Operação Mãos à Obra

Justiça autoriza bloqueio de R$ 80 milhões em investigação sobre suposto esquema em Sinop

· 5 min de leitura
Justiça autoriza bloqueio de R$ 80 milhões em investigação sobre suposto esquema em Sinop

J B News

por Emerson Teixeira

Gaeco prendeu cinco em Sinop, apreendeu cerca de R$ 302 mil, além de carros de luxo em investigação de corrupção

Operação Mãos à Obra investiga suspeitas de pagamento de R$ 2,5 milhões em propina para facilitar aprovações e fiscalizações de obras. Ministério Público também identificou indícios de irregularidades em 106 imóveis. Engenheiros, servidores e empresários estão entre os presos.

JB News | 28 de outubro de 2026

Uma investigação que apura suspeitas de corrupção envolvendo servidores públicos e empresários do setor imobiliário de Sinop, no norte de Mato Grosso, resultou na prisão preventiva de cinco pessoas, na apreensão de R$ 302 mil em dinheiro e de seis veículos de luxo avaliados em mais de R$ 6 milhões. A Justiça também autorizou o bloqueio de até R$ 80 milhões em bens e valores durante a segunda fase da Operação Mãos à Obra, deflagrada nesta quarta-feira (28) pelo Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco).

A operação investiga um suposto esquema que teria funcionado durante anos dentro de setores ligados ao planejamento urbano do município. Segundo o Ministério Público de Mato Grosso, há indícios de que agentes públicos exigiam vantagens financeiras para acelerar procedimentos, facilitar a aprovação de projetos imobiliários, emitir autorizações e permitir a conclusão de construções que apresentariam irregularidades.

Entre os presos estão Fernando Dante Morari, engenheiro civil que atua na Prefeitura de Sinop; Júlio Henrique Verdu Garcia, engenheiro civil e conselheiro da Associação dos Engenheiros do Norte de Mato Grosso; e Valdinei Monteiro da Silva, fiscal de obras que já havia sido alvo da primeira fase da investigação.

Também tiveram mandados de prisão preventiva cumpridos Agnaldo Rael da Silva, empresário do setor da construção civil, e Débora Alvarenga Nakanishi da Silva, sócia-administradora da DNishi Empreendimentos Imobiliários Ltda.

A investigação alcança procedimentos vinculados à Secretaria Municipal de Planejamento Urbano e Habitação de Sinop e examina possíveis irregularidades ocorridas entre 2017 e 2026.

Uma das descobertas mais relevantes, segundo informações divulgadas pela promotora de Justiça Roberta Cheregatti Sanches, envolve a atuação de uma construtora que teria realizado pagamentos ilegais a servidores públicos para obter facilidades administrativas.

Durante entrevista coletiva, a promotora informou que os investigadores identificaram indícios de aproximadamente R$ 2,5 milhões pagos em propina pelos proprietários da empresa investigada.

Conforme a apuração, um servidor público teria assumido a função de intermediário das negociações e distribuído parte dos valores a outros funcionários responsáveis pela fiscalização das obras.

O objetivo seria evitar inspeções, acelerar a tramitação de documentos e permitir que construções continuassem funcionando apesar de possíveis irregularidades.

O Ministério Público também identificou preliminarmente 106 imóveis com suspeitas de irregularidades urbanísticas relacionados à atuação da construtora. Entre os empreendimentos estão construções destinadas à locação, especialmente unidades residenciais do tipo kitnet, distribuídas por diferentes bairros de Sinop.

A quantidade de imóveis chamou a atenção dos investigadores para a possível dimensão do esquema e para os impactos que construções sem fiscalização adequada podem provocar na segurança dos moradores e no planejamento urbano.

Além das prisões, a operação resultou em apreensões expressivas.

Segundo o delegado Getúlio Daniel, responsável pelas investigações, os agentes encontraram R$ 302 mil em espécie na residência do empresário Agnaldo Rael da Silva.

Também foram apreendidos seis automóveis de luxo: dois BYD Seal pretos, um BYD Song Plus preto, um Chevrolet Corvette vermelho, um Audi TT-RS verde e um Toyota GR Supra vermelho.

O conjunto dos veículos foi avaliado em pouco mais de R$ 6 milhões, conforme informações repassadas pelo delegado.

A Justiça também determinou o sequestro de três imóveis, além de medidas de bloqueio de contas e outras restrições patrimoniais.

