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Por Nayara Cristina
Apontado pela acusação como uma das peças centrais da engrenagem montada para executar o advogado Roberto Zampieri, o coronel da reserva do Exército Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas negou participação no assassinato, mas seu interrogatório no Tribunal do Júri de Cuiabá colocou diante dos jurados uma sequência de relações, viagens, dinheiro, mensagens e documentos que o Ministério Público considera fundamentais para reconstruir a logística do crime.
Caçadini foi o último dos três réus a ser interrogado nesta quarta-feira (30), no segundo dia do julgamento. Ele é acusado de integrar a estrutura responsável pelo financiamento e articulação da execução de Zampieri, morto a tiros em 5 de dezembro de 2023, dentro de uma Fiat Toro, nas proximidades de seu escritório, no bairro Bosque da Saúde, em Cuiabá.
Diante dos jurados, porém, o coronel sustentou uma versão completamente oposta. Negou ter contratado a morte, afirmou que sequer conhecia Zampieri e disse estar sendo transformado em uma espécie de “bode expiatório” dentro da investigação.
O problema enfrentado pela defesa no plenário é que Caçadini não está desconectado dos demais personagens do caso.
O próprio coronel confirmou conhecer Hedilerson Fialho Martins Barbosa, apontado pela acusação como integrante da logística da execução e proprietário da pistola 9 milímetros relacionada pela perícia ao assassinato. Caçadini também confirmou que conheceu Antônio Gomes da Silva, executor confesso de Zampieri.
Para explicar essa aproximação, Caçadini afirmou que Antônio havia sido contratado para realizar uma reforma em seu escritório, inicialmente acertada em R$ 40 mil. A versão procura dar uma explicação comercial para a relação entre o coronel e o homem que posteriormente confessaria ter viajado para Cuiabá e matado Zampieri.
Outra conexão que ganhou peso durante o julgamento envolve a viagem de Hedilerson para Mato Grosso.
Hedilerson confirmou em seu próprio interrogatório que desembarcou em Cuiabá no dia do assassinato transportando a pistola 9 mm posteriormente vinculada pela perícia à execução. Ele também declarou que a passagem foi custeada pela Frente Ampla Patriótica, organização criada por Caçadini.
A defesa sustenta que o pagamento da viagem não tinha qualquer ligação com o homicídio. Hedilerson afirma que veio a Mato Grosso para atividade relacionada ao tiro esportivo e que Antônio teria retirado sua arma sem autorização dentro do quarto de hotel.
A acusação apresenta outra leitura.
Durante o julgamento, foram expostas mensagens atribuídas aos envolvidos que, para os investigadores, demonstrariam acompanhamento da operação. Entre elas aparece a expressão “missão cumprida”, enviada por Hedilerson a Caçadini depois do assassinato, além de referência ao início de um “plano de retirada”.

Caçadini negou que a expressão tivesse qualquer ligação com a morte. Ao ser confrontado com “missão cumprida”, argumentou que se trata de uma expressão comum no ambiente militar.
A sequência temporal, no entanto, tornou-se um dos principais pontos explorados no julgamento. Segundo relato apresentado em plenário pela investigação, após a execução Hedilerson teria enviado a mensagem ao coronel e, cerca de 15 minutos depois, outra comunicação mencionando o início do plano de retirada. Na sequência, teria ocorrido uma ligação entre os dois.
Outro ponto de forte pressão sobre Caçadini surgiu com o conteúdo encontrado em seu telefone.
No aparelho do coronel foram localizados arquivos relacionados diretamente a Roberto Zampieri, entre eles fotografia do advogado morto dentro do veículo, certidão de óbito, imagem da fachada do escritório e informações relacionadas ao endereço.
Um dos registros que chamou a atenção da investigação é anterior ao homicídio: uma imagem da fachada do escritório de Zampieri, acompanhada de informações de localização, teria sido salva em 9 de outubro de 2023, quase dois meses antes da execução.
Caçadini negou saber como parte desse material chegou ao aparelho. Alegou participar de diversos grupos de mensagens e afirmou que conteúdos poderiam ter sido recebidos ou armazenados automaticamente.
A acusação também confrontou o coronel com sua proximidade com Aníbal Manoel Laurindo, citado durante as investigações como possível mandante do assassinato em uma das linhas investigativas relacionadas a uma disputa de terras.
Caçadini reconheceu conhecer Aníbal por meio da Frente Ampla Patriótica e relatou encontros com ele, inclusive em Mato Grosso. Negou, entretanto, ter tratado com o empresário sobre Zampieri ou sobre qualquer plano para matar o advogado.
O dinheiro também entrou no centro do interrogatório.
A investigação identificou um depósito de R$ 60 mil realizado em Rondonópolis depois do assassinato. Caçadini negou que o montante tivesse qualquer relação com pagamento pela execução e apresentou uma explicação diferente: afirmou que pretendia utilizar o dinheiro na compra de uma caminhonete.
Segundo sua versão, o negócio não foi concretizado e, por segurança, ele decidiu depositar o valor em uma agência bancária.
A explicação passou a integrar o confronto entre as duas narrativas apresentadas ao Conselho de Sentença. Para a defesa, são operações financeiras e relações pessoais que receberam interpretação criminosa durante a investigação. Para a acusação, devem ser analisadas dentro de um conjunto mais amplo de acontecimentos ocorridos antes, durante e depois do assassinato.
É exatamente nesse ponto que o interrogatório de Caçadini assume papel central no julgamento.
Ele nega ter encomendado, financiado ou participado da morte de Roberto Zampieri. Ao mesmo tempo, reconhece relações com os outros dois homens colocados no banco dos réus e precisou explicar aos jurados uma sucessão de circunstâncias que o aproximam da cronologia investigada.
De um lado está Antônio Gomes, que confessou ter apertado o gatilho. Do outro, Hedilerson, proprietário da arma usada no crime e passageiro de um voo para Cuiabá no próprio dia da execução. No centro da discussão está Caçadini, apontado pelo Ministério Público como integrante da estrutura que teria conectado personagens e recursos necessários à empreitada criminosa.
O coronel rejeitou essa interpretação e declarou estar sendo injustiçado.
Agora, caberá aos jurados decidir se as explicações apresentadas pelo militar são suficientes para afastar a tese da acusação ou se as conexões, mensagens, movimentações financeiras, viagens e arquivos encontrados durante a investigação formam uma cadeia capaz de demonstrar sua participação no assassinato.

O julgamento de Antônio Gomes da Silva, Hedilerson Fialho Martins Barbosa e Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas ocorre no Fórum de Cuiabá e é presidido pelo juiz José Mauro Nagib Jorge. Os três respondem pelas acusações relacionadas ao assassinato de Roberto Zampieri, um dos crimes que desencadearam uma das mais extensas investigações recentes sobre pistolagem e seus possíveis desdobramentos em Mato Grosso.