GUERRA ENTRE FACÇÕES
Por Nayara Cristina
Investigação aponta que lideranças continuavam coordenando ataques de dentro dos presídios; ofensiva alcançou Primavera do Leste e deixou quatro investigados foragidos
Uma operação interestadual contra integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) terminou com 22 prisões nesta quarta-feira (28), após uma ofensiva policial que também alcançou o município de Primavera do Leste, em Mato Grosso. Batizada de Operação Decretados, a ação cumpriu 20 mandados de prisão preventiva e 23 de busca e apreensão, com o objetivo de desarticular grupos investigados por homicídios, tentativas de assassinato e disputas territoriais entre facções criminosas.
A operação foi coordenada pela Seção de Investigações Gerais (SIG) da Delegacia Regional de Dourados, em Mato Grosso do Sul, com a participação da Polícia Civil de Mato Grosso e de unidades especializadas de segurança pública. Aproximadamente cem policiais foram mobilizados para executar as medidas judiciais em diferentes municípios dos dois estados.
As diligências ocorreram em Dourados, Campo Grande, Sidrolândia e Rio Verde de Mato Grosso, todos em Mato Grosso do Sul, além de Primavera do Leste, no território mato-grossense. O balanço oficial não individualizou a quantidade de mandados executados nem o número de presos em cada município.
As investigações começaram em julho deste ano, depois de sucessivos episódios de violência atribuídos à disputa entre PCC e Comando Vermelho na região de Dourados. Durante aproximadamente quatro meses, os policiais buscaram identificar a estrutura hierárquica das organizações, seus integrantes e a participação de cada suspeito na preparação e execução de ataques.
Ao longo da apuração, foram identificadas 22 pessoas com indícios de envolvimento nas atividades criminosas. Entre os investigados estão indivíduos apontados como lideranças das facções, coordenadores de ações violentas, executores de homicídios e tentativas de homicídio, fornecedores de armamentos e responsáveis por esconder armas e prestar apoio logístico às organizações.
Um dos aspectos mais graves revelados pela investigação é a suspeita de que integrantes das facções continuavam organizando ataques mesmo depois de presos. Segundo a Polícia Civil, parte das ordens criminosas teria sido articulada de dentro de unidades penitenciárias, demonstrando a capacidade de atuação das organizações além dos muros dos presídios.
Na Penitenciária Estadual de Dourados, equipes policiais, com apoio da Polícia Penal, cumpriram sete mandados de prisão preventiva contra pessoas que já estavam custodiadas. Também foram executados três mandados de busca e apreensão em celas, onde os investigadores procuraram materiais que possam contribuir para esclarecer a comunicação e a coordenação de ações criminosas.
Outra frente da operação ocorreu no Estabelecimento Penal Jair Ferreira Carvalho, em Campo Grande. No local, policiais do Grupo de Operações e Investigações (GOI) cumpriram um mandado de prisão preventiva e uma ordem de busca e apreensão contra um detento apontado como uma das principais lideranças do PCC em Mato Grosso do Sul.
O investigado já cumpre pena superior a 24 anos de reclusão. Mesmo assim, segundo os elementos reunidos pela Polícia Civil, teria mantido participação na estrutura da organização criminosa. A nova ordem de prisão está relacionada aos fatos investigados na Operação Decretados.
Além das 20 prisões preventivas, duas pessoas foram presas em flagrante durante o cumprimento das buscas. Em uma residência, os policiais localizaram uma arma de fogo de uso permitido mantida irregularmente pelo padrasto de um dos investigados. O homem foi preso por posse irregular de arma de fogo.
Em outro endereço, as equipes encontraram aproximadamente 1,8 quilo de maconha, distribuído em quatro tabletes. A apreensão resultou na prisão em flagrante de um investigado por tráfico de drogas.
Apesar da mobilização policial, quatro investigados não foram localizados e continuam foragidos. As equipes prosseguem com as diligências para cumprir as ordens judiciais pendentes e identificar possíveis locais onde os suspeitos possam estar escondidos.
A participação de Mato Grosso na operação reforça o caráter interestadual das investigações. A presença de equipes da Polícia Civil mato-grossense e o cumprimento de medidas em Primavera do Leste demonstram que as diligências ultrapassaram a região de Dourados, embora ainda não tenha sido detalhada oficialmente a ligação específica dos alvos localizados em território mato-grossense com os crimes investigados.
A força-tarefa reuniu policiais da Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Fronteira (Defron), das equipes da SIG de Ponta Porã, Fátima do Sul e Naviraí, da Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar), do Grupo Armado de Repressão a Roubos, Assaltos e Sequestros (Garras), do Departamento de Operações de Fronteira (DOF), da Polícia Militar, da Polícia Penal e de outras unidades de investigação.
Os materiais apreendidos serão analisados para aprofundar a apuração sobre a estrutura de comando das facções, a participação dos investigados nos homicídios e a eventual existência de outros envolvidos na organização dos ataques.
A Polícia Civil não divulgou os nomes dos investigados, a identificação do magistrado responsável pelas ordens judiciais, a data de assinatura das decisões ou os números dos processos. Também não foram anunciados bloqueios de contas, sequestro de bens ou valores relacionados às atividades criminosas investigadas.
Até a divulgação do balanço, não havia manifestação pública das defesas dos alvos. As suspeitas ainda estão sob investigação e as prisões preventivas não representam condenação definitiva.
Com quatro investigados ainda foragidos, a Operação Decretados permanece em andamento e poderá ter novos desdobramentos a partir da análise dos materiais recolhidos e do avanço das investigações sobre a disputa entre PCC e Comando Vermelho.