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Jayme fala em “organização criminosa”, prevê novas operações e dispara: “Se eu abrir o bico, acaba Mato Grosso”

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Jayme fala em “organização criminosa”, prevê novas operações e dispara: “Se eu abrir o bico, acaba Mato Grosso”

SEM PROVAS

JB News

Por Nayara Cristina

Senador fez acusações graves durante passagem pela Assembleia, comparou suposto esquema a facções criminosas, mas não revelou nomes, documentos nem a origem das informações

O senador Jayme Campos (União Brasil) abriu uma nova frente de ataques contra o grupo político que comandou Mato Grosso nos últimos anos. Durante visita à Assembleia Legislativa nesta quarta-feira (19), ele afirmou ter informações sobre a possibilidade de novas operações policiais, classificou os fatos investigados no Estado como atuação de uma “organização criminosa” e chegou a dizer que, caso revelasse tudo o que sabe, “acabaria Mato Grosso”.

Apesar da gravidade das declarações, Jayme não apresentou documentos, não revelou de onde partiram as supostas informações e tampouco identificou quem integraria a organização criminosa mencionada por ele. O senador também não esclareceu quais fatos concretos dariam origem às duas ou três operações que, segundo afirmou, estariam próximas de acontecer.

Jayme esteve na Assembleia para atender prefeitos e vereadores no gabinete do irmão, o deputado estadual Júlio Campos (União Brasil). Durante a passagem pela Casa de Leis, foi abordado pela imprensa e transformou a entrevista em uma sucessão de críticas ao governo estadual, ao ex-governador Mauro Mendes (União Brasil) e ao governador Otaviano Pivetta (Republicanos).

“Pelas informações que eu tenho, parece que vêm duas ou três operações. O trem é mais feio do que vocês pensam. Tem que prender, tem que devolver o dinheiro do Estado de Mato Grosso para o povo mato-grossense”, declarou.

Questionado sobre quem poderia ser alcançado pelas supostas investigações, o senador não apresentou nomes ou elementos que permitissem confirmar a previsão. Limitou-se a defender a atuação do Ministério Público, da Justiça e dos tribunais de contas.

“Cadeia não pode ser só para pobre, tem que ser para rico também. Não é só prender o coitadinho da periferia, o ladrão de galinha. Tem que ser apurado. O que tem que ser feito é passar Mato Grosso a limpo”, afirmou.

Na parte mais contundente da entrevista, Jayme comparou o suposto esquema existente no Estado com algumas das maiores facções criminosas do país. A declaração, entretanto, foi feita como opinião pessoal, sem indicação de investigados, provas ou decisões judiciais que sustentassem a comparação.

“Para mim, é organização criminosa. PCC, Comando Vermelho e Irmãos do Norte são fichinha para o que está acontecendo aqui. No Código Penal está lá: formação de quadrilha. Na minha visão, chama-se organização criminosa o que estão fazendo em Mato Grosso”, disparou.

A expressão “formação de quadrilha” foi substituída no Código Penal, em 2013, pelo crime de associação criminosa. Já a configuração de organização criminosa depende do preenchimento de requisitos legais e da comprovação da atuação estruturada de quatro ou mais pessoas para a prática de infrações penais. Essa classificação cabe às autoridades responsáveis pela investigação e ao Poder Judiciário, não podendo ser presumida exclusivamente a partir de uma declaração política.

O senador avançou ainda mais nas insinuações ao mencionar investimentos e concessões rodoviárias realizadas pelo Estado. Novamente, não especificou contratos, empresas, valores, agentes públicos ou irregularidades determinadas.

“Tem o caso daqueles investimentos que estão sendo feitos em relação às privatizações das estradas do Estado. Tem que ser apurado. É só lambança também. Se eu abrir o bico, desculpa a expressão, se eu falar tudo o que sei, acabou Mato Grosso. Uma cadeia vai ser pouca, vão ter que buscar novos presídios”, afirmou.

Embora tenha dito possuir informações capazes de produzir consequências dessa dimensão, Jayme não anunciou a entrega de provas à Polícia Federal, ao Ministério Público, ao Tribunal de Contas ou a qualquer outra instituição. A fala ficou restrita ao campo político, sem a apresentação pública de documentos que permitissem verificar as acusações.

As declarações ocorreram menos de duas semanas depois da deflagração da Operação Heritage, da Polícia Federal, que apura suspeitas relacionadas ao acordo firmado entre o Governo de Mato Grosso e a empresa de telefonia Oi. A investigação alcançou o ex-governador Mauro Mendes e outras pessoas ligadas à antiga administração estadual.

