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Por Nayara Cristina
A decisão do prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini (PL), de não subir no palanque, não pedir votos e nem votar em Wellington Fagundes representa um dos movimentos políticos mais contundentes da disputa pelo Governo de Mato Grosso em 2026. Durante entrevista coletiva concedida nesta quarta-feira, Abílio afirmou que não acredita no projeto político construído pelo senador porque, segundo ele, a composição reúne justamente lideranças que foram derrotadas pelo eleitorado nas eleições municipais de 2024 e agora tentam retornar ao centro do poder estadual.
Ao justificar sua posição, o prefeito foi categórico ao afirmar que não pretende caminhar ao lado do MDB, do grupo político ligado à deputada Janaína Riva, de Jayme Campos e de antigos adversários enfrentados pelo PL nas principais disputas municipais. Na avaliação de Abílio, trata-se da reorganização de uma classe política que, segundo ele, perdeu espaço nas prefeituras e agora busca uma nova oportunidade por meio da eleição estadual.
“Essa classe política está se reunindo através de uma máscara de direita para tentar voltar ao poder. Não tem meu apoio nesse projeto. Não estou com o MDB, não estou com Jayme Campos, não estou com o grupo Riva e não vou participar desse projeto”, declarou.
O prefeito também afirmou que não fará campanha para Wellington Fagundes, não pedirá votos para o senador e tampouco votará nele. Segundo Abílio, sua posição não configura infidelidade partidária, já que a legislação impede que ele peça votos para um candidato de outro partido, mas não o obriga a fazer campanha para o candidato do próprio PL. Ele revelou que tratou do assunto diretamente com o presidente nacional da legenda, Valdemar Costa Neto, e com o senador Flávio Bolsonaro.
Abílio afirmou que concentrará sua atuação eleitoral exclusivamente nas candidaturas de Flávio Bolsonaro à Presidência da República, de José Medeiros ao Senado, dos candidatos proporcionais do PL e, principalmente, na campanha de sua esposa, a deputada estadual Samanta Iris. Também fez questão de deixar claro que permanecerá filiado ao partido e descartou qualquer possibilidade de expulsão da legenda.
As declarações do prefeito ganham ainda mais peso porque refletem um cenário de divisão interna no PL de Mato Grosso. Embora Wellington Fagundes seja o candidato oficial do partido ao Governo do Estado, uma parcela significativa dos prefeitos liberais ainda não declarou apoio público à candidatura. Durante as convenções partidárias, cerca de 18 prefeitos da legenda sequer participaram dos atos políticos, enquanto outros seguem evitando anunciar apoio formal ao projeto estadual, demonstrando que a unificação da base ainda está longe de acontecer.
O discurso de Abílio está diretamente ligado ao resultado das eleições municipais de 2024. Na avaliação do prefeito, o eleitor rejeitou justamente os grupos políticos que hoje integram o palanque de Wellington. O PL conquistou importantes vitórias nas principais cidades de Mato Grosso, consolidando uma das maiores expansões municipais da história da legenda no Estado.
Na Capital, Abílio Brunini derrotou o então presidente da Assembleia Legislativa, Eduardo Botelho (União Brasil), em uma das disputas mais acirradas do Estado. Em Várzea Grande, Flávia Moretti (PL) venceu o então prefeito Kalil Baracat (MDB), encerrando um longo ciclo político no município. Em Rondonópolis, Cláudio Ferreira (PL) derrotou o deputado estadual Thiago Silva (MDB). Durante a entrevista, Abílio lembrou ainda que esses adversários travaram campanhas duras contra os candidatos do PL e afirmou não enxergar coerência em dividir agora o mesmo projeto político.
“O Botelho foi meu adversário, brigou comigo durante toda a campanha. O Kalil disputou contra a Flávia. O Thiago disputou contra o Cláudio em Rondonópolis. Agora querem que todo mundo sente na mesma mesa e faça de conta que nada aconteceu. Eu não faço parte disso”, afirmou.
Outro ponto enfatizado pelo prefeito foi a presença do grupo político liderado por Janaína Riva na composição construída por Wellington. Para Abílio, trata-se de lideranças que representam uma forma de fazer política que, segundo ele, foi rejeitada nas urnas e que agora tenta retornar ao comando do Estado por meio de uma ampla aliança.
Durante a entrevista, o prefeito também fez críticas ao histórico político de grupos que governaram Mato Grosso no passado. Segundo ele, Cuiabá ainda sofre consequências de administrações anteriores, principalmente na área de infraestrutura e mobilidade urbana, e seria incoerente apoiar um projeto que, em sua visão, abre espaço para o retorno dessas forças políticas.
Apesar das críticas, Abílio afirmou que manterá uma relação institucional com qualquer governador eleito em 2026, inclusive se Wellington Fagundes vencer a disputa. Ressaltou, porém, que sua responsabilidade é defender aquilo que considera melhor para Cuiabá e para Mato Grosso, independentemente de acordos partidários.
As declarações ampliam um racha que já vinha sendo observado nos bastidores do PL mato-grossense. Mesmo com a candidatura oficializada de Wellington Fagundes, lideranças importantes da legenda têm adotado postura de cautela ou distanciamento em relação à campanha. A ausência de parte expressiva dos prefeitos nas convenções e a falta de manifestações públicas de apoio evidenciam que a construção da unidade partidária ainda representa um dos maiores desafios do senador.
Com isso, a fala de Abílio deixa de ser apenas uma posição individual e passa a ter forte peso político dentro da legenda. Prefeito da Capital, principal liderança municipal do PL em Mato Grosso e um dos nomes mais influentes da direita no Estado, sua decisão de não participar da campanha de Wellington reforça as dificuldades enfrentadas pelo candidato para consolidar seu palanque e expõe que as feridas deixadas pelas eleições municipais de 2024 continuam abertas, agora refletindo diretamente na disputa pelo Palácio Paiaguás.
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