JB News
por Emerson Teixeira
Antônio Lemes afirma que foi pressionado a abandonar grupo de Paula Calil e antecipar saída do Legislativo; titular da cadeira já havia negado acusações durante disputa pela Mesa Diretora
A disputa pelo comando da Câmara Municipal de Cuiabá ganhou um novo capítulo nesta quinta-feira (15 de outubro), com a renúncia antecipada do vereador em exercício Antônio Lemes de Paula (PSD). O parlamentar decidiu deixar a cadeira antes do encerramento da licença do titular, Jeferson Siqueira (PSD), e atribuiu sua saída a uma série de pressões políticas envolvendo a eleição da nova Mesa Diretora, vencida por Ilde Taques (Podemos).
A decisão expôs os bastidores de uma disputa que, embora tenha terminado com uma votação unânime dos 27 vereadores, foi marcada por divergências, mudanças de alianças e conflitos entre parlamentares que disputavam o controle político e administrativo do Legislativo cuiabano para o biênio 2027/2028.
Antônio Lemes apresentou oficialmente sua carta de renúncia na manhã desta quinta-feira. O documento foi encaminhado à presidente da Câmara, Paula Calil (PL), e lido durante a sessão ordinária. Na comunicação formal, o suplente alegou motivos particulares e declarou que sua decisão havia sido tomada de maneira livre, consciente e espontânea.
Entretanto, ao explicar publicamente os motivos da saída, apresentou uma versão diferente da justificativa registrada no documento. Segundo Lemes, as cobranças do titular da cadeira se intensificaram durante as articulações para a eleição da Mesa Diretora e continuaram após a votação.
O suplente afirmou que Jeferson Siqueira defendia a candidatura de Ilde Taques e esperava que ele acompanhasse a orientação política, enquanto sua preferência era permanecer ao lado da presidente Paula Calil, com quem havia estabelecido uma relação de trabalho para atender demandas de comunidades da Capital.
“Eu fui forçado através de dois argumentos do vereador Jefferson. Ele disse que tinha construído algumas situações na Câmara Municipal e no futuro, e que eu tinha que votar para o candidato dele”, relatou Antônio Lemes ao expor o desentendimento.
A divergência sobre o voto desencadeou um desgaste que ultrapassou as negociações eleitorais. O suplente afirmou ter enfrentado cobranças constantes, inclusive por telefone, para participar de reuniões, encontros e articulações com o grupo político de Ilde Taques.
“Eu não aguentava mais a pressão na minha cara, no telefone, para eu passar para esse lado, participar de almoço, de jantar”, declarou.
Apesar da gravidade das acusações, Antônio Lemes fez questão de diferenciar pressão política de ameaça direta. Questionado sobre a existência de intimidação, negou ter recebido ameaças e classificou os episódios como insistência e cobranças relacionadas ao posicionamento que deveria adotar dentro da Câmara.
“Não chegou a ser ameaça. São pressões de diálogo, pressão política”, afirmou.
A tensão entre os dois parlamentares não começou nesta quinta-feira. Ainda no final de setembro, quando a eleição da Mesa Diretora mobilizava diferentes grupos, Antônio Lemes já havia tornado públicas as divergências com o titular do mandato.
Na ocasião, Jeferson Siqueira tentou antecipar seu retorno ao Legislativo, mas a possibilidade encontrou obstáculos relacionados ao prazo de afastamento. A Procuradoria da Câmara se manifestou contrariamente ao retorno antecipado, mantendo o suplente no exercício da função durante a eleição.
O impasse ganhou repercussão porque Antônio Lemes ocupava temporariamente uma cadeira considerada importante para a formação da maioria necessária à eleição da nova presidência. Jeferson estava alinhado ao grupo de Ilde Taques, enquanto seu suplente demonstrava proximidade com os integrantes da base política de Paula Calil e do prefeito Abilio Brunini (PL).
Lemes chegou a aparecer em registros ao lado do grupo de Paula e posteriormente anunciou adesão à candidatura de Ilde Taques, movimento que contribuiu para ampliar a vantagem do candidato do Podemos nas negociações anteriores à votação.
O suplente explicou que sua aproximação com Paula Calil não se limitava à disputa pela presidência. Segundo ele, a parceria permitiu encaminhar reivindicações de moradores de diferentes bairros de Cuiabá, especialmente relacionadas à infraestrutura urbana.
Antônio Lemes citou demandas envolvendo abastecimento de água, pavimentação asfáltica e esgotamento sanitário, além de reivindicações de moradores da região da Grande Morada da Serra, incluindo o bairro Serra Dourada.
