RESSACA ELEITORAL

Vitória de Lula derruba ativos brasileiros no exterior e mercado teme disparada do dólar e tombo da Bolsa

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Vitória de Lula derruba ativos brasileiros no exterior e mercado teme disparada do dólar e tombo da Bolsa

JBNews

Por José Teixeira

Após resultado do segundo turno, dólar futuro chegou à faixa de R$ 5,55 e fundo de ações brasileiras caiu até 16% no Japão; investidores aguardam sinais sobre contas públicas, juros e política econômica do quarto mandato

A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no segundo turno realizado neste domingo (25 de outubro de 2026), provocou uma forte reação nos mercados financeiros internacionais e colocou investidores em estado de alerta para a abertura da Bolsa brasileira nesta segunda-feira (26). Antes mesmo do início das negociações regulares na B3, o dólar apresentava forte valorização em operações com derivativos no exterior, enquanto fundos que acompanham ações brasileiras registravam perdas expressivas.

Segundo informações divulgadas pela Bloomberg Línea na manhã desta segunda-feira, um fundo negociado no Japão que acompanha o desempenho de ações brasileiras chegou a registrar queda intradiária de 16%, o maior recuo desde 2020. No mercado de derivativos cambiais de Chicago, as negociações indicavam o dólar próximo de R$ 5,55, sinalizando uma desvalorização superior a 10% do real em comparação com o fechamento da sexta-feira (23).

Esses movimentos, entretanto, ocorreram fora do mercado brasileiro e não representam, necessariamente, as cotações que serão registradas durante o pregão regular da B3. A dimensão efetiva da reação dependerá das negociações realizadas no Brasil ao longo desta segunda-feira.

A pressão começou ainda na noite de domingo, quando os investidores passaram a ajustar suas posições após a confirmação da vitória de Lula sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL).

Durante as semanas anteriores à eleição, parte significativa do mercado financeiro havia construído posições baseadas na expectativa de vitória do candidato do PL, associando esse cenário à possibilidade de mudanças na condução da política fiscal e econômica.

Com a reeleição do presidente, investidores iniciaram a reversão dessas apostas, provocando movimentos de venda de ativos brasileiros e procura por proteção cambial.

Uma pesquisa realizada pelo Citigroup com 73 investidores, divulgada antes da votação, mostrou que a maioria dos participantes esperava uma desvalorização de pelo menos 5% do real caso Lula fosse reeleito.

O levantamento também apontou a expectativa de elevação das taxas de juros negociadas no mercado futuro, refletindo a percepção de maior risco em relação à trajetória das contas públicas.

A corretora Monte Bravo chegou a trabalhar, antes da abertura, com um cenário de queda de aproximadamente 11% do Ibovespa na primeira hora de negociação em caso de vitória do presidente.

As estimativas não constituem resultados confirmados do pregão, mas demonstram a intensidade do ajuste que vinha sendo considerado pelos participantes do mercado.

A preocupação também alcançou a possibilidade de acionamento do chamado circuit breaker, mecanismo de segurança utilizado pela B3 para interromper temporariamente as negociações em situações de queda acentuada do principal índice da Bolsa.

Pelas regras aplicáveis, uma queda de 10% do Ibovespa em relação ao fechamento anterior pode provocar a suspensão das negociações por 30 minutos. Caso o recuo avance para 15% depois da retomada, poderá ocorrer uma nova interrupção, desta vez por uma hora.

Até a divulgação das primeiras avaliações nesta manhã, o acionamento do mecanismo era tratado como possibilidade pelos analistas, e não como fato consumado.

A reação negativa observada no exterior está relacionada principalmente às dúvidas dos investidores sobre a condução da política fiscal no próximo mandato presidencial, que terá início em janeiro de 2027.

Entre os pontos de maior atenção estão a evolução da dívida pública, o controle das despesas federais, as metas fiscais, a política de arrecadação e as medidas que poderão ser adotadas para equilibrar as contas do Governo Federal.

A composição da equipe econômica e a relação do Executivo com o Congresso Nacional também deverão influenciar a avaliação de risco dos investidores.

A percepção de aumento do risco fiscal costuma provocar elevação dos juros exigidos pelos compradores de títulos públicos. Esse movimento pode afetar o custo de financiamento do Governo e também as condições de crédito oferecidas a empresas e consumidores.

No mercado cambial, a busca por dólares pode elevar a cotação da moeda americana, especialmente quando investidores estrangeiros reduzem posições em ativos brasileiros ou ampliam operações de proteção.

Para as empresas brasileiras, os efeitos não são uniformes. Companhias exportadoras podem obter receitas maiores em reais quando o dólar sobe, enquanto setores dependentes de produtos importados enfrentam aumento de custos.

O comportamento da Bolsa também dependerá das características de cada empresa, de seu nível de endividamento, da exposição ao câmbio e das perspectivas de crescimento econômico.

A volatilidade inicial poderá ser influenciada ainda pela liquidez das negociações, pelas operações de investidores estrangeiros e pelas declarações de autoridades econômicas ao longo da semana.

Embora a reação inicial dos mercados internacionais tenha sido negativa, especialistas ressaltam que os efeitos de médio prazo dependerão das decisões efetivamente tomadas pelo governo.

Uma sinalização considerada consistente sobre responsabilidade fiscal poderá modificar as expectativas, enquanto dúvidas persistentes sobre gastos, dívida e financiamento público poderão manter a pressão sobre câmbio e juros.

O primeiro teste ocorrerá com a abertura do mercado brasileiro nesta segunda-feira, quando os preços negociados na B3 permitirão medir com maior precisão a reação dos investidores ao resultado eleitoral.

Além da cotação do dólar e da variação do Ibovespa, será necessário acompanhar os contratos de juros futuros, os títulos públicos e o desempenho das ações de bancos, empresas estatais, exportadoras e companhias voltadas ao mercado interno.

O resultado do primeiro pregão também não será suficiente, isoladamente, para determinar a trajetória da economia brasileira durante os próximos quatro anos.

A semana deverá ser marcada por reavaliações das expectativas, acompanhamento dos indicadores econômicos e atenção às primeiras manifestações do governo reeleito sobre as prioridades do novo mandato.

Para os investidores, o desafio será distinguir o ajuste imediato provocado pelo resultado eleitoral das mudanças mais duradouras que poderão ocorrer na política econômica.

Para o Brasil, a principal questão será verificar se o Governo Federal conseguirá apresentar uma perspectiva fiscal capaz de reduzir as incertezas e estabilizar as expectativas sobre juros, câmbio e crescimento econômico.

A abertura dos mercados nesta segunda-feira deverá indicar a intensidade inicial da reação, mas o comportamento das próximas sessões dependerá das informações econômicas e políticas que surgirem após a eleição.