Deflagrada em 6 de agosto, a operação cumpriu 25 mandados de busca e apreensão em Mato Grosso, São Paulo, Rondônia e Ceará. De acordo com a Polícia Federal⁠, o inquérito apura possíveis crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, peculato, lavagem de dinheiro e uso indevido de informação privilegiada, envolvendo suspeitas de desvios na ordem de R$ 308 milhões.

A Justiça também determinou bloqueio e indisponibilidade de bens até aproximadamente R$ 316 milhões, afastamento dos sigilos bancário e fiscal, recolhimento de passaportes e proibição de contato entre investigados. A operação está em fase de investigação e, até o momento, não representa condenação dos envolvidos.

Mauro Mendes nega qualquer irregularidade. O ex-governador sustenta que o acordo com a Oi passou pelo crivo dos órgãos competentes e afirma ser vítima de uma “armação da velha política” para prejudicar seu projeto eleitoral. Ele também declarou que a investigação teria reproduzido denúncias antigas apresentadas por adversários políticos.

Ao ser confrontado com a acusação de que poderia estar por trás de denúncias utilizadas contra o ex-governador, Jayme negou ter provocado a Operação Heritage.

“Eu não sou homem que usa dessa prática. Nunca, jamais, em tempo algum, fiz nenhuma denúncia. Não sou cidadão que vai usar essa prática para interesse político pessoal. O que eu quero é que seja apurado o que está aí”, respondeu.

O senador admitiu, por outro lado, ter procurado o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, juntamente com os senadores Carlos Fávaro (PSD) e Wellington Fagundes (PL), para pedir a apuração das denúncias relacionadas aos empréstimos consignados dos servidores estaduais.

Segundo Jayme, funcionários públicos estariam sofrendo descontos e acumulando dívidas mesmo depois de pagar valores elevados. Ele classificou a situação como um “assalto à mão armada” e cobrou investigação, mas também não apresentou, durante a entrevista, contratos ou casos individualizados.

“Isso me deixa indignado, ver servidores públicos de Mato Grosso sendo roubados à luz do dia. Tem cidadão que já pagou R$ 20 mil, R$ 30 mil e ainda deve R$ 50 mil. Isso é um assalto à mão armada, quase um latrocínio”, atacou.

Além das suspeitas de corrupção, Jayme aproveitou a entrevista para reagir a uma declaração de Pivetta sobre a situação do União Brasil. O governador teria afirmado que Mauro Mendes revitalizou a legenda. Para o senador, ocorreu exatamente o contrário.

“A presença do Mauro no União Brasil foi uma verdadeira tragédia. Ele acabou com o partido. Hoje, o partido não tem nem candidato a deputado estadual. Ele fez política pessoal, pegou os amiguinhos dele, secretários e ex-secretários, e colocou no Podemos, no Republicanos e em outros partidos. Nunca fez nada em favor do União Brasil. Ele destroçou o partido”, acusou.

Jayme lembrou que sua trajetória na legenda começou ainda no antigo PDS e atravessou as transformações para PFL, Democratas e, posteriormente, União Brasil. Também rejeitou a avaliação de que teria sido carregado politicamente pelo grupo de Mauro e Pivetta.

“Tenha vergonha na cara e respeite a nossa história. Eu nunca fiz política no ombro de ninguém. Disputei uma eleição com 11 candidatos e tive quase 500 mil votos”, afirmou.

Na sequência, o senador declarou que ele, Júlio Campos e a ex-prefeita de Várzea Grande Lucimar Campos foram leais a Mauro Mendes na eleição de 2018. Segundo Jayme, houve voto casado e forte mobilização do grupo para garantir o desempenho eleitoral do então candidato ao Governo.

A ofensiva ocorre depois de Jayme perder espaço dentro do União Brasil. Ele pretendia disputar o Governo do Estado, mas a convenção partidária aprovou apoio à candidatura à reeleição de Otaviano Pivetta. Mauro Mendes também consolidou seu projeto eleitoral dentro da legenda, aprofundando o rompimento com a família Campos.

A entrevista na Assembleia expôs esse conflito político, misturando denúncias, ataques partidários e cobranças por investigações. Jayme fez previsões sobre novas operações, falou em prisões e comparou supostos desvios a ações de facções criminosas. Entretanto, não apresentou provas, nomes ou documentos que sustentassem as novas acusações.

Diante da ausência de elementos concretos, as declarações permanecem como alegações políticas do senador. Caberá aos órgãos de investigação esclarecer se as informações mencionadas por ele possuem fundamento ou se o discurso integra apenas o acirramento eleitoral entre antigos aliados que agora estão em lados opostos na disputa pelo poder em Mato Grosso.

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