CPI DA SAÚDE

Gilberto vê interesse politico na CPI, desafia acusações de propina e dispara: “Nunca tive medo de tomar decisões”

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Gilberto vê interesse politico na CPI, desafia acusações de propina e dispara: “Nunca tive medo de tomar decisões”

JB News

Por Nayara Cristina

Ex-secretário questiona relatório divulgado por Wilson Santos às vésperas da eleição, defende pagamentos de R$ 1,1 bilhão sem cobertura contratual regular, nega irregularidades e afirma que deixou o Governo mais pobre do que entrou

O ex-secretário de Estado de Saúde de Mato Grosso, Gilberto Figueiredo, reagiu às acusações e aos questionamentos levantados pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Saúde da Assembleia Legislativa e colocou em dúvida o momento político escolhido para a exposição de parte das investigações. Após prestar depoimento nesta quarta-feira (14), ele questionou a divulgação de um relatório preliminar às vésperas das eleições de 4 de outubro, negou envolvimento em esquemas de propina, defendeu decisões administrativas tomadas durante sua gestão e afirmou não temer um eventual pedido de indiciamento.

Em entrevista concedida após a oitiva, Gilberto adotou um discurso firme para rebater os questionamentos do presidente da comissão, deputado estadual Wilson Santos (PSD), e sustentou que os fatos examinados pelos parlamentares já haviam sido submetidos à análise de órgãos de fiscalização e investigação.

“Não tem nada de novo, nada que não tenha sido investigado pela Polícia, pelo Tribunal de Contas ou pelo Ministério Público. Então, mais do mesmo. Algo que já foi dito e que até hoje não se comprovou nenhuma irregularidade, tampouco que eu seja indiciado ou investigado em qualquer operação”, declarou.

O ex-secretário também fez questão de explicar por que decidiu responder às perguntas dos deputados, mesmo tendo a possibilidade legal de permanecer em silêncio diante de questionamentos que eventualmente pudessem produzir autoincriminação.

Segundo ele, o depoimento representou uma oportunidade para defender os resultados da administração estadual na área da saúde durante o governo Mauro Mendes.

“Eu cumpri a minha obrigação. Fui convocado para expor os motivos, os assuntos que elenco a essa CPI. Entendi necessário não me calar, não utilizar o meu direito legal de permanecer em silêncio, mas responder às perguntas, porque acho que a gestão da saúde do Estado de Mato Grosso, sob a gestão do governador Mauro Mendes, merecia enfatizar à população todas as entregas que nós realizamos. Por isso estou tranquilo de ter cumprido minha missão”, afirmou.

Um dos momentos mais contundentes da entrevista ocorreu quando Gilberto foi questionado sobre a coincidência entre o andamento das investigações parlamentares e o calendário eleitoral de 2026.

Candidato a deputado estadual nas eleições deste ano, ele afirmou considerar estranho que fatos administrativos ocorridos cerca de cinco anos antes tenham ganhado destaque justamente durante o período de disputa por votos.

“Eu vou deixar para a população responder. Quase seis anos depois, querer investigar fatos pretéritos de cinco anos atrás. Curiosamente, num momento eleitoral”, declarou.

Gilberto reconheceu que a repercussão das investigações pode ter produzido reflexos sobre sua candidatura, mas evitou atribuir exclusivamente à CPI o resultado obtido nas urnas.

“Eu era um candidato a deputado estadual. Com certeza algum reflexo sempre tem. Não reputo exclusivamente a isso o fato. Eu fui candidato, estava à disposição do pleito eleitoral, a população decidiu democraticamente, fez suas escolhas”, afirmou.

Na avaliação do ex-secretário, a divulgação de informações sobre suspeitas ainda em apuração pode influenciar a percepção do eleitorado, especialmente quando ocorre durante a campanha.

A crítica mais direta foi direcionada à apresentação de um relatório preliminar por Wilson Santos no dia 30 de setembro, apenas quatro dias antes do primeiro turno das eleições.

O documento elaborado pela presidência da comissão reuniu apontamentos sobre pagamentos indenizatórios, contratos e possíveis irregularidades na administração da saúde estadual entre 2019 e 2025.

Gilberto questionou tanto o momento da divulgação quanto a iniciativa do presidente da CPI de apresentar conclusões preliminares antes da finalização dos trabalhos.

“Por que alguém apresenta um relatório preliminar quatro dias antes de uma eleição? Quem faz o relatório de uma Comissão Parlamentar de Inquérito é o relator, não é o presidente. Então, sim, existe uma série de fatos que infelizmente… Eu nunca vi. Essa é uma inovação”, criticou.

