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Por Nayara Cristina
De São Paulo Guilherme Padilha
A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Instituto Mauá de Tecnologia (IMT), em São Caetano do Sul (SP), nesta segunda-feira (13), marcou o início de uma nova etapa da política brasileira de biocombustíveis e reforçou o compromisso do Governo Federal com a implementação da Lei Combustível do Futuro. Ao acompanhar o início dos testes de longa duração que avaliarão misturas mais elevadas de biodiesel ao diesel, o presidente defendeu que o Brasil reúne todas as condições para assumir protagonismo mundial na transição energética e reduzir sua dependência dos combustíveis fósseis.
A agenda reuniu representantes do governo federal, pesquisadores, integrantes da cadeia produtiva, fabricantes, especialistas e entidades ligadas ao setor energético no laboratório responsável pelos estudos conduzidos pelo Subcomitê de Avaliação da Viabilidade Técnica de Misturas de Altos Teores de Biocombustíveis em Combustíveis Fósseis, criado pelo Ministério de Minas e Energia. A Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (APROBIO) participa das discussões técnicas como colaboradora do projeto.
Durante a visita, Lula acompanhou o início dos chamados testes de 300 horas, considerados uma das etapas mais importantes para definir o futuro da ampliação da mistura obrigatória do biodiesel no diesel comercializado no Brasil. Atualmente, o percentual obrigatório é de 15%, mas os estudos irão avaliar o comportamento de motores operando com misturas que variam de 16% até 25%, fornecendo a base técnica necessária para futuras decisões do governo federal.
Ao falar sobre a importância dos ensaios, o presidente afirmou que o Brasil possui todas as condições para liderar uma nova fase da política energética mundial.
“Vim aqui para ver os testes com porcentagens mais altas de biodiesel. Vamos provar que o que produzimos aqui tem qualidade, segurança e que pode fazer o Brasil depender muito menos de condições externas, e liderar o mundo rumo a um novo cenário energético”, declarou Lula.
Na sequência, o presidente reforçou que a capacidade agrícola, tecnológica e industrial brasileira coloca o país em posição privilegiada para se tornar referência internacional na produção de combustíveis renováveis.
“O nosso país tem todas as condições necessárias para ser protagonista na transição energética, e os estudos que estamos realizando aqui vão comprovar isso”, acrescentou.
Os testes iniciados nesta segunda-feira vão muito além de uma avaliação laboratorial. Durante aproximadamente 300 horas de funcionamento contínuo, pesquisadores irão analisar o desempenho dos motores submetidos a percentuais maiores de biodiesel, verificando potência, consumo de combustível, resistência mecânica, durabilidade dos componentes, funcionamento dos sistemas de injeção, filtros, bombas de combustível, emissão de poluentes e comportamento geral dos equipamentos após longos períodos de utilização.
Essas informações servirão como base científica para que o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) e o Governo Federal decidam, com segurança técnica, o cronograma de ampliação da mistura obrigatória prevista na Lei Combustível do Futuro.
Para o presidente da APROBIO, Jerônimo Goergen, a presença do presidente da República representa o reconhecimento da importância estratégica do biodiesel para o desenvolvimento do país.
“Nosso compromisso com toda a cadeia produtiva e com os consumidores sempre foi garantir que cada avanço fosse respaldado por critérios técnicos. Essa etapa foi cumprida. Encerramos um ciclo importante e agora iniciamos uma nova fase de consolidação, com os testes de longa duração que darão ainda mais segurança para o avanço da mistura.”
Segundo Goergen, a participação de Lula demonstra que o Governo Federal enxerga o biodiesel como uma das principais ferramentas para fortalecer a segurança energética brasileira, estimular o desenvolvimento econômico e acelerar a transição para uma economia de baixo carbono.
A visita presidencial acontece em um momento considerado extremamente favorável para o setor. Na última semana, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) aprovou mudanças em sua regulamentação para adequar as normas à Lei Combustível do Futuro. As alterações ampliam a segurança jurídica para a expansão do mercado de combustíveis renováveis e criam condições para o crescimento do uso voluntário de biodiesel em diferentes segmentos da economia.
Na avaliação da APROBIO, a conclusão das etapas técnicas já realizadas, o início dos testes de longa duração e o aperfeiçoamento do marco regulatório criam um ambiente altamente favorável para que o Brasil avance, de forma segura e baseada em evidências científicas, na ampliação da participação do biodiesel em sua matriz energética.
A entidade avalia que esse processo permitirá fortalecer a indústria nacional, reduzir a dependência brasileira do diesel importado e ampliar significativamente a contribuição do país para a descarbonização do transporte rodoviário.
“O setor produtivo e a cadeia do agronegócio estão prontos para avançar nesses objetivos e cumprir seu papel para o desenvolvimento da economia e para a transição energética”, concluiu Jerônimo Goergen.
Além do aspecto energético, especialistas apontam que os impactos econômicos poderão ser expressivos. Cada ponto percentual de aumento na mistura obrigatória representa crescimento da demanda por biodiesel produzido no país, impulsionando investimentos em usinas, esmagadoras de soja, indústrias químicas, empresas de logística, cooperativas agrícolas e transportadoras.
Entre os estados que mais poderão ser beneficiados está Mato Grosso, líder nacional na produção de soja — principal matéria-prima utilizada na fabricação do biodiesel brasileiro. Um eventual avanço da mistura para B16, B20 ou até B25 tende a ampliar o processamento interno da produção agrícola, gerar novos investimentos industriais, fortalecer a arrecadação dos municípios e criar milhares de empregos diretos e indiretos em toda a cadeia do agronegócio.
Outros estados como Goiás, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio Grande do Sul e Bahia também possuem grande potencial de expansão, graças à elevada produção de oleaginosas e à estrutura industrial já instalada para fabricação de biocombustíveis.
Outro efeito esperado é a redução gradual da dependência brasileira do diesel importado. Embora o país seja um dos maiores produtores de petróleo do mundo, ainda precisa importar parte significativa do diesel consumido internamente. O aumento da participação do biodiesel nacional reduz essa vulnerabilidade, melhora a balança comercial e diminui a exposição da economia brasileira às oscilações internacionais do preço do petróleo e às crises geopolíticas.
Sob o ponto de vista ambiental, a ampliação do uso do biodiesel representa uma importante estratégia de redução das emissões de gases de efeito estufa. Por ser produzido a partir de fontes renováveis, o combustível contribui para diminuir a emissão líquida de carbono, fortalece os compromissos assumidos pelo Brasil nas conferências internacionais sobre mudanças climáticas e acelera a transição para uma matriz energética mais limpa e sustentável.
Ao mesmo tempo, os testes de longa duração buscam responder às preocupações levantadas por fabricantes de motores, montadoras e empresas de transporte, que defendem que qualquer ampliação da mistura seja baseada exclusivamente em critérios técnicos. Os estudos deverão comprovar que os motores mantêm desempenho, segurança e durabilidade mesmo utilizando percentuais mais elevados de biodiesel.
Caso os resultados confirmem a viabilidade técnica das novas misturas, o Brasil dará um passo importante para consolidar uma política energética menos dependente dos combustíveis fósseis, fortalecendo sua indústria de biocombustíveis, agregando valor à produção agrícola nacional e posicionando-se entre as principais lideranças mundiais na produção de energia renovável.