Ministério Público Federal aponta suposta aquisição ilegal de mercúrio para extração de ouro em mineradoras de Cuiabá e pede indenização de R$ 2,24 bilhões por danos ambientais e à saúde pública.
Da redação | JB NewsCuiabá, 26 de outubro de 2026
O senador eleito e ex-governador de Mato Grosso, Mauro Mendes (União Brasil), e seu filho, o empresário Luis Antônio Taveira Mendes, foram denunciados pelo Ministério Público Federal (MPF) por suspeita de envolvimento em um esquema de contrabando e utilização ilegal de mercúrio destinado à extração de ouro.
A denúncia, apresentada na sexta-feira (23), também envolve Rafael Martins Moreira dos Santos, conhecido como “Piqui”, além das empresas Mineração Aricá Ltda. e Kin Mineração Ltda., localizadas na região do Coxipó do Ouro, na zona rural de Cuiabá.
Segundo os procuradores, as mineradoras teriam adquirido pelo menos 580,37 quilos de mercúrio de origem clandestina entre 2022 e 2023, sem as autorizações exigidas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
O MPF atribui aos denunciados suspeitas de contrabando, crime ambiental relacionado ao uso irregular de substância tóxica e usurpação de bem da União.
Investigação aponta esquema internacional de contrabando
A denúncia é um desdobramento da Operação Hermes Hg, conduzida pela Polícia Federal para investigar o comércio clandestino de mercúrio utilizado em atividades de mineração.
Conforme as investigações, uma organização identificada como Grupo Veggi teria introduzido ilegalmente mais de 5,4 toneladas da substância no Brasil, abastecendo operações de extração de ouro em Mato Grosso e no Pará.
O produto teria ingressado no território nacional principalmente pela Bolívia, escondido em recipientes de outros produtos, incluindo embalagens de xampu e latas de tinta.
Para dificultar a fiscalização, os investigados também teriam utilizado empresas de fachada, documentos fiscais com informações falsas e registros irregulares nos sistemas de controle ambiental.
Segundo o MPF, algumas notas fiscais descreviam o mercúrio como bolas de ferro, sucata e eletrodos, numa suposta tentativa de ocultar a verdadeira mercadoria transportada.
Conversas e documentos são apontados como provas
Entre os elementos apresentados pelos procuradores estão mensagens extraídas de celulares, registros de pagamentos, notas fiscais, planilhas de movimentação financeira e depoimentos colhidos pela Polícia Federal.
Uma das negociações investigadas ocorreu em junho de 2022, quando Rafael Martins Moreira dos Santos teria intermediado a compra de mercúrio destinado à Mineração Aricá.
De acordo com a acusação, o produto foi negociado por aproximadamente R$ 1.300 por quilo, com emissão de documentação fiscal que não identificava corretamente a substância.
Em comunicações analisadas pelos investigadores, o empreendimento foi associado ao nome de Mauro Mendes.
O MPF sustenta que essas referências, somadas a outros elementos da investigação, justificam a inclusão do ex-governador na denúncia.
Os procuradores reconhecem, entretanto, que Mauro Mendes não aparecia formalmente como sócio ou administrador das duas mineradoras. Sua suposta participação é sustentada por elementos indiretos, que ainda precisarão ser avaliados pela Justiça.
Filho do ex-governador aparece na administração das mineradoras
Luis Antônio Taveira Mendes é citado na denúncia por sua atuação empresarial relacionada às mineradoras investigadas.
Segundo o MPF, ele exercia funções administrativas e de representação das empresas, incluindo atividades relacionadas à estrutura de beneficiamento de ouro.
Um geólogo ouvido pela Polícia Federal também relatou que Mauro Mendes esteve nas instalações de uma das mineradoras, acompanhando obras e atividades ao lado do filho.
Para os procuradores, essas informações reforçam a necessidade de apuração da possível participação dos denunciados no esquema.
A presença no empreendimento, isoladamente, não comprova envolvimento em atividade criminosa.
Polícia Federal encontrou mercúrio durante operação
Em novembro de 2023, durante uma etapa da Operação Hermes Hg, agentes federais cumpriram mandados de busca nas instalações compartilhadas pelas mineradoras.
Na ocasião, foram encontrados aproximadamente 5,34 quilos de mercúrio metálico líquido sem comprovação de origem regular, conforme os relatos da investigação.
Os policiais também apreenderam uma agenda com anotações sobre quantidades de mercúrio utilizadas no processamento de ouro.
Os documentos foram incorporados à investigação e analisados em conjunto com informações sobre a produção das empresas.
O Ibama aplicou multa de R$ 1,5 milhão e determinou embargo relacionado à utilização da substância até a comprovação de sua origem legal.
MPF pede indenização bilionária
Além da responsabilização criminal, o Ministério Público Federal solicita que os denunciados sejam condenados, de forma solidária, ao pagamento de R$ 2.242.886.486,00.
O valor corresponde, segundo os cálculos apresentados pelos procuradores, a prejuízos socioambientais e danos à saúde pública associados à utilização irregular de mercúrio nas atividades minerárias.
A estimativa inclui aproximadamente R$ 1,49 bilhão em impactos socioambientais e R$ 747,5 milhões relacionados à exploração de ouro apontada como irregular.
O montante representa um pedido do MPF, não uma indenização já determinada pela Justiça.
Os procuradores também requereram o perdimento de bens e valores considerados relacionados às atividades investigadas.
Mercúrio representa risco ao meio ambiente e à saúde
O mercúrio é uma substância altamente tóxica, utilizada em determinadas atividades de mineração para facilitar a separação do ouro de outros materiais.
Quando empregado sem os controles exigidos, pode contaminar o solo, a água e os organismos aquáticos.
A exposição humana ao metal também pode provocar danos ao sistema nervoso e aos rins, além de representar riscos ao desenvolvimento infantil.
Uma das preocupações ambientais envolve a transformação do mercúrio em metilmercúrio, composto que pode se acumular em peixes e atingir populações que dependem desses alimentos.
Por esse motivo, a comercialização e a utilização da substância estão submetidas a regras específicas de fiscalização e licenciamento ambiental.
Caso será analisado pela Justiça Federal
A denúncia foi apresentada à Justiça Federal em Campinas, no interior de São Paulo, onde tramitam procedimentos relacionados à Operação Hermes Hg.
O MPF solicitou o recebimento da acusação e o prosseguimento da ação penal.
Caberá ao Poder Judiciário analisar se existem elementos suficientes para transformar os denunciados em réus.
Mauro Mendes foi eleito senador por Mato Grosso em 4 de outubro de 2026, após deixar o governo estadual para disputar as eleições. Seu mandato no Senado está previsto para começar em fevereiro de 2027.
Defesa e próximos desdobramentos
Em manifestações anteriores relacionadas à investigação, Mauro Mendes contestou as suspeitas e questionou os elementos utilizados para associá-lo às operações das mineradoras.
A defesa de Luis Antônio também apresentou questionamentos judiciais sobre o andamento da investigação e a relação societária das empresas.
Segundo reportagem publicada pelo portal Primeira Página nesta segunda-feira (26), a defesa dos denunciados foi procurada, mas não havia apresentado posicionamento sobre a nova denúncia até a publicação.
A apresentação da denúncia pelo Ministério Público Federal não representa condenação. Todos os envolvidos têm direito ao contraditório, à ampla defesa e à presunção de inocência.
O caso seguirá sob análise judicial, podendo ter novos desdobramentos conforme as decisões da Justiça Federal.
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