A apresentação do documento, entretanto, foi defendida pela presidência da CPI como parte do acompanhamento das investigações. Wilson Santos sustenta que o trabalho busca esclarecer a aplicação de recursos públicos e identificar eventuais responsabilidades administrativas, civis e criminais.

Outro ponto central da oitiva foi a utilização dos chamados pagamentos indenizatórios, modalidade empregada para quitar despesas decorrentes de serviços ou fornecimentos realizados sem cobertura contratual regular.

De acordo com os números apresentados durante os trabalhos da comissão, esses pagamentos alcançaram aproximadamente R$ 1,1 bilhão ao longo do período investigado, entre 2019 e 2025. Gilberto confirmou a dimensão dos gastos, mas argumentou que o montante representava uma parcela reduzida dos mais de R$ 31 bilhões administrados pela Secretaria de Estado de Saúde durante sua gestão.

Wilson Santos questionou principalmente a continuidade dessas despesas depois da fase mais crítica da pandemia de Covid-19, além do crescimento expressivo dos valores pagos por essa modalidade.

Gilberto rebateu a interpretação de que todos esses pagamentos representariam contratos emergenciais mantidos irregularmente.

“Não é contrato. O que ele alega são pagamentos indenizatórios”, esclareceu.

Para justificar a prática, o ex-secretário apresentou uma situação hipotética envolvendo a necessidade urgente de aquisição de medicamentos para pacientes internados em hospitais públicos.

Segundo ele, determinadas circunstâncias exigem decisões administrativas imediatas, mesmo quando não existe um contrato de fornecimento vigente.

“Um diretor do hospital precisa do medicamento que não está disponível no estoque. Ele vai fazer uma cotação e vai comprar sem licitação para salvar o paciente”, exemplificou.

Gilberto afirmou que esse tipo de procedimento não surgiu durante a pandemia e já era utilizado por administrações anteriores, sob normas e decretos estaduais.

“Antes da pandemia já era regulado pelo Governo do Estado isso, e uma série de decretos editados para permitir fazer isso. Então não é algo novo, isso não surgiu na nossa gestão. Historicamente acontece na saúde”, declarou.

O ex-secretário também questionou o motivo de uma prática que, segundo ele, existia havia anos ter se transformado em um dos principais alvos das investigações.

“O que me deixa intrigado é por que agora isso passou a ser um assunto novo, que já era realizado em abundância em outros governos. Fui eu que notifiquei o Ministério Público que isso ocorria na Secretaria de Saúde do Estado”, afirmou.

A justificativa, no entanto, não encerra a discussão sobre a regularidade das despesas. A CPI investiga justamente se a utilização reiterada dessa modalidade respeitou as exigências legais, os mecanismos de controle e as recomendações feitas aos gestores públicos.

Durante o depoimento, também foram levantados questionamentos sobre o cumprimento de orientações expedidas por instituições de fiscalização, entre elas a Controladoria-Geral do Estado, a Procuradoria-Geral do Estado e o Tribunal de Contas.

Gilberto reconheceu que nem todas as recomendações foram necessariamente seguidas, mas afirmou que decisões administrativas precisam considerar situações concretas enfrentadas pelas unidades de saúde.

“Todas as decisões, recomendações, ela já está escrita, é recomendação. E às vezes essas recomendações são ensejadas sem a luz do conhecimento daquilo que está acontecendo lá com pacientes”, declarou.

Ele sustentou que, na condição de secretário, precisava ponderar as orientações burocráticas e as necessidades assistenciais da população.

“Eu tomo decisões que levam em consideração a necessidade do paciente, a vida dele. E nem sempre a burocracia, aquelas recomendações, estão olhando para isso. Eu estou lá no olho do furacão administrando esses fatos”, argumentou.

Gilberto afirmou que discordar de determinadas orientações não significa, automaticamente, reconhecer a prática de irregularidades.

“Algumas você acompanha dentro do possível, outras você discorda e faz aquilo que tem que fazer. Eu nunca fui um secretário que tive medo de tomar decisões”, enfatizou.

Outro momento de tensão envolveu questionamentos sobre o relacionamento entre o ex-secretário e representantes de empresas que mantiveram negócios com a Secretaria de Estado de Saúde.

Durante as oitivas, integrantes da CPI investigaram possíveis relações entre fornecedores e agentes públicos, incluindo suspeitas de pagamentos de vantagens indevidas.

Questionado sobre eventuais reuniões com empresários citados na investigação, Gilberto reconheceu a possibilidade de contatos institucionais, mas negou qualquer negociação ilícita.

Segundo ele, durante a pandemia foi criada uma sala de situação com 14 integrantes para discutir medidas de enfrentamento à crise sanitária, o que exigia reuniões frequentes com representantes de diferentes setores.