De acordo com o parlamentar, três bairros receberam atendimento a reivindicações apresentadas durante sua passagem pela Câmara. Ele afirmou que pretendia aproveitar o restante do mandato temporário para continuar articulando soluções com a Prefeitura e a presidência do Legislativo.
O acordo político que, segundo Lemes, previa sua permanência até 17 de novembro acabou interrompido pela renúncia. A saída foi formalizada em 15 de outubro, com pedido para produzir efeitos a partir da próxima segunda-feira, dia 19.
“Ele não tem direito nenhum de fazer eu renunciar, mas, por bom senso, eu vou abrir o espaço novamente para ele”, declarou o suplente ao se referir a Jeferson Siqueira.
A decisão, contudo, não elimina automaticamente as questões regimentais envolvendo a licença do titular e o preenchimento da cadeira. Jeferson havia solicitado afastamento por aproximadamente quatro meses, e seu retorno antecipado já havia sido objeto de discussão na Câmara. A situação administrativa da vaga dependerá dos procedimentos adotados pelo Legislativo.
O desgaste também se refletiu em episódios ocorridos depois da eleição. Antônio Lemes relatou desentendimentos relacionados à participação em encontros políticos e afirmou que a decisão de não comparecer a um almoço com integrantes do grupo vencedor contribuiu para ampliar a insatisfação do titular.
Apesar das divergências, o suplente declarou que não pretende transformar o episódio em um rompimento pessoal definitivo.
“Não quero quebrar a ponte com o vereador Jefferson. Quero continuar conversando com ele”, afirmou.
A eleição que está no centro da controvérsia aconteceu em 6 de outubro. Ilde Taques foi eleito presidente da Câmara Municipal de Cuiabá com os votos dos 27 vereadores, depois que seus adversários desistiram de apresentar uma chapa concorrente.
A unanimidade registrada nas urnas, entretanto, foi resultado de uma sequência de negociações que provocou mudanças no equilíbrio de forças dentro da Câmara.
Inicialmente, o grupo ligado à presidente Paula Calil tentou construir uma candidatura capaz de enfrentar Ilde. O nome de Dilemário Alencar também chegou a ser trabalhado durante as articulações, mas a oposição ao candidato do Podemos não conseguiu consolidar uma composição competitiva.
Ilde Taques chegou à eleição liderando a chapa “Lealdade e Compromisso” e garantiu o comando do Legislativo municipal para os próximos dois anos.
A nova Mesa Diretora terá Eduardo Magalhães (Republicanos) como primeiro vice-presidente, Maria Avallone (PSDB) como segunda vice-presidente, Adevair Cabral (Solidariedade) na primeira-secretaria e Michelly Alencar (União Brasil) na segunda-secretaria.
A posse da nova direção está prevista para 1º de janeiro de 2027. Até o encerramento do atual mandato administrativo, Paula Calil permanece na presidência.
O resultado também marcou uma mudança importante na composição do comando da Câmara. Embora Paula e Abilio sejam filiados ao PL, o partido não conseguiu garantir representante na nova Mesa Diretora.
Durante as articulações que antecederam a votação, o voto de Antônio Lemes passou a representar uma das peças importantes para a formação da maioria política. Sua mudança de posicionamento contribuiu para fortalecer Ilde Taques, que inicialmente havia reunido 15 apoios e posteriormente alcançou a unanimidade.
Jeferson Siqueira, por sua vez, já havia negado publicamente, em 30 de setembro, ter pressionado ou ameaçado Antônio Lemes para conseguir seu apoio. Na ocasião, afirmou que os dois tinham um compromisso político firmado desde a posse do suplente e sustentou que a adesão à candidatura de Ilde ocorreu por livre e espontânea vontade.
A manifestação anterior do titular contrasta com o relato apresentado por Antônio Lemes nesta quinta-feira, quando o suplente atribuiu diretamente às cobranças políticas a decisão de antecipar a saída do Legislativo.
A renúncia recoloca em evidência as divisões internas que antecederam a escolha do futuro presidente. Embora a eleição de Ilde Taques tenha sido encerrada com todos os votos favoráveis, o episódio demonstra que o consenso formal da votação não eliminou os conflitos políticos construídos durante a disputa.
Com o pedido de desligamento apresentado e a saída prevista para 19 de outubro, a Câmara terá de formalizar a situação da cadeira ocupada temporariamente por Antônio Lemes, enquanto permanece a controvérsia entre o suplente e o titular do mandato.
O caso também evidencia que, mesmo depois de definida a presidência para 2027 e 2028, as consequências políticas das articulações continuam repercutindo entre os vereadores de Cuiabá.