MERCADO PÓS-ELEIÇÃO

Bolsa volta a despencar, perde 174 mil pontos e juros sobem com temor fiscal após reeleição de Lula

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Bolsa volta a despencar, perde 174 mil pontos e juros sobem com temor fiscal após reeleição de Lula

JBNews

Por José Teixeira

Ibovespa recua 1,54% nesta quarta-feira, enquanto investidores acompanham as contas públicas e aguardam decisões econômicas; instabilidade ameaça encarecer crédito, investimentos e custos de produção em Mato Grosso.

O mercado financeiro brasileiro voltou a registrar forte instabilidade na manhã desta quarta-feira (28 de outubro de 2026), três dias após o segundo turno das eleições presidenciais que confirmou a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Depois de uma recuperação parcial na terça-feira (27), a Bolsa de Valores voltou a cair, perdeu o patamar dos 174 mil pontos e os juros futuros apresentaram nova pressão de alta, refletindo a cautela dos investidores diante das perspectivas fiscais e econômicas do país.

Por volta das 9h27, no horário de Mato Grosso, o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, registrava queda de 1,54%, aos 173.007 pontos, renovando a mínima do pregão até aquele momento. O resultado representava uma perda acumulada de aproximadamente 15,6% em relação aos 205.082 pontos registrados na sexta-feira (23), último pregão antes da eleição presidencial.

O movimento amplia o cenário de volatilidade iniciado na segunda-feira (26), quando os investidores reagiram ao resultado das urnas com uma forte desvalorização das ações brasileiras e uma disparada do dólar.

Na primeira sessão após a votação, a Bolsa havia recuado 13,88%, enquanto a moeda norte-americana avançou cerca de 8,2%, em uma das reações mais intensas do mercado financeiro no período pós-eleitoral.

Na terça-feira, houve uma correção parcial dessas perdas, com recuo do dólar e recuperação moderada de ativos financeiros. Entretanto, a nova queda registrada nesta quarta-feira demonstra que o ambiente de incerteza permanece e que a estabilização dos preços ainda não está consolidada.

Apesar da pressão sobre a Bolsa, o dólar apresentava comportamento diferente. Durante a manhã, a moeda norte-americana era negociada na faixa de R$ 5,32, abaixo do fechamento de R$ 5,3506 registrado na terça-feira.

O recuo cambial, porém, não representa o retorno às condições anteriores ao segundo turno. Na sexta-feira (23), o dólar estava próximo de R$ 4,989, patamar significativamente inferior ao observado nesta quarta-feira.

A diferença mantém o câmbio em nível elevado para empresas e produtores que dependem da importação de máquinas, equipamentos, fertilizantes, defensivos agrícolas e componentes industriais.

Outro indicador acompanhado com atenção pelos investidores é a trajetória dos juros futuros, que voltaram a apresentar elevação na abertura do mercado.

Por volta das 8h19, no horário de Cuiabá, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2029 era negociado a 14,86% ao ano, com avanço de 0,12 ponto percentual. O contrato para janeiro de 2031 alcançava 14,99%, alta de 0,14 ponto percentual.

Essas taxas representam expectativas e preços negociados no mercado financeiro para diferentes vencimentos. Embora não correspondam diretamente à taxa Selic nem aos juros efetivamente cobrados pelos bancos, influenciam o custo de financiamento de empresas, investimentos e operações de crédito de longo prazo.

A combinação de queda da Bolsa e elevação dos juros futuros evidencia a preocupação dos agentes financeiros com a capacidade do governo de administrar as despesas públicas, controlar o crescimento da dívida e estabelecer uma política econômica capaz de transmitir previsibilidade ao mercado.

Entre os fatores que alimentam a cautela estão as expectativas relacionadas à composição da equipe econômica, à condução do orçamento federal, ao comportamento das despesas obrigatórias e às medidas que poderão ser adotadas no novo mandato presidencial.

A preocupação fiscal não significa, isoladamente, que haverá deterioração efetiva das contas públicas. O movimento reflete a percepção de risco dos investidores diante de informações ainda insuficientes para definir a trajetória futura da economia.

O cenário internacional também exerce influência sobre o comportamento dos ativos brasileiros. Nesta quarta-feira, investidores acompanhavam a expectativa em torno da decisão de juros do Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, além das oscilações do petróleo e do fluxo de capitais estrangeiros.

Uma política monetária norte-americana mais restritiva pode tornar os ativos dos Estados Unidos relativamente mais atraentes e reduzir o interesse por investimentos em países emergentes, como o Brasil.