“É possível que em algum momento, não de forma isolada, mas sempre com a participação de muita gente. Quero lembrar que durante a pandemia nós tivemos uma comissão, uma sala de situação criada pelo governador, que tinha 14 integrantes. E muitas vezes houve necessidade de sentar em mesa para discutir soluções. É natural”, explicou.

Na sequência, negou categoricamente ter participado de qualquer negociação envolvendo propina ou favorecimento pessoal.

“Mas eu jamais sentei para algum acordo não republicano com qualquer empresa”, afirmou.

Em uma das declarações mais fortes da entrevista, Gilberto utilizou a própria situação financeira como argumento para afastar suspeitas de enriquecimento ilícito durante sua passagem pela administração estadual.

“Eu saio mais pobre desse cargo do que eu entrei quando assumi em 2019”, declarou.

O ex-secretário também reagiu às referências feitas durante as investigações à existência de uma suposta intermediária conhecida como “mulher da saúde”, que teria influência sobre relações entre empresas e a administração pública.

Gilberto rejeitou as insinuações e cobrou que eventuais denunciantes identifiquem formalmente quem seria a pessoa mencionada e apresentem elementos que sustentem as acusações.

“Aqueles que acreditam deveriam dizer quem é, apontar. Houve aqueles que insinuaram que sabiam e iam apontar e nunca o fizeram”, disse.

Ele classificou a utilização da expressão como ofensiva às servidoras da Secretaria de Estado de Saúde e afirmou que suspeitas sem identificação concreta acabam atingindo profissionais que não possuem qualquer relação com possíveis irregularidades.

“Eu acho que é misoginia, sacanagem, depreciação de um patrimônio que tem na Secretaria de Saúde, que são as mulheres que trabalham na secretaria”, criticou.

Segundo Gilberto, mais de 4.500 mulheres integram o quadro de profissionais da pasta, e acusações genéricas podem comprometer injustamente a imagem dessas servidoras.

O ex-secretário também foi questionado sobre a possibilidade de retornar ao comando da Saúde no governo de Otaviano Pivetta, eleito governador de Mato Grosso no primeiro turno das eleições deste ano.

Gilberto descartou a existência de qualquer acordo para reassumir o cargo e afirmou que caberá ao novo governador definir livremente sua equipe administrativa.

“Não tem alinhamento. É meu amigo pessoal, vou torcer muito para que ele fosse reeleito, não tem alinhamento nenhum. Eu acho que agora é a hora dele implementar o seu time e colocar o barco para funcionar”, afirmou.

Ao ser perguntado se pretende indicar nomes para a estrutura do futuro governo, também rejeitou a possibilidade de interferir nas escolhas.

“Quem indica é o governador eleito”, respondeu.

Apesar das críticas à condução dos trabalhos parlamentares, Gilberto afirmou não temer as conclusões da CPI, incluindo a possibilidade de o relatório final recomendar seu indiciamento ou o encaminhamento de suspeitas aos órgãos competentes.

Segundo ele, sua administração já foi submetida a processos de fiscalização, inclusive com análise de contas referentes ao período da pandemia.

“Não. Eu acho que a CPI vai fazer aquilo que é obrigação, vai fazer um relatório. Dependendo do relatório, vai encaminhar para os órgãos de controle para verificar. Como disse, minhas contas já foram até aprovadas na pandemia pelo Tribunal de Contas. Então, assim, eu não temo isso”, declarou.

Instalada em março de 2026, a CPI da Saúde tem previsão de funcionamento até janeiro de 2027 e investiga despesas administrativas, contratações, pagamentos indenizatórios e eventuais falhas de fiscalização na Secretaria de Estado de Saúde.

A comissão também analisa documentos fornecidos por órgãos de controle e depoimentos de gestores e representantes de empresas que mantiveram relações comerciais com a administração estadual.

A investigação parlamentar ainda não foi concluída, e os apontamentos apresentados até agora não equivalem a uma condenação ou à comprovação definitiva de responsabilidade individual. O relatório final poderá recomendar providências e encaminhar elementos aos órgãos responsáveis pela apuração de eventuais ilícitos.

Ao defender sua gestão, contestar o momento eleitoral das investigações e negar o recebimento de vantagens indevidas, Gilberto Figueiredo transformou sua passagem pela CPI em um confronto político e administrativo sobre as decisões tomadas na Saúde de Mato Grosso.

O embate agora se concentra na conclusão dos trabalhos da comissão, que deverá confrontar as justificativas apresentadas pelo ex-secretário com os documentos, os registros financeiros e os demais depoimentos reunidos durante a investigação.

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