TURBULÊNCIA NO MERCADO

Dólar recua nesta terça-feira após disparada histórica, mas mercado mantém preocupação com futuro da economia brasileira

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Dólar recua nesta terça-feira após disparada histórica, mas mercado mantém preocupação com futuro da economia brasileira

Por JB News | Economia | Terça-feira, 27 de outubro de 2026

Por José Teixeira

O dólar encerrou esta terça-feira (27) em queda diante do real, depois de protagonizar uma disparada histórica no primeiro pregão após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A moeda norte-americana recuou para a faixa de R$ 5,35, em um movimento de correção dos ganhos registrados na segunda-feira (26), quando avançou mais de 8% e provocou forte turbulência no mercado financeiro brasileiro. Apesar do alívio no câmbio, investidores continuam atentos às perspectivas fiscais do próximo mandato presidencial, à composição da equipe econômica e à decisão sobre os juros nos Estados Unidos.

Conforme os números divulgados pelo Money Times no material que circulou nesta terça-feira, o dólar registrou desvalorização de 0,97%, encerrando a sessão cotado a R$ 5,3506. Outras plataformas apresentaram pequenas diferenças na consolidação dos negócios. A Reuters, por exemplo, informou fechamento de R$ 5,3488, com recuo de 1,07%. A divergência decorre das diferentes referências utilizadas pelas plataformas de mercado, mas os levantamentos apontam a mesma tendência: a moeda americana devolveu apenas uma pequena parcela da valorização extraordinária observada no dia anterior.

A segunda-feira foi marcada por uma das reações mais intensas do mercado financeiro brasileiro nas últimas décadas. Após a confirmação da vitória de Lula sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais, realizado no domingo (25), investidores promoveram uma ampla reorganização de suas posições financeiras. Parte significativa dos agentes do mercado havia apostado na vitória da oposição, especialmente depois do resultado do primeiro turno, e precisou rever suas estratégias diante do resultado das urnas.

A mudança repentina de expectativas provocou uma corrida pela moeda americana e uma forte onda de vendas de ações brasileiras. Segundo a Agência Brasil, o dólar encerrou a segunda-feira em alta de 8,21%, cotado a aproximadamente R$ 5,40, registrando sua maior valorização percentual diária desde janeiro de 1999. Durante as negociações, chegou a ultrapassar R$ 5,60, evidenciando a intensidade da procura pela moeda estrangeira.

A turbulência também atingiu a Bolsa de Valores de São Paulo. O Ibovespa, principal índice do mercado acionário brasileiro, despencou 13,88%, encerrando o pregão aos 176.608 pontos. Durante a manhã, as perdas chegaram a superar 17%, levando a B3 a acionar o chamado circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações para conter movimentos extremos de desvalorização. Foi a primeira vez que a medida precisou ser utilizada desde março de 2020, quando a pandemia de Covid-19 provocou uma crise nos mercados globais.

A intensidade do movimento refletiu não apenas a surpresa eleitoral, mas também as preocupações dos investidores com a trajetória das contas públicas brasileiras. O mercado busca compreender como o governo pretende conciliar compromissos sociais, expansão de programas públicos, crescimento econômico e controle do endividamento federal durante o próximo mandato. O receio predominante entre analistas é de que uma política fiscal mais expansionista, sem fontes claras de financiamento, possa aumentar a dívida pública, pressionar a inflação e dificultar a redução dos juros.

Esse cenário ajuda a explicar por que o dólar disparou mesmo sem uma mudança imediata nos fundamentos da economia brasileira. O mercado financeiro trabalha principalmente com expectativas. Quando investidores passam a enxergar maior possibilidade de desequilíbrio fiscal ou de deterioração das condições econômicas futuras, tendem a exigir retornos mais elevados para manter recursos aplicados no país. Em determinadas circunstâncias, também procuram proteção em moedas consideradas mais seguras, como o dólar.

