JB News
Por Nayara Cristina
Do local Guilherme Augusto
O Governo de Mato Grosso deu nesta terça-feira (30) um dos passos mais ousados da política estadual de enfrentamento à violência contra a mulher. Durante cerimônia realizada no Palácio Paiaguás, em Cuiabá, foram entregues 47 novas viaturas destinadas à expansão da Patrulha Maria da Penha em diversos municípios, além do lançamento de uma nova estratégia baseada em tecnologia e inteligência que prevê o acompanhamento direto de aproximadamente 35 mil agressores cadastrados no Estado.
O evento também marcou a abertura da capacitação tecnológica voltada à defesa das mulheres e uma homenagem aos profissionais que prestaram relevantes serviços à segurança pública.
Em entrevista exclusiva à reportagem do JB News, a secretária de Estado de Segurança Pública, Suzane Tamanho, afirmou que o objetivo do governo é levar a Patrulha Maria da Penha para todos os municípios mato-grossenses. Segundo ela, os 47 veículos entregues representam apenas a primeira etapa do reforço estrutural.
“Hoje estamos entregando 47 veículos e, ao longo deste ano, entregaremos mais 40. É fundamental que esse atendimento especializado chegue a todas as regiões do Estado para combater, principalmente, o feminicídio”, afirmou.
A secretária destacou que os resultados da Patrulha Maria da Penha comprovam a eficácia do programa. Conforme explicou, praticamente nenhuma mulher acompanhada pela equipe especializada foi vítima de feminicídio durante o atendimento.
“Os dados oficiais mostram que as mulheres assistidas pela Patrulha Maria da Penha praticamente não sofrem feminicídio. Tivemos apenas duas situações excepcionais: uma vítima retomou o relacionamento com o agressor e outra morreu em circunstâncias consideradas uma fatalidade. Isso demonstra que o programa funciona.”
Hoje Mato Grosso possui 41 núcleos da Patrulha Maria da Penha, estrutura que deverá praticamente dobrar nos próximos meses. Os novos veículos serão distribuídos inicialmente para 47 municípios, ampliando significativamente a cobertura da rede de proteção às vítimas.
Entretanto, a principal novidade anunciada durante o evento foi o lançamento da ferramenta tecnológica denominada Penha, considerada uma das mais inovadoras do país no combate preventivo à violência doméstica.
O sistema reúne um banco de dados com aproximadamente 35 mil agressores cadastrados, mesmo aqueles que ainda não possuem medidas protetivas expedidas pela Justiça.
Segundo Suzane Tamanho, cada agressor recebe uma classificação de risco — um “score” elaborado a partir de informações policiais, registros anteriores e comportamento violento. Com base nessa classificação, equipes especializadas passarão a realizar visitas preventivas aos suspeitos.
A proposta é interromper o ciclo da violência antes que ele evolua para agressões mais graves ou para o feminicídio.
“Nenhum outro Estado realiza esse tipo de acompanhamento. Esses homens serão visitados, orientados e acompanhados. A partir dessa entrevista, todas as instituições passam a compartilhar essas informações. Se houver agravamento da situação, a Polícia Civil já poderá adotar outras medidas. É uma atuação preventiva e integrada.”
Além das visitas aos agressores, o programa reúne diferentes ferramentas tecnológicas que passam a atuar de forma integrada.
Entre elas estão o SOS Mulher (Botão do Pânico), sistemas de monitoramento eletrônico, compartilhamento instantâneo de informações entre Polícia Militar, Polícia Civil, Politec e demais órgãos da rede de proteção, além da capacitação específica dos profissionais responsáveis pelo primeiro atendimento às vítimas.
Segundo a secretária, o treinamento busca mudar completamente a forma de acolhimento das mulheres que procuram ajuda.
“O primeiro atendimento faz toda diferença. A mulher precisa encontrar um policial preparado, sensível e capacitado para acolhê-la.”
A nova política pública surge em meio a um cenário que continua preocupando as autoridades.
Apesar do fortalecimento das ações preventivas desde 2019, Mato Grosso permanece entre os estados brasileiros com maiores índices proporcionais de feminicídio. Em 2025 foram registrados 53 feminicídios, o maior número desde 2021. Antes disso, o Estado contabilizou 47 casos em 2024, 46 em 2023 e 47 em 2022, demonstrando que a violência letal contra as mulheres permanece em níveis elevados.
Embora os números ainda sejam alarmantes, as investigações apresentam elevado índice de resposta.
Relatório divulgado pela Polícia Civil aponta que 100% dos feminicídios registrados em 2025 tiveram autoria identificada. Dos 56 investigados, 47 foram presos, sete morreram — cinco deles por suicídio após o crime —, um permanece foragido com mandado de prisão expedido e apenas um caso segue em investigação complementar.
Outro dado que reforça a importância da Patrulha Maria da Penha foi divulgado pela própria Secretaria de Segurança Pública.
Somente no primeiro semestre de 2025, o programa realizou atendimento a quase 3 mil mulheres, contabilizou mais de 5,5 mil visitas solidárias, acompanhou milhares de medidas protetivas e realizou centenas de visitas de orientação a autores de violência doméstica. Entre todas as mulheres assistidas pela Patrulha, apenas um caso evoluiu para feminicídio naquele período.
Durante a entrevista, Suzane Tamanho voltou a defender que a denúncia continua sendo o principal instrumento de prevenção.
Ela ressaltou que muitos feminicídios ainda ocorrem sem que existam registros anteriores de violência, dificultando a atuação antecipada do Estado.
“Muitas vezes, quando investigamos um feminicídio, percebemos que aquela mulher nunca registrou ocorrência ou fez apenas um boletim muito pequeno. Sem a denúncia, o Estado não consegue identificar o potencial daquele agressor.”
A secretária lembrou ainda que Mato Grosso possui uma rede integrada de apoio às vítimas, oferecendo acesso a programas habitacionais, oportunidades de emprego, assistência social e acolhimento especializado, permitindo que muitas mulheres consigam romper definitivamente o ciclo da violência.
Ao encerrar a entrevista, Suzane Tamanho afirmou que os investimentos realizados pelo Governo do Estado desde 2019 em tecnologia, estrutura, equipamentos e valorização dos profissionais da segurança pública estão criando um novo modelo de enfrentamento à violência doméstica.
“O investimento não é apenas em viaturas. É tecnologia, inteligência, capacitação humana e integração entre todas as forças de segurança. Nosso objetivo é salvar vidas e reduzir cada vez mais os casos de feminicídio em Mato Grosso.”
Com a entrega das novas viaturas, a ampliação da Patrulha Maria da Penha e a implantação do inédito sistema de monitoramento preventivo de agressores, Mato Grosso aposta agora em uma estratégia que deixa de atuar apenas após a violência ocorrer e passa a intervir antes que ela se transforme em mais uma tragédia. O desafio permanece enorme diante dos índices registrados nos últimos anos, mas o governo aposta que a combinação entre inteligência, presença policial e prevenção poderá alterar esse cenário e preservar vidas.
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