O movimento de investidores estrangeiros também chama atenção. Dados atribuídos à B3 indicaram uma retirada de aproximadamente R$ 2,8 bilhões por estrangeiros no pregão seguinte ao segundo turno, acompanhada de forte procura por proteção cambial no mercado futuro.

Essas movimentações podem intensificar a volatilidade dos preços, principalmente quando investidores reduzem rapidamente posições em ações e outros ativos brasileiros.

Para Mato Grosso, a instabilidade financeira nacional possui consequências que ultrapassam o comportamento da Bolsa e alcançam diretamente setores estratégicos da economia estadual.

O agronegócio, principal motor econômico mato-grossense, é particularmente sensível às oscilações cambiais e ao custo do crédito, uma vez que parte significativa da produção depende de financiamentos, equipamentos e insumos comercializados com referência em moeda estrangeira.

Produtores de soja, milho e algodão podem se beneficiar de um dólar mais elevado quando recebem receitas de exportação denominadas na moeda norte-americana. Entretanto, a valorização cambial também aumenta o custo potencial de fertilizantes, defensivos e máquinas importadas.

O resultado financeiro depende do momento em que os insumos foram adquiridos, das condições de financiamento, dos contratos de comercialização e das operações de proteção cambial realizadas pelos produtores.

A elevação dos juros futuros representa outro fator de preocupação para o campo. A produção agropecuária exige recursos para custeio, aquisição de máquinas, ampliação de armazéns, irrigação e investimentos em tecnologia.

Quando as condições financeiras ficam mais restritivas, operações de crédito contratadas a taxas de mercado podem se tornar mais caras, reduzindo a margem disponível para investimentos e expansão das atividades.

O efeito não é uniforme, pois parte dos financiamentos rurais utiliza linhas oficiais com condições específicas. Ainda assim, a trajetória dos juros influencia a disponibilidade e o preço dos recursos livres utilizados no financiamento da produção.

Além do agronegócio, a construção civil e o setor imobiliário podem enfrentar dificuldades em um ambiente de crédito elevado.

Empreendimentos residenciais, comerciais e industriais dependem de financiamentos de médio e longo prazo, e o aumento do custo do dinheiro pode comprometer a viabilidade econômica de novos projetos.

Em Cuiabá, Várzea Grande, Sinop, Sorriso, Lucas do Rio Verde e Rondonópolis, municípios que concentram investimentos imobiliários, industriais e logísticos, a persistência dos juros elevados pode influenciar decisões de expansão empresarial e aquisição de imóveis.

O setor de transportes também está exposto às oscilações econômicas. Empresas responsáveis pelo escoamento da produção agrícola precisam investir em caminhões, implementos rodoviários, manutenção e renovação de frotas, atividades que podem ser afetadas tanto pelo câmbio quanto pelas condições de financiamento.

Projetos de infraestrutura, incluindo rodovias, ferrovias, terminais de transbordo e estruturas de armazenagem, também podem sofrer pressão financeira quando dependem de capital privado ou da aquisição de equipamentos importados.

No comércio e nos serviços, a manutenção de juros elevados tende a dificultar o acesso ao crédito, aumentar o custo do capital de giro e restringir a capacidade de consumo de famílias que dependem de financiamentos.

O impacto sobre os preços ao consumidor, entretanto, dependerá da duração das oscilações cambiais, dos estoques existentes, das condições de concorrência e das decisões de política monetária.

A nova queda do Ibovespa também não significa, por si só, uma redução imediata da atividade econômica ou do emprego. Os indicadores financeiros antecipam expectativas e podem apresentar oscilações intensas sem que todos os movimentos se convertam em efeitos proporcionais sobre a economia real.

O que preocupa investidores e empresários é a possibilidade de a instabilidade se prolongar, afetando o planejamento financeiro, a confiança e as decisões de investimento.

O comportamento desta quarta-feira mostra que a recuperação parcial registrada na véspera ainda não foi suficiente para neutralizar o choque inicial provocado pela reação do mercado ao resultado eleitoral.

Para Mato Grosso, a combinação de câmbio elevado, juros pressionados e incertezas fiscais exige atenção especial, sobretudo em uma economia fortemente dependente das exportações agropecuárias, do transporte rodoviário e de investimentos de longo prazo.

Os números apresentados correspondem às negociações da manhã desta quarta-feira e ainda poderão sofrer alterações até o encerramento do pregão. A evolução dos mercados nos próximos dias dependerá das sinalizações econômicas do governo, das decisões de política monetária e da disposição dos investidores em retomar posições em ativos brasileiros.