A reação inicial, entretanto, não significa que toda a valorização da moeda americana esteja sustentada por mudanças efetivas na economia. Parte da disparada ocorreu pela necessidade de desfazer posições financeiras montadas antes das eleições. Depois de um movimento tão expressivo, operadores também aproveitam os preços mais elevados para realizar lucros, o que contribui para a queda observada nesta terça-feira.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, procurou transmitir uma mensagem de tranquilidade ao mercado durante a manhã. Ele reafirmou o compromisso do governo com a busca pelo centro da meta fiscal e declarou que medidas nessa direção deverão ser discutidas com o Congresso Nacional. O ministro também atribuiu parte da turbulência ao reposicionamento de investidores que apostavam na vitória de outro candidato.

As declarações contribuíram para o debate sobre a orientação econômica do próximo governo, mas ainda não eliminaram as incertezas. O mercado aguarda principalmente a definição dos integrantes da equipe econômica e a apresentação de medidas concretas para controlar despesas, administrar o endividamento público e assegurar previsibilidade às contas federais.

Entre os nomes mencionados nas articulações políticas para o Ministério da Fazenda está o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT). Entretanto, as especulações sobre a composição ministerial não representam uma confirmação de nomeação. A escolha da equipe econômica é considerada um dos principais fatores capazes de influenciar o comportamento do câmbio, dos juros futuros e da Bolsa nas próximas semanas.

A preocupação fiscal ganhou força porque a trajetória da dívida pública brasileira depende de uma combinação de crescimento econômico, arrecadação, despesas governamentais e custo dos juros. Quando aumenta a percepção de que o governo terá dificuldades para estabilizar o endividamento, os investidores podem exigir juros maiores para financiar a dívida federal. Esse movimento encarece o crédito para empresas e consumidores e pode comprometer investimentos produtivos.

A turbulência levou o Tesouro Nacional a atuar no mercado de títulos públicos. Na segunda-feira, o órgão realizou operações de recompra destinadas a reduzir distorções nos preços dos papéis negociados. Nesta terça-feira, voltou a adotar medidas para melhorar o funcionamento do mercado, incluindo operações envolvendo títulos indexados à inflação e o cancelamento de leilão de títulos atrelados à Selic.

Essas operações buscam preservar a liquidez e o funcionamento regular do mercado de dívida pública em momentos de oscilação excepcional. Não representam, por si só, uma solução para as dúvidas sobre a política fiscal, mas podem impedir que movimentos de venda desordenados produzam distorções ainda maiores.

No mercado de juros futuros, o comportamento também foi de acomodação. Contratos que haviam registrado fortes altas na segunda-feira passaram por correção nesta terça-feira. Segundo dados divulgados pela Folha de S.Paulo, a taxa projetada para janeiro de 2028 recuava para aproximadamente 14,34% ao ano, enquanto a de janeiro de 2031 se situava perto de 14,88%. Apesar da queda, os níveis continuavam elevados, demonstrando que a percepção de risco ainda não havia retornado ao patamar anterior às eleições.

Na Bolsa, o quadro permaneceu mais delicado. Depois de ensaiar recuperação durante o pregão, o Ibovespa perdeu força e encerrou a terça-feira com queda de aproximadamente 0,50%, aos 175.710 pontos. O resultado mostrou que o recuo do dólar não foi suficiente para restabelecer a confiança dos investidores no mercado acionário. A pressão sobre ações de grandes companhias, incluindo a Petrobras, contribuiu para manter o índice em terreno negativo.

Além das questões internas, os investidores brasileiros acompanham um fator decisivo para o comportamento das moedas internacionais: a política monetária dos Estados Unidos. O Federal Reserve, banco central americano, iniciou nesta terça-feira uma reunião de dois dias para definir o futuro dos juros da maior economia do mundo, com divulgação da decisão prevista para quarta-feira (28).

A expectativa predominante entre economistas era de manutenção da taxa básica americana no intervalo de 3,75% a 4% ao ano. Uma pesquisa da Reuters realizada antes da reunião mostrou que 94 dos 100 economistas consultados esperavam juros inalterados. A atenção dos investidores, entretanto, está concentrada principalmente nas sinalizações sobre os próximos encontros, diante da persistência das pressões inflacionárias nos Estados Unidos.