O bloqueio de R$ 80 milhões foi autorizado judicialmente para alcançar bens e valores de investigados e de uma pessoa jurídica. A finalidade é impedir eventual transferência ou ocultação patrimonial e preservar recursos que poderão ser utilizados para ressarcimento, caso sejam comprovados prejuízos relacionados aos fatos investigados.

O valor autorizado para bloqueio não significa que R$ 80 milhões tenham sido apreendidos ou que esse seja o montante já comprovado de corrupção.

Outra decisão judicial prevê medidas de sequestro de ativos financeiros de até R$ 3 milhões para determinados investigados, além das restrições sobre bens imóveis.

A ofensiva também alcançou a estrutura administrativa municipal. Seis agentes públicos tiveram o afastamento cautelar determinado pela Justiça, enquanto uma empresa investigada foi atingida por ordem de suspensão de atividades econômicas e financeiras.

Durante as diligências, agentes tiveram acesso a documentos, equipamentos e computadores relacionados aos procedimentos administrativos sob investigação.

A promotora Roberta Cheregatti Sanches explicou que informações recebidas em 2026 foram confrontadas com elementos de um inquérito policial instaurado em 2019. A análise de movimentações financeiras e dos bens declarados por servidores ajudou a ampliar as suspeitas.

A primeira fase da Operação Mãos à Obra havia sido realizada em 28 de julho deste ano, quando servidores ligados à fiscalização de obras foram alvo de buscas.

O material recolhido naquela ocasião contribuiu para a ampliação das investigações e para a identificação de outros possíveis participantes do esquema.

A evolução das apurações também levou o Gaeco a examinar a possibilidade de ocultação de patrimônio e de movimentações financeiras destinadas a disfarçar a origem de recursos supostamente ilícitos.

O delegado Getúlio Daniel afirmou que as investigações apontaram para uma possível prática recorrente de irregularidades no setor investigado, com consequências para a administração pública e para a população.

Além de eventuais prejuízos financeiros, obras executadas em desacordo com as exigências urbanísticas podem comprometer a segurança das construções, as condições de moradia e o funcionamento adequado dos serviços públicos.

A Prefeitura de Sinop informou que o município e a Secretaria Municipal de Planejamento Urbano e Habitação não são, enquanto instituições, os alvos da investigação, que se concentra em condutas atribuídas individualmente a servidores.

Em manifestação pública, a administração municipal afirmou que as diligências realizadas na secretaria se destinam à obtenção de documentos e informações relacionados aos investigados. A Prefeitura também declarou que cumprirá as determinações judiciais e continuará colaborando com o Ministério Público e as forças de segurança.

A Operação Mãos à Obra – Fase II foi deflagrada no Dia do Servidor Público. Segundo o Gaeco, a data foi escolhida para reforçar a importância da integridade e da transparência na administração pública, destacando que a investigação se dirige a possíveis condutas individuais e não ao funcionalismo público em geral.

Com os mandados cumpridos, o trabalho dos investigadores entra em uma nova etapa, voltada à análise dos documentos, equipamentos, movimentações financeiras e bens apreendidos.

O Ministério Público pretende aprofundar a apuração sobre os pagamentos suspeitos, identificar os possíveis beneficiários das vantagens indevidas e esclarecer a situação dos empreendimentos imobiliários envolvidos.

As investigações também poderão resultar em medidas nas esferas administrativa e civil, além de eventuais responsabilizações criminais, caso sejam reunidas provas suficientes.

As pessoas presas e os demais investigados têm direito à presunção de inocência, ao contraditório e à ampla defesa. As prisões preventivas e as medidas patrimoniais não representam condenação definitiva.

Até a atualização consultada, não havia manifestação pública das defesas dos presos.

A dimensão das apreensões, o número de imóveis sob suspeita e a possível participação de servidores responsáveis por autorizar e fiscalizar construções colocam a Operação Mãos à Obra entre os episódios de maior repercussão recente envolvendo a fiscalização urbanística de Sinop.

A investigação deverá esclarecer não apenas a responsabilidade individual dos envolvidos, mas também se outras pessoas ou empreendimentos foram beneficiados pelo suposto esquema e qual teria sido o efetivo prejuízo provocado à administração pública e à população.

Veja vídeos

0:00
/0:15
0:00
/0:10