JB News
Por José Teixeira
Levantamento do IBGE mostra que transportes, atividades auxiliares e correios concentraram R$ 42,4 bilhões e quase 60% de toda a receita do setor no Estado
O peso do agronegócio e as grandes distâncias entre as regiões produtoras e os principais corredores de escoamento transformaram a logística em um dos maiores negócios da economia de Mato Grosso. Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o setor de serviços não financeiros movimentou R$ 72,4 bilhões em receita bruta no Estado, com forte predominância das atividades ligadas ao transporte.
Os números são da Pesquisa Anual de Serviços (PAS) e têm como referência o ano de 2024. Embora retratem aquele exercício, os dados foram divulgados recentemente e permitem dimensionar a estrutura da economia mato-grossense e, principalmente, a importância adquirida pelo transporte de cargas.
Do total de R$ 72,4 bilhões movimentados pelo setor de serviços, aproximadamente R$ 42,4 bilhões vieram de transportes, serviços auxiliares aos transportes e correios. Isso significa que esse segmento sozinho respondeu por cerca de 58,6% de toda a receita bruta dos serviços não financeiros pesquisados em Mato Grosso.
O protagonismo é ainda mais evidente quando se observa especificamente o transporte rodoviário.
Somente as atividades realizadas pelas estradas movimentaram aproximadamente R$ 32 bilhões, valor equivalente a cerca de 44% de toda a receita do setor de serviços pesquisado no Estado.
Na prática, quase metade do dinheiro movimentado pelas empresas de serviços abrangidas pelo levantamento está relacionada diretamente ao transporte rodoviário.
Mato Grosso aparece ainda entre apenas quatro unidades da Federação em que o grupo de transportes, serviços auxiliares e correios ocupa a primeira posição na composição da receita do setor.
A característica está diretamente relacionada ao perfil econômico do Estado.
Maior produtor brasileiro de soja, milho e algodão, além de possuir uma das maiores cadeias pecuárias do país, Mato Grosso precisa movimentar milhões de toneladas de produtos todos os anos entre propriedades rurais, armazéns, indústrias, terminais ferroviários, portos e mercados consumidores.
Nesse cenário, caminhões e rodovias se tornaram parte fundamental da engrenagem econômica estadual.
A dimensão do setor também aparece na quantidade de empresas e trabalhadores. A pesquisa contabilizou 34.525 empresas de serviços em Mato Grosso, responsáveis pela ocupação de 261.263 pessoas.
Somados, salários, retiradas e outras remunerações alcançaram aproximadamente R$ 9,1 bilhões.
Os números ajudam a explicar por que obras rodoviárias, concessões e investimentos em infraestrutura têm impacto que ultrapassa a construção das próprias estradas. Melhorias na malha podem reduzir custos de frete, tempo de viagem, consumo de combustível e perdas durante o transporte, com reflexos sobre a competitividade dos produtos mato-grossenses.
Ao mesmo tempo, a concentração de uma parcela tão expressiva da atividade econômica no modal rodoviário evidencia uma vulnerabilidade histórica do Estado.
Mato Grosso produz em grande escala no centro do continente e ainda depende fortemente das estradas para retirar essa produção das regiões agrícolas. Problemas de conservação, congestionamentos, acidentes, interrupções e longas distâncias até os principais corredores logísticos acabam incorporados ao custo final das mercadorias.
A situação coloca em primeiro plano projetos de duplicação e concessão de rodovias e também a expansão da malha ferroviária.
Entre os projetos capazes de alterar essa estrutura logística estão corredores ferroviários em implantação e planejamento, além da Ferrogrão, projetada para ligar Sinop, no norte de Mato Grosso, a Miritituba, no Pará, criando uma alternativa para o escoamento da produção pelo chamado Arco Norte.
A dimensão de R$ 32 bilhões movimentados pelo transporte rodoviário mostra, entretanto, que mesmo com o avanço das ferrovias as estradas deverão continuar desempenhando papel central na economia estadual, inclusive na ligação das propriedades e municípios produtores aos terminais ferroviários.
Os dados também abrem outra frente de análise: descobrir quanto desse mercado está concentrado nas regiões de Cuiabá, Rondonópolis, Sinop, Sorriso, Lucas do Rio Verde e demais polos do agronegócio, além de identificar a evolução dos custos logísticos e o peso dos fretes sobre a renda gerada pela produção estadual.
Mais do que revelar o tamanho do setor de serviços, o levantamento mostra uma característica estrutural da economia mato-grossense: boa parte da riqueza produzida no campo precisa passar pelas rodovias antes de chegar ao mercado — e essa movimentação, sozinha, já representa um negócio bilionário dentro de Mato Grosso.