Juros elevados na economia americana tornam os títulos públicos dos Estados Unidos mais atrativos para investidores internacionais. Como esses papéis são considerados de baixo risco de crédito, a remuneração oferecida pode estimular a transferência de recursos de países emergentes para o mercado americano. Para o Brasil, esse movimento representa uma fonte adicional de pressão sobre o real, especialmente em momentos de instabilidade política ou preocupação fiscal.

Caso o Federal Reserve indique a necessidade de manter uma política monetária restritiva por mais tempo, o dólar poderá encontrar sustentação no mercado internacional. Por outro lado, uma comunicação menos rigorosa sobre os juros futuros poderá favorecer moedas de países emergentes, embora o comportamento da moeda brasileira continue dependendo das condições econômicas domésticas.

A valorização do dólar também produz consequências que ultrapassam o mercado financeiro. Uma moeda americana mais cara aumenta os custos em reais de produtos importados, componentes industriais, equipamentos, medicamentos, fertilizantes e diversos insumos utilizados na produção brasileira. Embora os efeitos não apareçam integralmente de imediato, uma desvalorização persistente do real pode elevar custos empresariais e pressionar os preços pagos pelos consumidores.

No setor de combustíveis, o câmbio exerce influência relevante porque o petróleo e seus derivados são negociados internacionalmente em dólares. A combinação de moeda americana valorizada e preços internacionais elevados pode aumentar a pressão sobre custos de transporte e logística. O resultado dependerá também da política comercial das empresas, das condições de oferta e demanda e das decisões de preços praticadas no mercado nacional.

O agronegócio brasileiro apresenta efeitos distintos diante da valorização cambial. Exportadores de soja, milho, algodão, carnes e outros produtos podem receber mais reais pelas vendas realizadas em dólares, melhorando suas receitas quando convertidas para a moeda nacional. Entretanto, produtores que dependem de fertilizantes, defensivos, máquinas e equipamentos importados também enfrentam elevação de custos. Por isso, o impacto efetivo varia conforme a atividade, o momento de contratação das operações e a estrutura de despesas de cada propriedade rural.

Para a população, o principal risco de uma desvalorização prolongada do real é a transmissão gradual da pressão cambial para a inflação. Se os custos de produção e distribuição aumentarem, parte dessas despesas poderá ser repassada aos preços finais. Nesse ambiente, o Banco Central brasileiro pode encontrar maiores dificuldades para reduzir a taxa Selic, mantendo financiamentos, empréstimos e operações de crédito mais caros por um período prolongado.

Apesar da reação negativa dos investidores, é importante distinguir a volatilidade financeira de uma deterioração econômica já concretizada. A queda da Bolsa e a alta do dólar refletem avaliações e expectativas sobre acontecimentos futuros. Não representam, isoladamente, a confirmação de uma crise econômica ou a certeza de que a política fiscal do próximo mandato produzirá os resultados temidos pelo mercado.

Da mesma forma, a recuperação parcial observada nesta terça-feira não significa que as preocupações tenham desaparecido. O comportamento dos ativos brasileiros continuará sensível às decisões do governo, à capacidade de negociação com o Congresso Nacional, à condução das despesas públicas e às perspectivas de crescimento econômico.

Os próximos dias serão decisivos para medir a disposição dos investidores em recompor posições no Brasil. A escolha dos ministros, os anúncios sobre responsabilidade fiscal e as sinalizações do Banco Central poderão determinar se o movimento desta terça-feira representa o início de uma estabilização ou apenas uma pausa na turbulência desencadeada pelas eleições.

O resultado do pregão deixa uma mensagem econômica clara: depois de uma reação extraordinariamente negativa à reeleição de Lula, o mercado iniciou um ajuste, mas ainda exige respostas sobre a condução das contas públicas. Enquanto essas respostas não forem apresentadas de maneira concreta, o dólar, os juros e a Bolsa poderão continuar sujeitos a fortes oscilações.

Para a economia brasileira, o desafio central será transformar a incerteza política em previsibilidade econômica, preservando o equilíbrio fiscal, a estabilidade monetária e as condições necessárias para o crescimento sustentável.