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Por Nayara Cristina
A reta final da disputa pelo Governo de Mato Grosso ganhou mais um capítulo de confronto nesta quinta-feira (1º), a três dias do primeiro turno das eleições. O candidato Rafael Milas (Missão) chegou ao último debate entre os postulantes ao Palácio Paiaguás, realizado pela TV Vila Real, em Cuiabá, disposto a transformar a discussão sobre incentivos fiscais em uma cobrança direta contra o senador e candidato Wellington Fagundes (PL).
Antes do início do programa, durante entrevista à imprensa nas proximidades da emissora, Milas apresentou documentos que, segundo ele, demonstram que empresas ligadas a João Antonio Fagundes Neto, filho de Wellington, foram alcançadas por benefícios tributários concedidos pelo Estado. O candidato levou ainda uma cópia de uma carta de renúncia e afirmou que cobraria de Wellington o cumprimento de uma declaração feita anteriormente durante a campanha.
A provocação decorre da afirmação de Wellington de que estaria disposto a renunciar à candidatura caso fosse demonstrado que integrantes de sua família direta, incluindo mulher e filhos, haviam recebido incentivo fiscal.
“Vou cobrar coerência do senhor Wellington Fagundes se ele vai realmente renunciar à candidatura dele”, afirmou Milas antes do debate.
Entre os documentos apresentados está a situação da Zootec Indústria e Comércio de Produtos Agropecuários Ltda., empresa na qual João Antonio Fagundes Neto aparece como administrador. Registros públicos também apontam a João Antonio Fagundes Participações Ltda. no quadro societário da companhia.
Levantamentos divulgados nesta semana, com base em registros tributários, apontam aproximadamente R$ 1,081 milhão em renúncias de ICMS relacionadas à Zootec entre 2019 e 2025. Outros levantamentos incluem ainda Raça Agro Norte e SGM e chegam a aproximadamente R$ 3,04 milhões em benefícios tributários relacionados às três empresas apontadas como vinculadas empresarialmente ao filho do candidato.
Os valores, no entanto, correspondem a benefícios tributários concedidos às pessoas jurídicas e não representam pagamentos realizados diretamente pelo Governo do Estado a Wellington Fagundes ou ao filho.
A controvérsia ganhou um novo componente durante o próprio debate. Wellington negou que ele ou empresas de seu filho tenham recebido recursos incentivados pelo Prodeic e desafiou Milas e o governador Otaviano Pivetta (Republicanos) a apresentarem provas em sentido contrário.
Documentos divulgados nesta quinta-feira indicam que Zootec e Raça Agro Norte aparecem no painel de renúncia fiscal da Secretaria de Estado de Fazenda, mas com benefícios classificados como “não programáticos”. Os registros apresentados apontam o Regime Optativo de Tributação e não classificam os valores como provenientes do Prodeic.
É justamente nessa diferença que se concentra parte do embate. De um lado, Milas sustenta que a declaração anterior de Wellington tratou genericamente de “incentivo fiscal” e, portanto, os registros de renúncia tributária seriam suficientes para cobrar a promessa de renúncia. De outro, Wellington passou a sustentar durante o debate que a acusação envolvendo especificamente o Prodeic não procede e afirmou que apresentaria documentos à imprensa.
Milas chegou ao encontro com uma carta de renúncia preparada.
“Já trouxe também a cópia da renúncia para facilitar para ele assinar”, declarou.
O candidato do Missão elevou ainda mais o tom ao dizer que pretendia concentrar novamente parte de suas intervenções em Wellington. Milas afirmou que considera necessário confrontar o histórico político do adversário e repetiu acusações que já vinha fazendo ao longo da campanha.
Durante a entrevista, Milas chamou Wellington de “mentiroso” e “corrupto”. As declarações são acusações do candidato do Missão e não representam conclusão desta reportagem. Wellington, em manifestações anteriores durante a campanha, tem rebatido ataques dessa natureza afirmando que possui décadas de vida pública sem condenação por corrupção.
Milas também voltou a mencionar Pedro Henry, que participa da campanha de Wellington, e levantou questionamentos sobre emendas parlamentares destinadas a serviços relacionados à medicina hiperbárica. O candidato relacionou o tema a recursos enviados para instituições de São Paulo e pediu explicações sobre os critérios utilizados na destinação das verbas.
“É um cara que faz muito rolo com emenda, tem muito que explicar”, acusou Milas.
As declarações aprofundam uma rivalidade que atravessou praticamente toda a campanha. Em debate anterior da própria TV Vila Real, Wellington chegou a classificar Milas como “candidato de aluguel” e afirmou que o adversário estaria atuando politicamente para beneficiar Pivetta. Milas rejeita a acusação e sustenta que sua estratégia consiste em confrontar o histórico dos adversários e apresentar o Missão como alternativa dentro do campo da direita.
Nesta quinta-feira, Milas voltou ao assunto ao ser questionado pela imprensa sobre as acusações de que estaria atuando como uma espécie de instrumento eleitoral contra Wellington. Ele negou novamente a tese e afirmou que continuará fazendo questionamentos independentemente dos ataques pessoais que receber.
O confronto sobre os incentivos fiscais chegou ao estúdio pouco depois.
Durante o debate, Wellington negou a acusação envolvendo o Prodeic e desafiou os adversários a comprovarem que empresas de seu filho foram beneficiadas pelo programa. Milas, por sua vez, propôs que os dois colocassem as próprias candidaturas em jogo: caso os documentos apresentados por ele estivessem errados, renunciaria; caso Wellington estivesse faltando com a verdade, caberia ao senador cumprir a promessa anterior e deixar a disputa.
A discussão ocorre nos últimos dias de uma campanha marcada por ataques entre os principais candidatos, questionamentos sobre incentivos fiscais, alianças políticas e acusações envolvendo o histórico dos grupos que disputam o comando do Palácio Paiaguás.
Com o primeiro turno marcado para este domingo, o debate da TV Vila Real encerra o ciclo de confrontos televisivos entre os seis candidatos ao Governo de Mato Grosso. Participaram, além de Rafael Milas e Wellington Fagundes, Otaviano Pivetta (Republicanos), Natasha Slhessarenko (PSD), Maurício Coelho (Mobiliza) e Sargento Laudicério (Agir).
Para Milas, porém, o último encontro serviu também para deixar uma cobrança pública na mesa: saber se Wellington considera que os documentos sobre renúncias tributárias alcançam a promessa que ele próprio fez durante a campanha — ou se sustenta que a declaração estava restrita aos benefícios do Prodeic.
A resposta a essa divergência passou a integrar, a apenas três dias da votação, mais um dos embates centrais da reta final da eleição estadual.
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