RISCO DE INTERFERÊNCIA

HERITAGE: Abílio defende investigações em ano eleitoral, mas condena “espetáculo” policial para tumultuar eleições

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HERITAGE: Abílio defende investigações em ano eleitoral, mas condena “espetáculo” policial para tumultuar eleições

JB News

Por Nayara Cristina

O prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini (PL), defendeu que suspeitas de corrupção e desvios de dinheiro público sejam investigadas a qualquer momento, inclusive durante campanhas eleitorais, mas alertou que operações policiais não podem ser transformadas em instrumentos políticos para interferir no resultado das urnas.

A declaração foi dada em meio à polêmica provocada pelo deputado federal José Medeiros (PL), que anunciou a intenção de apresentar um projeto de lei para impedir operações policiais contra candidatos nos seis meses que antecedem as eleições. Segundo Medeiros, medidas deflagradas nesse período podem atingir não apenas o investigado, mas contaminar toda a coligação e desequilibrar a disputa eleitoral.

A proposta surgiu após a Operação Heritage, da Polícia Federal, atingir o ex-governador e candidato ao Senado Mauro Mendes (União Brasil), além de outros integrantes de seu grupo político. Medeiros, que também disputa uma cadeira no Senado e é adversário de Mauro, argumentou que a data da ação levantou dúvidas sobre uma possível interferência no processo eleitoral.

Apesar de ter sido chamada publicamente de “projeto”, a proposta não chegou a ser formalmente apresentada nem entrou na pauta da Câmara dos Deputados. Após a repercussão negativa, a assessoria de Medeiros informou que ele desistiu de protocolar o texto. Portanto, tecnicamente, o projeto não foi “retirado de pauta”: a ideia foi abandonada antes de começar a tramitar no Congresso.

A iniciativa abriu uma divisão dentro do próprio PL. O senador Wellington Fagundes, candidato ao Governo de Mato Grosso, criticou duramente a possibilidade de suspender operações durante a campanha. Para ele, seria absurdo imaginar que uma pessoa não pudesse ser investigada caso praticasse um crime no período eleitoral.

Abílio concordou que nenhuma autoridade ou candidato deve receber proteção contra investigações, mas ponderou que existe diferença entre apurar um crime em andamento e retomar um fato antigo, sem urgência aparente, justamente durante uma campanha.

“Então está liberado roubar em período de campanha? Não pode investigar, não pode fazer nada? Não. Acho que ele está errado nessa opinião, porque pode, sim, e deve. Se tiver qualquer situação de desvio de dinheiro público durante esse período, ou em qualquer período, a operação deve ser feita”, declarou o prefeito.

Segundo Abílio, crimes ou irregularidades que estejam acontecendo no momento precisam ser combatidos imediatamente, sem qualquer blindagem eleitoral. Ele destacou, porém, que ações relacionadas a fatos antigos podem levantar suspeitas quando são deflagradas em datas capazes de causar grande repercussão política.

“Agora, imagine alguém querer investigar um fato do passado, que já não está mais acontecendo, dentro desse período, apenas para tumultuar o processo eleitoral. Acho que esse é o X da questão. Há um equívoco de interpretação e alguém querendo dominar a narrativa”, afirmou.

O prefeito também fez questão de defender a apuração das suspeitas envolvendo Mauro Mendes. Segundo ele, ser aliado ou adversário político não pode impedir o trabalho das autoridades.

“Eu sou a favor de que investiguem o Mauro, que investiguem todo mundo. Investiga todo mundo. Até o Mauro, acredito, é a favor de que seja investigado o mais rápido possível. Agora, há uma diferença entre investigação e instrumentalização de um ato político”, ressaltou.

Na avaliação de Abílio, a preocupação não deve ser apenas com a existência de uma investigação, mas também com a maneira como determinadas medidas são executadas e divulgadas. Para o prefeito, há ações que parecem planejadas para produzir exposição pública, manchetes e desgaste eleitoral antes mesmo de qualquer julgamento.

“O que não pode é transformar ações do poder público em instrumento de perturbação da ordem eleitoral. Está errado? Investiga. Tem alguma coisa errada? Investiga, sem problema nenhum. Agora, existem atos que, às vezes, parecem feitos apenas para produzir mídia e ações publicitárias”, criticou.

Para sustentar seu posicionamento, Abílio citou investigações e controvérsias que envolveram o ex-presidente Jair Bolsonaro durante períodos eleitorais. Ele mencionou o caso da suposta importunação de uma baleia e a investigação sobre certificados de vacinação contra a Covid-19, argumentando que acusações e suspeitas ganharam enorme repercussão política antes de uma conclusão definitiva.

O prefeito também repetiu opiniões de Bolsonaro sobre vacinas, cloroquina e ivermectina. Essas declarações representam o posicionamento político de Abílio, mas não alteram as conclusões científicas e sanitárias de que cloroquina e ivermectina não demonstraram eficácia para o tratamento da Covid-19, enquanto as vacinas reduziram significativamente o risco de hospitalização e morte.

Mesmo discordando da proibição ampla defendida inicialmente por Medeiros, Abílio afirmou compreender a preocupação com o uso político de instituições públicas. Para ele, impedir todas as operações durante seis meses criaria uma proteção indevida aos candidatos, mas ignorar o potencial eleitoral de ações espetaculosas também seria um erro.

A posição do prefeito estabelece uma linha intermediária no debate: investigações e operações devem continuar normalmente quando houver crime, urgência, risco de destruição de provas ou irregularidade em andamento, mas não podem ser planejadas ou exploradas com a finalidade de condenar alguém antecipadamente perante a opinião pública e influenciar as eleições.

“Acredito que isso faz parte do processo. Toda eleição tem isso e esta eleição não seria diferente”, concluiu Abílio.

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