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Por Emerson Teixeira
TRIBUNAL DO CRIME
Motorista de aplicativo foi espancada por integrantes de facção criminosa após acusação de furto; crime ocorreu em 2020 e dois envolvidos já foram condenados a penas que somam 53 anos
Mais de seis anos após o assassinato brutal da motorista de aplicativo Natana da Silva, de 30 anos, acusada de furtar um aparelho celular e submetida a uma sessão de tortura com aproximadamente 70 choques elétricos, um dos acusados de participação no crime tem julgamento marcado para esta quarta-feira (14), às 13h30, no Fórum de Cuiabá. O homicídio ocorreu em 23 de julho de 2020, no bairro Pedregal, e foi atribuído pela Polícia Civil a integrantes de uma facção criminosa que atuava na capital.
O acusado, identificado pelas iniciais G.Í.S.C., é apontado nas investigações como Gabriel Ítalo da Silva Costa, conhecido pelo apelido de “Torto”. Ele foi investigado pela Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) por suposta participação no assassinato, que ganhou repercussão pela violência empregada contra a vítima.
Segundo a investigação, Natana foi capturada por criminosos e levada para uma edícula localizada nas proximidades de um lava-jato, na região entre os bairros Pedregal e Jardim Leblon. No imóvel, ela teria sido submetida a um ritual de espancamentos e descargas elétricas, prática conhecida no meio criminoso como “salve”.
O exame de necropsia apontou que a motorista sofreu aproximadamente 70 choques elétricos, além de agressões físicas que provocaram ferimentos graves.
Mesmo depois da violência, Natana conseguiu chegar a uma rua próxima ao Jardim Renascer, onde pediu ajuda em uma residência. Bastante debilitada, foi socorrida por familiares e encaminhada a um hospital particular de Cuiabá.
A equipe médica tentou reanimá-la, mas a motorista não resistiu à gravidade das lesões e morreu após dar entrada na unidade hospitalar.
As investigações apontaram que a ordem para a agressão partiu de integrantes de uma organização criminosa que acusavam a vítima de ter furtado um telefone celular.
Durante a apuração, também surgiram informações de que Natana estaria supostamente envolvida em pequenos golpes financeiros, mas o delegado Caio Fernando Álvares Albuquerque, responsável pelo inquérito, esclareceu à época que não havia elementos para classificá-la como integrante da facção.
A Polícia Civil identificou suspeitos de participação na tortura e no assassinato. Parte deles utilizava tornozeleira eletrônica, o que auxiliou os investigadores na reconstrução dos deslocamentos e na identificação de pessoas presentes na região do crime.
Outro detalhe apurado foi a retirada de câmeras de monitoramento instaladas nas proximidades do local onde a vítima foi agredida. Segundo a investigação, a medida teria sido adotada pelos envolvidos para dificultar a identificação dos autores.
Em dezembro de 2021, a Delegacia de Homicídios deflagrou uma fase da Operação Comando da Lei para cumprir mandados judiciais relacionados ao assassinato. Na ocasião, três pessoas foram presas em bairros de Cuiabá, um mandado foi cumprido na Penitenciária Central do Estado e outro investigado permanecia foragido.
Ao longo da investigação, três suspeitos foram indiciados como autores do homicídio qualificado e denunciados pelo Ministério Público de Mato Grosso.
O caso já resultou na condenação de dois envolvidos em julgamento realizado anteriormente no Tribunal do Júri de Cuiabá. Um deles recebeu pena de 25 anos de prisão e o outro foi condenado a 28 anos de reclusão, totalizando 53 anos.
A situação processual de Gabriel Ítalo teve um desdobramento diferente. Em uma etapa anterior, a acusação contra ele não havia sido admitida para julgamento popular, decisão contestada pelo Ministério Público.
Agora, conforme a programação divulgada pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso, um acusado identificado pelas iniciais G.Í.S.C. tem sessão do Tribunal do Júri prevista para a tarde desta quarta-feira (14).
O julgamento deverá examinar a responsabilidade criminal atribuída ao réu, com apresentação dos argumentos da acusação e da defesa perante o Conselho de Sentença.
O assassinato de Natana expôs a atuação de grupos criminosos que impõem punições violentas a pessoas acusadas de descumprir regras estabelecidas pelas próprias organizações, sem qualquer autoridade legal para julgar ou punir.
A motorista foi morta após sofrer agressões e descargas elétricas, em um crime que mobilizou investigações da Polícia Civil e provocou sucessivos desdobramentos judiciais.
Seis anos depois, o processo permanece como um dos casos de violência atribuída a facções criminosas submetidos à apreciação da Justiça mato-grossense.