TRÁFICO INTERNACIONAL

Operação Mállku revela engrenagem do tráfico aéreo entre Bolívia e Mato Grosso e amplia cerco contra responsáveis por pista clandestina

· 3 min de leitura
Operação Mállku revela engrenagem do tráfico aéreo entre Bolívia e Mato Grosso e amplia cerco contra responsáveis por pista clandestina

JB News

Por Emerson Teixeira

A Operação Mállku, deflagrada pela Polícia Federal na última sexta-feira (26), representa um dos mais importantes desdobramentos de uma investigação sobre o tráfico internacional de cocaína em Mato Grosso neste ano. A ofensiva é resultado direto da apreensão de mais de meia tonelada de cocaína realizada em fevereiro de 2026, em uma propriedade rural de Marcelândia, no norte do Estado, quando forças de segurança impediram que uma aeronave utilizada pelo crime organizado continuasse sua rota de distribuição da droga para facções que atuam em território brasileiro.

Na nova fase da investigação, a Polícia Federal cumpriu sete ordens judiciais expedidas pela Justiça Federal, sendo dois mandados de prisão preventiva e cinco de busca e apreensão nos municípios de Ribeirão Preto (SP), Sinop, Alta Floresta e Marcelândia (MT). Segundo a PF, os principais alvos são o piloto responsável pelo transporte da cocaína e o proprietário da fazenda onde funcionava a pista clandestina utilizada para o pouso da aeronave carregada com entorpecentes. Até o momento, entretanto, a Polícia Federal não divulgou oficialmente a identidade dos investigados, mantendo seus nomes sob sigilo em razão do andamento das investigações.

A investigação começou após uma operação conjunta entre Polícia Federal e Gefron que levou os agentes até uma fazenda localizada em Marcelândia. No local, os policiais encontraram um avião de pequeno porte utilizado pelo grupo criminoso para transportar aproximadamente 500 quilos de cocaína. Além da droga, foram apreendidos uma arma de fogo, um veículo empregado no apoio logístico e diversos elementos probatórios que permitiram aos investigadores reconstruir praticamente toda a cadeia operacional utilizada pela organização criminosa. A apreensão representou um prejuízo milionário para o tráfico internacional e passou a ser considerada o ponto de partida para identificar todos os envolvidos na estrutura responsável pela internalização da cocaína em território nacional.

De acordo com o delegado federal Tiago Pacheco, responsável pelas investigações, a cocaína apreendida teve origem em uma região rural localizada no leste da Bolívia. A droga atravessava clandestinamente a fronteira utilizando aeronaves de pequeno porte, capazes de pousar em pistas improvisadas dentro de propriedades rurais de Mato Grosso, estratégia amplamente utilizada por organizações criminosas para escapar da fiscalização nas rodovias e nos postos de fronteira. Segundo o delegado, a apreensão realizada em fevereiro evoluiu para uma investigação mais ampla, permitindo identificar uma estrutura organizada responsável não apenas pelo transporte da droga, mas também pelo suporte logístico necessário para a operação das aeronaves clandestinas.

As diligências revelaram que o esquema ia muito além do simples transporte aéreo. As investigações apontam para uma organização criminosa estruturada, composta por pilotos, responsáveis pelas propriedades utilizadas como base operacional, pessoas encarregadas do abastecimento das aeronaves, apoio terrestre, segurança das pistas clandestinas e receptadores da carga após o pouso. Esse modelo operacional reduz o tempo de permanência das aeronaves em solo e dificulta a atuação das forças policiais.

Para a Polícia Federal, um dos aspectos mais preocupantes da investigação é o aliciamento de proprietários rurais para permitir a utilização de suas fazendas como pontos de apoio ao tráfico internacional. Em vídeo divulgado durante a operação, o delegado Tiago Pacheco fez um alerta direto aos produtores rurais, destacando que quem autoriza ou facilita pousos clandestinos poderá responder não apenas pelo crime de tráfico de drogas, mas também por associação ou organização criminosa. A orientação é para que qualquer tentativa de cooptação seja imediatamente comunicada à Polícia Federal.

A escolha de Mato Grosso como corredor logístico não ocorre por acaso. O Estado possui uma extensa faixa de fronteira com a Bolívia, milhares de quilômetros de áreas rurais e propriedades de difícil fiscalização, além de pistas particulares que, quando utilizadas ilegalmente, tornam-se importantes pontos de apoio para organizações criminosas especializadas no transporte internacional de cocaína. As investigações demonstram que, após entrar em território mato-grossense, a droga segue para centros consumidores em diferentes regiões do país, abastecendo facções criminosas responsáveis pela distribuição nacional.

Nos últimos anos, operações integradas entre Polícia Federal, Gefron, Polícia Militar, Ciopaer e demais forças de segurança têm intensificado o combate às rotas aéreas utilizadas pelo narcotráfico. Além da apreensão de grandes carregamentos de cocaína, as ações têm resultado na retirada de aeronaves utilizadas pelo crime organizado, bloqueando uma das principais modalidades de transporte de drogas vindas da Bolívia.

A Operação Mállku ainda está em andamento. A Polícia Federal afirma que as investigações prosseguem para identificar financiadores, operadores logísticos, receptadores da droga e demais integrantes da organização criminosa. Novas fases da operação não estão descartadas à medida que a análise do material apreendido avance e revele outros envolvidos na estrutura internacional do tráfico de cocaína.

Embora a ofensiva tenha resultado no cumprimento de mandados contra o piloto da aeronave e o proprietário da fazenda onde funcionava a pista clandestina, a identidade nominal dos investigados permanece sob sigilo e não foi oficialmente divulgada pela Polícia Federal até esta terça-feira, razão pela qual seus nomes não podem ser confirmados neste momento.

VEJA :

0:00
/1:44