INVESTIGAÇÃO

Dono de avião que caiu com três mortos em MT é identificado; aeronave já foi apreendida com 67 kg de cocaína

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Dono de avião que caiu com três mortos em MT é identificado; aeronave já foi apreendida com 67 kg de cocaína

ACIDENTE SOB INVESTIGAÇÃO

JB News

Por Emerson Teixeira

Vanderlei Sattler, de 65 anos, era empresário do setor aeronáutico; Cessna 402 saiu de Goiânia sem plano de voo e Polícia Civil apura possível ligação da viagem com tráfico internacional

A Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec) confirmou a identidade do empresário Vanderlei Sattler, de 65 anos, como uma das três vítimas da queda de um avião registrada no dia 10 de setembro, na zona rural de Água Boa. Natural de Montenegro, no Rio Grande do Sul, ele atuava no setor aeronáutico e é apontado nas investigações como proprietário da aeronave destruída no acidente.

A identificação de Vanderlei foi possível por meio da papiloscopia, procedimento técnico que compara impressões digitais com registros oficiais. Os outros dois homens que estavam no avião seriam cidadãos paraguaios, mas suas identidades ainda aguardam confirmação oficial pelos exames realizados pela Politec. Familiares foram procurados para fornecer material genético para os confrontos necessários.

O acidente, porém, passou a ser investigado para além das circunstâncias da queda. A Polícia Civil tenta reconstruir os últimos passos da aeronave e apura uma série de irregularidades envolvendo o voo, além da hipótese de que o deslocamento pudesse estar relacionado a uma operação clandestina de tráfico internacional de drogas. Essa possibilidade permanece sob investigação e, até o momento, não representa uma conclusão definitiva sobre a finalidade do voo.

Vanderlei era sócio-administrador de uma empresa especializada em assessoria aeronáutica. Conforme os levantamentos policiais divulgados até agora, ele teria adquirido o avião aproximadamente quatro meses antes do acidente.

A aeronave foi identificada como um Cessna 402, bimotor, de prefixo N401NA. Há registros indicando que o modelo envolvido no acidente foi fabricado em 1970. O avião não possuía registro regular na Agência Nacional de Aviação Civil brasileira e apresentava problemas documentais e operacionais que também passaram a ser examinados pelos investigadores.

Um dos principais pontos da investigação é o histórico do próprio avião.

Em 2017, o mesmo Cessna foi apreendido pela Polícia Federal durante uma ocorrência envolvendo o transporte de aproximadamente 67 quilos de cocaína. Depois de permanecer vinculado ao processo criminal, a aeronave acabou sendo levada a leilão judicial e posteriormente adquirida por um novo proprietário. A Polícia Civil agora procura esclarecer todas as circunstâncias relacionadas à aquisição e ao uso do avião nos meses que antecederam a tragédia em Água Boa.

As diligências apontam ainda que o avião permaneceu aproximadamente cinco anos parado e estaria sem inspeção vigente, além de apresentar cadernetas técnicas desatualizadas.

Na manhã de 10 de setembro, Vanderlei e os outros dois ocupantes teriam embarcado no Cessna em um aeródromo de Goiânia, em Goiás. Segundo informações repassadas pelo delegado Carlos Alberto Silva, responsável pela investigação em Água Boa, a aeronave decolou sem plano de voo aprovado e sem a documentação regular exigida para a operação.

A possível rota também entrou na mira dos investigadores. Informações obtidas pela Polícia Civil apontam a Venezuela como provável destino, circunstância que reforçou a linha de investigação sobre eventual utilização da aeronave em uma operação internacional clandestina. A polícia, porém, ainda trabalha para estabelecer com precisão qual seria o destino final e o objetivo daquela viagem.

O avião caiu na Fazenda Santa Rita, nas proximidades da Pedreira Shalon, a cerca de 18 a 20 quilômetros da área urbana de Água Boa.

O Corpo de Bombeiros foi acionado por volta das 8h49. Quando as equipes chegaram, a aeronave estava tomada pelas chamas. Aproximadamente 4 mil litros de água foram utilizados para controlar o incêndio e permitir a aproximação das equipes de resgate.

Depois do combate ao fogo, os militares encontraram os três corpos em meio aos destroços. O impacto e as chamas destruíram praticamente toda a estrutura do avião e deixaram as vítimas carbonizadas, o que dificultou o trabalho inicial de identificação.

Imagens aéreas feitas por drone e a análise preliminar do local indicaram aos peritos que não houve uma tentativa convencional de pouso de emergência. Os vestígios seriam compatíveis com uma queda direta da aeronave.

A Polícia Civil também informou que o avião não possuía equipamentos que permitissem recuperar registros de voz ou dados semelhantes aos encontrados em aeronaves comerciais, o que aumenta a importância da perícia nos destroços, dos registros de manutenção, das comunicações e da reconstrução da rota.

O caso está sob responsabilidade da Delegacia da Polícia Civil de Água Boa. Os investigadores tentam determinar quem eram os dois paraguaios, qual era exatamente a finalidade da viagem, quem participou da preparação do voo, a procedência dos recursos utilizados na aquisição da aeronave e se havia algum tipo de carga ou operação relacionada ao deslocamento.

O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) chegou a fazer avaliação técnica sobre a ocorrência. Posteriormente, segundo resposta atribuída ao Centro de Comunicação Social da Aeronáutica, foi informado que o episódio não seria investigado no âmbito do Sistema de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Sipaer).

Com a confirmação de Vanderlei Sattler, a investigação passa a ter oficialmente identificado um dos três mortos. A Politec continua os trabalhos para estabelecer de forma definitiva as identidades dos outros dois ocupantes, enquanto a Polícia Civil aprofunda a apuração sobre o passado do Cessna, as condições irregulares da decolagem e a suspeita de que a aeronave estivesse sendo utilizada em uma rota internacional clandestina.