ELO CRIMINOSO

Relatório aponta que integrantes de projeto religioso mantinham relações com presos da PCE

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Relatório aponta que integrantes de projeto religioso mantinham relações com presos da PCE

JB News

Por Emerson Norberto

Conversas extraídas pela Polícia Civil indicam relacionamentos amorosos e sexuais, visitas direcionadas, presentes, dinheiro e intermediação de favores; quatro mulheres foram indiciadas por falso testemunho, enquanto núcleo familiar de Rhavenna acabou denunciado pelo MPMT

Um relatório produzido pela Polícia Civil no âmbito da Operação Fariseus revela uma rede de relações pessoais que, segundo os investigadores, teria se formado entre mulheres vinculadas ao projeto religioso Equipe de Evangelismo Resgatando Vidas e presos da Penitenciária Central do Estado (PCE), em Cuiabá, incluindo homens apontados como integrantes do Comando Vermelho.

O material analisado pela Gerência de Combate ao Crime Organizado (GCCO) e pela Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Organizado (Draco) reúne conversas, imagens e outros dados obtidos durante a investigação. Parte dos diálogos foi recuperada de informações armazenadas em contas vinculadas aos aparelhos e ao iCloud de investigadas.

É nesse conjunto de mensagens que aparece um grupo denominado “As Faixa Rosa Evangélica”.

Entre as mulheres mencionadas no relatório estão Wiara Lima Cadore, Karolina Lopes Padilha, Jéssi Mariane Araújo dos Anjos, Lais Barbosa Lopes e Lo Rhuama Barcelos de Almeida Gobbi, conhecida como “Lolo”. Rhavenna Barcelos de Almeida também aparece como figura central nas conversas e na investigação.

Segundo a interpretação da Polícia Civil, o conteúdo encontrado indica que algumas das relações estabelecidas dentro do sistema penitenciário teriam ultrapassado a finalidade de assistência espiritual que justificava o ingresso do grupo religioso nas unidades.

Os investigadores apontam a existência de relacionamentos amorosos e sexuais, visitas direcionadas a presos específicos, contatos com integrantes da facção que estavam fora da prisão, pedidos e recebimento de presentes, pagamento de despesas e intermediação de contatos e favores.

Uma das conversas consideradas relevantes pelos investigadores ocorreu em 2 de fevereiro de 2026.

Na ocasião, Wiara apresentou às demais participantes o que chamou de “lista da PCE”, identificando quatro homens pelas letras “L, P, R e T”.

De acordo com o relatório policial, as iniciais seriam compatíveis com Leonardo de Jesus, conhecido como “Buxudo”; Pedro Antônio dos Santos, chamado de “Pedrinho” ou “Cotonete”; Renildo Silva Rios; e um homem identificado como Teluan.

Na mesma conversa, Karolina fez uma referência de conteúdo sexual a “Cotonete”, escrevendo que seria ela quem “sentaria na cabeça do cotonete”.

O diálogo foi incorporado pela Polícia Civil ao conjunto de elementos utilizados para sustentar a tese de que havia interesse pessoal e íntimo em determinados presos, para além das atividades de evangelização.

Outras mensagens reforçariam essa interpretação.

Em conversas de novembro de 2025, Karolina perguntou a Wiara sobre “Pe” e “Re”. Para os investigadores, seriam referências a Pedro Antônio e Renildo.

O nome de Luiz Fagner Gomes dos Santos, conhecido como “Zóio”, também aparece nos diálogos analisados.

Em outra troca de mensagens, Wiara comenta que pretendia distribuir as visitas entre diferentes detentos para evitar conflitos entre eles.

“Vai ser um por um, para nenhum ficar brigado um com o outro.”

A Polícia Civil interpreta a conversa como indicativo da frequência dos contatos e da existência de vínculos pessoais simultâneos com diferentes presos.

Outro diálogo analisado pelos investigadores envolve o interesse de Wiara em entrar no raio 6 da PCE.

Rhavenna teria associado o interesse à possibilidade de encontrar “Buxudo”. Wiara então respondeu: “Quero os dois”.

Os investigadores também recuperaram mensagens de maio de 2026 relacionadas a uma possível visita a Renildo.

Em uma delas, Wiara escreveu: “Terça vai ser toma toma”.

A interpretação registrada no relatório é de que a expressão tinha conotação sexual.

Para a Polícia Civil, o conjunto das mensagens indica que determinados encontros mantidos por integrantes do grupo com presos não estariam restritos à prestação de assistência religiosa.

A investigação também identificou conversas nas quais as próprias participantes discutiam quais presos seriam seus interesses amorosos.

Em diálogo de 4 de dezembro de 2025, Karolina teria comentado sobre a divisão de determinados homens entre as mulheres do grupo. O conteúdo foi tratado pelos investigadores como mais um elemento indicativo de que presos eram mencionados como namorados, pretendentes ou parceiros íntimos.

RHAVENNA NO CENTRO DA INVESTIGAÇÃO

A personagem de maior peso dentro da Operação Fariseus é Rhavenna Barcelos de Almeida.

A Polícia Civil aponta que ela teria funcionado como um dos principais elos entre pessoas ligadas ao projeto religioso e integrantes do Comando Vermelho presos ou em liberdade.

A investigação sustenta que Rhavenna manteve relacionamento com Renildo Silva Rios, apontado pelos investigadores como integrante de posição elevada dentro da estrutura da facção em Mato Grosso.

