uma chapa competitiva contra ele. Entre as adesões que tiveram peso na construção da maioria esteve a da vereadora Baixinha Giraldelli (Solidariedade). Também houve movimentações de parlamentares que inicialmente estavam em outros grupos e depois passaram a integrar a articulação de Ilde.
Na segunda-feira, 5 de outubro, véspera da eleição, o próprio Abilio reconheceu publicamente que Ilde seria o próximo presidente da Câmara. Após reunião com vereadores de sua base, o prefeito liberou os parlamentares para votar individualmente e o grupo desistiu de apresentar um adversário.
Com isso, uma disputa que durante semanas dividiu a Câmara terminou em chapa única e, nesta terça-feira, em votação unânime.
Durante seu pronunciamento, Ilde fez questão de agradecer especialmente aos vereadores que permaneceram no grupo quando o resultado ainda estava indefinido.
“Os vereadores que estiveram comigo jamais vão esquecer cada gesto de lealdade e compromisso. Nada vai pagar essa história que construímos juntos. Os colegas que estavam em lados opostos e vieram somar, obrigado pela confiança. Os outros que não vieram, respeito à democracia”, declarou.
O novo presidente também fez agradecimento ao deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa, Max Russi (Podemos), a quem atribuiu importância em sua trajetória política.
A presença de Max nos bastidores da sucessão da Câmara foi mencionada ao longo da disputa. O próprio Abilio chegou a comentar publicamente a relação política entre os dois, embora tenha afirmado que considerava a candidatura de Ilde um projeto construído pelo próprio vereador e pelo grupo de parlamentares que o acompanhava.
A trajetória de Ilde até o comando da Câmara também chama atenção pelo espaço de tempo. Ele foi eleito vereador de Cuiabá em 2024 com 4.731 votos, quando ainda estava filiado ao PSB, sendo o sexto candidato mais votado naquele pleito. Posteriormente, passou ao Podemos. Agora, dois anos depois daquela eleição, conquista a presidência do Legislativo municipal para a segunda metade da atual legislatura.
A composição que vinha sendo construída pelo grupo de Ilde tinha Eduardo Magalhães (Republicanos) como vice-presidente, Adevair Cabral (Solidariedade) na 1ª Secretaria, Michelly Alencar (União Brasil) na 2ª Secretaria e Maria Avalone (PSDB) na 2ª Vice-Presidência. O desenho reuniu parlamentares de diferentes partidos e foi decisivo para ampliar o arco de sustentação da candidatura.
A eleição desta terça encerra uma das mais longas disputas internas da atual legislatura. Em diferentes momentos, Paula Calil, Dilemário Alencar e até outros vereadores foram colocados como alternativas para o comando da Casa, enquanto decisões judiciais e discussões sobre o Regimento Interno interferiram diretamente nas articulações.
Ilde assume efetivamente a Presidência em 1º de janeiro de 2027 e terá pela frente uma Câmara formada por 27 vereadores, responsável por votar projetos estratégicos da Prefeitura, orçamento municipal, alterações tributárias, créditos, empréstimos e demais matérias de interesse da administração, além de exercer a fiscalização do Executivo.
A relação com Abilio, portanto, será uma das primeiras provas políticas da nova Mesa Diretora.
Depois de meses de enfrentamentos e articulações, o resultado produziu uma fotografia diferente daquela projetada no início da disputa: o candidato que começou a reta final com 15 apoios terminou eleito com os 27 votos da Câmara.
E Ilde utilizou justamente seu primeiro discurso como presidente eleito para estabelecer a fronteira que pretende preservar a partir de 2027: diálogo com o prefeito, aprovação de projetos considerados importantes para Cuiabá, mas com a promessa pública de que o Legislativo não será um “puxadinho” da Prefeitura.