Renildo está preso na PCE há mais de duas décadas.

Mesmo dentro da unidade prisional, segundo a investigação, ele teria mantido contato com Rhavenna e enviado presentes. Entre os bens mencionados no inquérito aparecem joias e um veículo.

A apuração identificou ainda elementos pessoais que, na avaliação dos investigadores, reforçariam a existência do relacionamento, entre eles uma tatuagem relacionada a Renildo e uma peça íntima contendo a expressão “Velhote”, um dos apelidos atribuídos a ele.

Antes de Renildo, Rhavenna também teria mantido relacionamento com Jonas Souza Gonçalves Júnior, conhecido como “Batman”.

A Polícia Civil afirma que ela sabia onde Jonas estava depois que ele rompeu a tornozeleira eletrônica e deixou Mato Grosso em direção ao Rio de Janeiro.

Segundo o inquérito, Rhavenna realizava viagens para encontrá-lo e teria participado de momentos de lazer supostamente custeados por pessoas ligadas à organização criminosa.

A investigação, entretanto, não ficou restrita aos relacionamentos.

Os investigadores apuram se a facilidade de entrada proporcionada pelo trabalho religioso teria sido utilizada para transportar mensagens, intermediar demandas de presos e estabelecer comunicação entre integrantes da organização que estavam dentro e fora das unidades prisionais.

Também existem suspeitas envolvendo movimentação de dinheiro.

A Polícia Civil passou a investigar a origem de recursos, presentes e patrimônio atribuídos a Rhavenna e a participação de familiares na movimentação de valores.

Um estabelecimento ligado a ela, “A Burguesinha dos Looks”, também entrou na investigação sob suspeita de ter sido utilizado na movimentação ou ocultação de recursos. Essa hipótese integra a acusação e ainda depende de julgamento.

OPERAÇÃO COMEÇOU EM JULHO

A Operação Fariseus foi deflagrada em 16 de julho de 2026 pela Polícia Civil.

Na ocasião, Rhavenna foi presa preventivamente.

A Justiça também determinou medidas envolvendo pessoas vinculadas ao projeto Resgatando Vidas. Os pastores Nivaldo de Almeida e Orminda Carlos Barcelos Almeida, além de Jéssi, Karolina, Wiara e Lais, foram impedidos de ingressar em unidades prisionais para desenvolver atividades religiosas pelo período estabelecido judicialmente.

A restrição foi determinada durante a investigação diante da suspeita de que a atuação do grupo teria ultrapassado os limites da assistência espiritual.

Nivaldo morreu em 5 de setembro, vítima de câncer, antes do oferecimento da denúncia pelo Ministério Público.

SEIS DENUNCIADOS PELO MPMT

O caso avançou para uma nova fase na última sexta-feira (11 de setembro).

O Ministério Público de Mato Grosso, por meio do Gaeco, denunciou Rhavenna Barcelos de Almeida, Orminda Carlos de Barcelos Almeida, Anatany Nina de Barcelos Souza Alves, Lo Rhuama Barcelos de Almeida Gobbi, Rhuan Barcelos da Conceição e Renildo Silva Rios.

A denúncia envolve acusações de organização criminosa e lavagem de dinheiro.

Segundo a acusação, diferentes integrantes do núcleo investigado teriam desempenhado funções na circulação e ocultação dos valores.

Orminda teria atuado na intermediação entre pessoas presas e integrantes que estavam em liberdade. Rhuan é apontado como responsável por guardar dinheiro em espécie para posterior entrega.

Anatany, que trabalhava em uma lotérica, teria auxiliado em depósitos e na administração de contas utilizadas nas movimentações. Lo Rhuama também teria participado da circulação e divisão de recursos, segundo a acusação.

Todas essas imputações ainda deverão ser submetidas ao contraditório e ao julgamento da Justiça. Denúncia e indiciamento não equivalem a condenação.

QUATRO FICARAM FORA DA DENÚNCIA POR ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA

Existe uma diferença importante na situação de Wiara, Karolina, Jéssi e Lais.

Apesar de aparecerem no material investigativo e terem sido indiciadas pela Polícia Civil por falso testemunho, elas não foram incluídas pelo Ministério Público na denúncia por organização criminosa e lavagem de dinheiro apresentada contra o núcleo de seis acusados.

A situação das quatro deverá tramitar separadamente.

O Ministério Público avalia a possibilidade de oferecer Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) em relação ao delito pelo qual foram indiciadas, desde que estejam preenchidos os requisitos legais.

Esse ponto é relevante porque impede que todas as pessoas mencionadas nas conversas sejam colocadas na mesma condição jurídica.

O relatório policial descreve o que os investigadores entendem ter ocorrido a partir das provas reunidas. Caberá agora ao Judiciário avaliar as acusações formalizadas pelo Ministério Público e às defesas contestar os elementos apresentados.

Além das responsabilidades individuais, a Operação Fariseus abriu uma questão mais ampla para o sistema penitenciário de Mato Grosso: como pessoas autorizadas a ingressar em presídios para prestar assistência religiosa conseguiram, segundo a investigação, desenvolver relações tão próximas com presos considerados relevantes dentro de uma organização criminosa.

É justamente esse ponto que pode transformar o caso em algo maior do que a investigação sobre relacionamentos pessoais: a apuração sobre eventuais falhas nos mecanismos de credenciamento, fiscalização das visitas religiosas e controle de acesso à PCE e às demais unidades prisionais de Mato Grosso